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Coreografia da Pedra

1 out

Capa da revista A1, por Dave Mckean

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento. Não há carne nem alma;

Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe,

Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível,

Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso,

Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo,

Não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável,  resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Kazuo Ohno – The Written Face

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.

Via de mão dupla

19 jun

Dançamos, pulamos, corremos, movimentamo-nos nas três dimensões do espaço enquanto nossa cabeça, em cima de todo esse fuzuê, permanece relativamente imóvel, desfrutando de certa calmaria. Para o bom funcionamento de nosso organismo, a cabeça é mantida um tanto independente dos movimentos do corpo, requisitando para isso informações contínuas sobre nossa posição no espaço. O corpo, porém, só participa definitivamente como integrante deste mesmo espaço em virtude do sentido da visão.

O sistema visual está conectado aos sensores de posição desde o início de nossa gestação. Intimamente relacionado aos músculos posturais, o sentido da visão tem a tarefa de manter o mundo estável, fazendo os ajustes necessários nos olhos, na cabeça e na postura para compensar as mudanças no fluxo óptico que acompanham as alterações de movimento.

A visão é, portanto, fonte direta de informações sobre o próprio corpo e ajuda a ligar nossa imagem ao meio. Podemos nos enxergar no espaço e calibrar continuamente o sistema motor. Esse aspecto perceptivo contribui para a construção da própria imagem.

A interpretação das informações visuais sobre o movimento no espaço – visão consciente, foveal – fornece dados de como o corpo se relaciona com o ambiente e, desta maneira, educa o corpo, desempenhando papel postural preponderante. Com freqüência a propriocepção visual se sobrepõe ao sistema vestibular e leva a um senso de movimento equivocado. Por exemplo, quando você está parado no trânsito e o carro ao lado começa a movimentar-se, você tem a súbita impressão que está se movendo também.

L´homme et son esprit-illus.Folon (Le Livre de Sante -v.10- 1967)

As informações recebidas dos órgãos dos sentidos e interpretadas à luz da consciência sofrem interferência da própria consciência. É fácil constatar a dificuldade que sentimos em nos concentrar quando estamos preocupados, agitados ou assustados. Nestas condições, deixamos de ouvir um interlocutor que nos fala diretamente ou de enxergar um objeto imediatamente à nossa frente e, naturalmente, sofremos os reflexos posturais desta situação.

Se, por um lado o movimento é influenciado pela consciência e pelas emoções, por outro prefigura a maneira como nos tornamos conscientes de nós mesmos e contribui não apenas para organizar o desenvolvimento das estruturas neurais responsáveis pela ação motora, mas como nos comunicamos com os outros e nos relacionamos com o meio. A “corporificação molda a mente” (Shaun Gallagher, 2005) e pode tornar-se a via franca para reverter um processo de déficit de atenção ou distração, por exemplo.

A interferência de nossa visão sobre nossa postura é óbvia. Para manter o equilíbrio, buscamos continuamente pontos estacionários no ambiente onde podemos ancorar nosso olhar.  Durante a execução de posturas unipodais de Yoga, como ardha-chandrasana, vriksasana ou virabhadrasana III, evidencia-se a dependência da estabilidade óptica no equilíbrio postural, assim como a influência da concentração na manutenção destas posturas.  E como em uma via mão dupla, a execução destas posturas irá exigir que deixemos de lado toda a série de estímulos capazes de interferir na realização destas posturas, selecionando e aperfeiçoando nossa capacidade de focar.

Ardha Chandrasana

Qualquer parte do corpo pode ser trazida à luz da consciência e também pode, felizmente, deixar de depender de nossa intervenção para  seu funcionamento. O corpo trabalha sozinho para manter a postura e governar o movimento com base nas informações recebidas de inúmeras fontes. Assim, uma pessoa normal e saudável pode, de modo geral, esquecer-se de seu corpo durante boa parte de sua rotina diária. O corpo cuida de si mesmo e, desta maneira, libera o sujeito para que, com facilidade, dedique-se a outros aspectos práticos de sua vida.

Árvores que Andam

6 fev

Para ser bem executada, uma postura de Yoga exige que nosso corpo esteja profundamente alicerçado em seus apoios. Pés no chão, mãos unidas, cabeça apoiada, ombros amparados e, depois de tudo isso, se ainda sobrar alguma ponta solta, haverá quem encontre um modo de amarrá-la.

Quando um membro ou qualquer segmento do corpo está apoiado sobre uma superfície, sua ação colide com o apoio e volta em direção à origem.  Em seu retorno, a força aplicada aumenta a compressão articular e estimula os sensores (proprioceptores), o que aprimora a sincronicidade da contração muscular e melhora a estabilidade postural.  Quando o movimento das mãos é interditado por uma parede, por exemplo, toda a cadeia muscular dos braços e costas é imediatamente recrutada e passa a se exercitar ao mesmo tempo.

Interiorizada, a força nem sempre é conduzida por canais apropriados e requer nossa intervenção. A manipulação deliberada e consciente das linhas de força que cortam o corpo durante a interceptação do movimento tem o poder de alterar profundamente uma postura, refazendo os caminhos pelos quais passam habitualmente essas linhas.

Ao realizar uma ação interna, manejamos os vetores de força com o propósito de promover o equilíbrio articular, diminuir as forças de cisalhamento sobre os ossos e aprumar as cargas axiais, redefinindo o alinhamento postural.

Assim, durante a execução de uma postura de Yoga, o movