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Apenas Mais um Texto sobre ‘Core’.

23 fev

Mark Manders

Instalação Mark Manders

Terapeutas e médicos pareciam ter combinado: Clara precisava fortalecer a musculatura abdominal, caso contrário sua lombar iria continuar a sentir os reflexos do sedentarismo e da postura inadequada. A contribuição da musculatura abdominal na estabilização da coluna vertebral era senso comum, assim, a indicação para o tratamento também era unânime: fortalecimento abdominal. A vendedora de 34 anos, porém, já havia passado por sessões de terapia, aulas de Yoga e Pilates, treinamento funcional e RPG sem que as dores nas costas dessem algum sinal de recuo.

Clara havia aprendido a encaixar a pelve, usar a respiração para ativar o abdome, acionar a musculatura pélvica e manter as costelas conectadas. Após tantas horas de exercícios físicos, ela acabou assimilando uma série de instruções corretas e adquiriu um apurado senso postural sem, contudo, poder usufruir dos benefícios proclamados. Entre uma prescrição e outra, Clara passou a ouvir uma palavra em uníssono, por vezes usada como substantivo, outras como marketing.

Core” parecia uma palavra da moda e, ao mesmo tempo, uma sinopse de todo o complexo que envolvia a musculatura abdominal. No Google, Clara havia encontrado nada menos que 15 milhões de sugestões para core dentro do contexto procurado.

inner_core_muscles Músculos profundos que compõe o cilindro abdominal

Como um cinturão muscular, o core encerra o peritônio a partir da coluna, costelas e pelve. Em sua dimensão mais profunda – inner corset-, os músculos do core abraçam o tronco sem dobrar, girar ou inclinar a coluna, estabilizando-a. Isso diferencia-os de outros músculos do mesmo complexo – outer corset.

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Plano transverso: músculos profundos contraídos e superficiais relaxados

Logo, Clara percebeu que os exercícios físicos que enfatizavam movimentos de flexão, rotação e inclinação do tronco estimulavam músculos que não eram capazes de estabilizar a coluna com eficiência, pois fatigavam rapidamente, o que não podia ser esperado de fibras capazes de manter a postura.

Assim, Clara passou a separar o trabalho da musculatura postural daquela que participava dos movimentos do tronco. Acertadamente, ao invés de dedicar-se a séries intermináveis e flexões abdominais, ela começou a relaxar os músculos abdominais superficiais para evidenciar as camadas mais profundas.

Uma rota indireta para se atingir o inner corset é tirar vantagem da contigüidade fascial entre a musculatura do assoalho pélvico e deste cinturão abdominal. A base do core é o triângulo anterior do períneo e, quando o períneo é contraído, as fibras inferiores do inner corset também são ativadas. Assim que Clara conseguiu ativar a musculatura profunda independentemente da superficial, entendeu sua ação estabilizadora e sentiu resultados imediatos. Estava assim lançada as bases para livrar-se das dores que há tanto tempo a acompanhavam.

Embora os músculos profundos do abdome possam participar da respiração, os superficiais também ajudam. Logo, simplesmente levar o umbigo à coluna durante a expiração não tinha mais significado para ela.

Encontrar uma posição neutra para a coluna vertebral e ser capaz de mantê-la durante a execução dos exercícios físicos foi outra estratégia encontrada pela vendedora para atenuar as dores nas costas. Clara, antes de tudo, passou a evitar o efeito de “ioiô” na pelve, deixando mesmo alguns exercícios de lado quando não conseguia manter a estabilidade necessária para sua execução.

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Efeito ‘ioiô’ ocorre quando a musculatura é insuficiente para resistir (R) à força (F) durante os exercícios.

Os exercícios de flexão e extensão das pernas, por exemplo, passaram a ser feitos dentro de uma pequena amplitude de movimento, mas com grande consciência sobre o movimento. Aqui, as palmas das mãos sob a lombar ofereciam um input valioso sobre a mobilização de sua coluna na realização dos exercícios.

ab_yoga_9 Posicionar as mãos sob a lombar em alguns exercícios oferece um input valioso sobre a mobilização da sua coluna.

Clara, enfim, havia percebido que, antes de lançar-se à realização de exercícios desafiadores, era preciso desenvolver sua consciência corporal e assim restabelecer o alicerce de sua prática. Isso demandava paciência e, em não raras vezes, tornava exercícios simples extremamente difíceis para ela.

Apesar das dificuldades, o surgimento de benefícios quase imediatos após tantos anos de prática abriu o caminho para que Clara pudesse livrar-se das dores e isto, por si só, mudou completamente a relação que tinha com seu próprio corpo e lhe serviu de motivação para uma prática diária que a acompanha até hoje.

Fora dos Trilhos

4 mar
Transformation, 2011 Ville Andersson
Transformation. Ville Andersson.

O maior peso que somos capazes de carregar é igual ao peso suportado pelo nosso ponto mais fraco. Na tentativa continua e diligente de nos esquivarmos deste ponto, nascem desequilíbrios posturais importantes.

Roubar dos pontos mais suscetíveis o trabalho árduo para entregá-lo aos segmentos mais fortes e estáveis do corpo é uma coisa que fazemos o tempo todo no intuito de superar nossas dificuldades.

Pode-se buscar corrigir este déficit fortalecendo isoladamente os locais comprometidos. É possível até mesmo recrutar algumas poucas fibras de um único músculo através de estímulos elétricos. Não basta, porém, fortalecer o elo mais fraco, é preciso reintegrá-lo à corrente.

Desenvolver partes específicas do corpo é tão dispendioso quanto ineficiente. Na prática, não é possível conceber um corpo capaz de mover-se no espaço pela ação exclusiva de apenas um de seus segmentos. As interações mais distantes são tão relevantes quanto as afinidades mais próximas e diretas. O corpo desintegrado pode apresentar força e mobilidade, mas não expressa coerência.

Quando levantamos um peso, recrutamos muito mais que os músculos diretamente relacionados à tarefa. As estruturas que controlam, estabilizam e mantém o equilíbrio do corpo como um todo são solicitadas. O controle integrado da postura determina a performance funcional.

“Os ganhos de força podem ser conquistados sem mudanças estruturais no músculo, mas não sem adaptações neurais” (Roger Enoka). A força não é uma característica do músculo, mas do sistema nervoso como um todo e, portanto, todo o corpo deve ser objetivado no exercício do movimento.

Nos estúdios e academias de ginástica, os limites impostos ao corpo pelas máquinas, equipamentos e aparelhos têm lugar privilegiado na reabilitação do corpo enfermo, mas ao cercearem a amplitude e os planos de movimento, impedem a transferência dos ganhos conquistados para além dos parâmetros trabalhados. Há pouca equivalência entre o ambiente “in vitro” que circunscreve o movimento nestas condições e a imprevisibilidade da vida diária ou da prática esportiva.

Ao buscar a precisão do gesto dentro das infinitas possibilidades do movimento acabam sendo deixados de fora o erro, o desequilíbrio e a imprevisibilidade – variáveis que devem ser incorporados ao exercício na qualidade de instabilidade e assim aproximá-lo do real.

Quando o caminho que trilhamos deixa de ser regular e previsível, o automatismo é abandonado e o cortex motor assume a responsabilidade pela manutenção da marcha, abrindo espaço para o aumento do repertório gestual.

Com o aumento das possibilidades para a correção de eventuais desequilíbrios, abre-se caminho para mudanças nas bases sobre as quais o movimento está construído: a postura. O desequilíbrio, nestas condições, muito mais do que evitado, deve ser buscado.

Livros legais: Neuromechanics of Human Movement – 4th EditionTherapeutic Exercise: Foundations and Techniques 5th editionPrinciples of Neural Science –  5th edition.

O Calibre da Linha.

22 maio


Stella Harper Left Brain, right brain

“O movimento é o único meio que temos para interagir com o mundo ao redor, quer migrando de um continente a outro em busca de comida ou chamando a atenção de um garçom. De fato, toda a comunicação, incluindo a fala, os sinais, os gestos e a escrita é mediada pelo sistema motor. Deste ponto de vista, o propósito do cérebro humano é um só: produzir movimento. ” 

Daniel Wolpert

14 de maio de 2013, 20:30 horas, uma trombose acomete o hemisfério esquerdo do córtex cerebral de L.M.C., 58 anos, sexo masculino. Os movimentos coordenados do lado direito do corpo, assim como da face, estão perdidos. A fala resume-se a um rosnar sem sentido. Apenas os olhos ainda lutam para manter algum brio e assim expressar a angústia que brota diretamente da alma. Sob os evidentes sinais de “derrame”, a afecção ainda esconde algo mais profundo que escapa ao observador e ao observado.

Tanto o hemisfério esquerdo quanto o hemisfério direito do cérebro processam igualmente as informações recebidas, mas cada um à sua maneira. Enquanto o hemisfério direito pensa por imagens e aprende cinestesicamente através da relação do movimento do corpo com o meio, o esquerdo organiza as informações de modo metódico e categoricamente, contextualizando o momento presente e ponderando sobre as conseqüências futuras, desfazendo a névoa sobre a miríade de estímulos provenientes da experiência direta.

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811).

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811)

O colapso no hemisfério esquerdo do cérebro faz emergir um mundo diferente. Um lugar onde o tempo e o espaço abandonaram seu papel regulador para ceder lugar ao limbo. Neste momento, recorrer à autoridade da forma e da estrutura pode submeter o caos à ordem e lançar luz sobre o tumulto.

Poucas coisas são tão despretensiosas quanto uma reta, uma esfera, um cubo. A clareza de suas formas traduz de tal maneira a complexidade dos conceitos que, sem hesitar, elegemos a simplicidade robusta da linha no lugar de sua expressão algébrica. Através da representação, o conceito é prontamente apreendido em sua estrutura.

A.I. Kapandji (capa Phisiologie Articulare). A.I. Kapandji

De fato, as linhas a partir das quais o movimento se expressa nada têm de contínuas, não há vértice nos ângulos do corpo, não há um centro no meio da circunferência. Existe, sim, um instantâneo, uma resultante efêmera do tempo que se manifesta em carne e osso, expressão fugaz da resilência orgânica frente às adversidades do meio.

 A coordenação motoraS. Piret e M.M. Bézier

A simplicidade das formas, sua disponibilidade imediata, sua súbita apreensão pelos sentidos, entretanto, conecta vigorosamente o abstrato ao concreto e tem o poder de interferir decisivamente no curso da ação, estabilizando-a. Não se trata de mimetizar a forma com o corpo, mas recrutar instâncias intelectuais para mudar o trajeto do movimento, elucidando-o.

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UK Iyengar Yoga Convention – Cambridge 2013

Instruções que suscitem imagens claras e objetivas ancoram o corpo a planos e linhas, tornando um movimento infinitamente complexo passivo de apreensão instantânea. Assim como o alinhamento postural concernente à prática de Yoga, a organização do corpo em torno de uma geometria orgânica lança luz sobre o ponto de partida de toda ação: o momento presente. Se não há consciência sobre o lugar que se ocupa no espaço, ainda que se vislumbre a linha de chegada, não é possível saber qual o caminho tomar.

Memorial do Açougue

8 fev

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Destrinchamos o corpo em pedaços para melhor apreendê-lo. Esta é nossa maneira de entender as coisas e a própria expressão de nossa natureza inquiridora. A tudo perscrutamos com régua e compasso a fim de nos aproximarmos da verdade.  Enquanto o fragmento colhido não for reduzido, localizado e delimitado, enquanto não puder ser enredado em nossa teia de significações, não podemos sequer vislumbrá-lo.  E assim, a golpes de facão, abrimos uma picada em direção à compreensão.

Desbastamos tudo o que encontramos pela frente para que possa caber em categorias, ser armazenado e, enfim, envolvido pelo entendimento. Avançamos trilha adentro, deixando para trás um caminho pilado, fácil de ser seguido.  A cada passo, acomodamo-nos a tudo aquilo que nos contém e suporta.

O ser humano só “se dá” ao ambiente na medida em que ele obriga o ambiente a “dar-se” a ele”.

Thommas Hanna

A fragmentação inerente ao método científico, analítico por natureza, é reflexo dessa nossa condição epistemológica.  A pesquisa, enquanto processo, nada é além da efígie talhada a partir do modo pelo qual construímos conhecimento.

Não é difícil imaginar como, a partir do desenvolvimento das ciências, os meios de produção se apropriaram da prática científica.

Chaplin

O homem na sala de planejamento, cuja a função é planejar, descobre invariavelmente que o trabalho pode ser feito de modo mais econômico se as tarefas forem subdividadas; cada ato de um mecânico, por exemplo, deve ser precedido por vários atos preparatórios realizados por outros homens

Frederick W. Taylor

Ao ser cooptado pelos meios de produção, o corpo não é mais subdividido para fins de análise, mas por motivos econômicos. Em não raras vezes, a busca pela verdade sucumbe à busca pela eficiência. As descobertas passam a ter um fim em si mesmo; tornam-se trade marks e patentes. Órfã do contexto em que se originou e destituída de sua função elementar, a pesquisa apodrece no pé

A conseqüência mais funesta deste sistema é a completa desconexão entre o detalhe e o todo. Neste ambiente, toda busca se torna estéril e qualquer resultado inócuo. A redução do corpo a partes autônomas, estruturais ou fisiológicas, nada tem de natural e se presta apenas a retroalimentar o sistema que busca moldar, concertar ou aperfeiçoar o organismo, instalando o corpo no moto-contínuo vertiginoso dos resultados segmentados e imediatos.

marombeiro old school

A natureza, quando deixada em paz, irá delicadamente recuperar-se da desordem em que se encontrava. É nossa ansiedade, nossa impaciência que estragam tudo, e quase todos os homens morrem de seus remédios, não de suas doenças.

Moliére

O corpo não se relaciona com o ambiente de modo fragmentado e, portanto, não deve ser tratado como uma somatória de peças soltas. A unidade corpórea é radical e significa a própria vida entendida como tal. Não existe esquartejamento que não signifique desnaturação.

Abalos Sísmicos

30 dez

William Cheselden Osteographia 1733

William Cheselden, Osteographia 1733.

“Refinamento é inevitável quando você mede um fenômeno por um longo período de tempo”. Charles Francis Rischter

As mudanças estruturais, que alteram definitivamente a maneira como nos relacionamos com o espaço, não vêm do alongamento intenso exigido para explorar o movimento em toda sua amplitude, ou da energia gasta para levantar grande quantidade de peso. Transformações de fato têm seu lugar nos níveis mais profundos do corpo, onde reside o início de toda ação, em um ponto tão mais suscetível a mudanças quanto mais sutis e precisas são as exigências que recaem sobre ele.

Sobrevive na origem do movimento a postura nuclear, onde o menor abalo engendra mudanças exponenciais por todo o corpo. São as alterações na raiz da ação aquelas que, antes de qualquer outra, respondem aos desafios impostos pela vontade e carregam em si a gênese da mudança.

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Postura invertida de apoio sobre os ombros (salamba sarvangasana).  Análise da atividade muscular (EMG) da região lombar .

Cada músculo do corpo guarda profunda identidade com o trabalho para o qual foi designado e carrega uma missão, uma incumbência que evidencia sua especificidade. Recrutar músculos superficiais para assumir funções posturais, ou atribuir a músculos posturais e profundos a responsabilidade pelo levantamento de peso, por exemplo, podem ser erros caros ao corpo. Além do elevado custo energético e do desgaste precoce que esta perspectiva engendra, a reprogramação em bases disfuncionais só consolidam o erro, tornando-o inexpugnável com o tempo.

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Postura de apoio unipodal (vriksasana). Atividade assimétrica na musculatura lombar.

“Trabalhar a postura” significa, simplesmente, trabalhar posturalmente. Para acessar o eixo em torno do qual se desenrola o movimento é preciso buscar o equilíbrio inerente a sua estrutura e enfatizar a estabilidade no cerne da ação.

Desta maneira, “como fazer” tem primazia sobre “o que fazer”. Os predicados da força – e não a força em si – têm o poder para promover e perpetuar mudanças.

A mobilização simultânea de articulações e músculos em múltiplos planos – e não a ação de um músculo isolado em um plano único do movimento – evidencia o denominador comum a toda ação, integrando todo o corpo em torno do próprio eixo ao invés de desagregá-lo.

A constância, a continuidade e a virtual imobilidade que constituem o equilíbrio postural indicam que a ênfase no tempo de permanência, muito mais que nas séries de repetição, cria as condições de acesso necessárias aos padrões posturais.

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Sinal EMG bruto do longuíssimo do dorso em salamba sarvangasana

A atividade muscular não diminui devido à imobilidade do corpo, mas em resposta à melhora do equilíbrio postural. Em desequilíbrio, o corpo recruta grande quantidade de força para manter a estabilidade. Se fraco, debruça-se sobre a própria estrutura para evitar o colapso. Equilíbrio e força expressam-se inversamente no corpo: a ausência de um aumenta a dependência do outro.

A sintaxe entre o movimento e sua estrutura instala-se quando os ruídos e maneirismos do corpo se dissipam à luz do detalhe e do respeito à singularidade do indivíduo. Uma atividade física suave pode ser tão palatável quanto inócua. Se extenuante, tão cansativa quanto estúpida.

Grandezas inversas no corpo, força e equilíbrio requerem, enfim, a intervenção da inteligência para sua simbiose.

A atenção voltada ao movimento – e não para fora dele – lança as bases para o aprendizado psicossomático: chave para a sintonia fina entre conteúdo e expressão, motor de mudanças profundas e definitivas.

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salamba sarvangasana

A postura deve ser estável e confortável (sthira-sukhan asanam II – 46)

* créditos nos comentários

Caminho de Volta.

6 maio

‘I walk alone’ de Gottfried Helnwein (2003)

Todos nós temos um potencial latente, não desenvolvido por completo, acumulado à custa do esgotamento de sistemas mais econômicos e confortáveis. De maneira congênita, apoiamos nosso desenvolvimento sobre estruturas mais convenientes, repetindo padrões de movimento à exaustão.

Com sulcos profundos cavados no caminho da ação, tendemos a incorrer na vala já aberta dos enganos, a despeito da riqueza de movimentos disponível. Nossa conduta motora está dominada por atividades reflexas inconscientes, reforçadas e consolidadas pelo tempo.


Protuberâncias e sulcos na cabeça do úmero evidenciam-se com o tempo em função das tensões exercidas pelos tendões que cruzam a articulação.

Muitas vezes, um movimento não é deturpado durante sua realização, mas em sua concepção. Por não participar de nossa narrativa motora, determinado movimento simplesmente não é concebido e, portanto, a chance de realizá-lo inexiste.

Assim, o desenvolvimento do potencial motor passa, necessariamente, pelo aumento de seu repertório.

Atividades físicas que exploram a riqueza e a diversidade de movimentos não são, em si, garantia de alteração na maneira como respondemos aos desafios propostos, tampouco de mudança nos padrões adquiridos. Sem a nossa intervenção deliberada, percorreremos sempre o mesmo atalho, ainda que de maneiras diferentes e de acordo com a natureza da atividade física proposta.

Trilhar um caminho realmente diferente e sem obstruções requer disciplina para abrir uma picada em meio a padrões consolidados e enfrentar percursos frequentemente mais longos e tortuosos.

Liberdade com disciplina é liberdade de fato. (BKS Iyengar).

O desenvolvimento motor inicia-se pela estabilização da cabeça, do tronco e, por último, dos membros, seguindo uma direção cervico-caudal. A aprendizagem de movimentos coordenados, entretanto, segue o caminho inverso, propagando-se das extremidades do corpo em direção à cabeça.

Desde nosso desenvolvimento embrionário, a posição da cabeça influi no movimento total do corpo. Virar a cabeça para o lado e olhar um objeto leva imediatamente o pescoço, os ombros e o tronco na mesma direção. Quando agarramos o objeto, são os dedos das mãos que irão recrutar cotovelos, ombros e tronco para movimentá-lo. O caminho de ida é diferente do caminho de volta.

Aos 6 meses de vida os movimentos descontrolados dão lugar a um controle progressivo da cabeça, dos membros e do tronco.

O movimento irradiado a partir das extremidades do corpo, onde estruturas delicadas contam com grande mobilidade e precisão, interfere na organização de estruturas mais fortes, responsáveis pela manutenção postural, por exemplo.


Ameya Gokhal 2008. BKS Iyengar ajustando praticante de yoga. 

Dispositivos complexos como as mãos e os pés reorganizam o movimento global do corpo ao conectarem-se a unidades de transição como os ombros, quadris e escápulas, promovendo mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o espaço. A propagação de um movimento voluntário para outro não é causal e segue um padrão específico dos grupos musculares (Charles Sherrington).

A implicação das extremidades do corpo no aumento do repertório somático  possibilita a aprendizagem de movimentos antes desconhecidos. Só então uma a atividade física que explore a riqueza de movimentos poderá promover a mudanças de fato.

Morfina

9 dez

Lasser Skarbovik para The New Yorker

“A alegria é um sonho, a dor é real”
Arthur Schopenhauer.

Aprender passa pelo corpo. Mesmo os conceitos mais abstratos ou as deduções mais hipotéticas edificam-se a partir de pequenas peças de estímulos sensoriais e motores que nascem da interação do corpo no espaço.

Desta maneira, a inteligência não pode ser amputada da estrutura anatômica e morfológica que nos constitui, uma vez que é esta mesma estrutura a responsável pela maneira que percebemos o que percebemos.

Lasser Skarbovik para Smith Alumnaue Quarterly

Ainda que sejamos capazes de refletir de maneira livre e independente do mundo sensorial, manipulando habilmente signos ligados a uma realidade distante, não é possível separar em nenhum momento o constructo mental de nosso organismo. O corpo é a caixa de ressonância que confirma, molda ou nega o conhecimento adquirido.

Diferente, porém, das especulações imaginárias e suposições generalistas criadas pela inteligência, o corpo desgasta-se, perde agilidade, sente as intempéries do meio. O corpo sofre e a inteligência perde a lealdade de seu fiel interlocutor.

 Utskrift de Lasser Skarbovik  

Não se trata de envelhecimento. Tão pouco são fatores genéticos ou ambientais os responsáveis pela degradação do corpo e do conseqüente comprometimento cognitivo. É o sofrimento e mais precisamente, a fuga da dor que, antes de qualquer coisa, molda o corpo e interfere na maneira como percebemos a realidade.

Ao menor sinal de desconforto, deformamos, trapaceamos, sobrecarregamos estruturas em detrimento de outras, produzimos compensações e desequilíbrios. Estamos dispostos a tudo para fugir da dor e, frequentemente, pagamos um preço alto pelo nosso conforto.

Entendemos equivocadamente a dor como algo a ser extirpado a qualquer custo e não medimos esforços para atingir este objetivo. A dor é o mais soberbo e presunçoso indício de que estamos errados e isso nos irrita. Não estamos, afinal, habituados a aceitar os próprios erros com condescendência.

Free Drawing de Lasser Skarbovik 

A dor deve ser ouvida antes de contestada.  Suas árduas palavras buscam desobstruir vias da percepção e devolver a fluência ao movimento,   restituindo à inteligência a fidelidade do corpo.

A dor surge para por fim à dor.

O corpo entrevado não interage , não assimila, não aprende. O ser vivo requer liberdade de movimento para existir como tal.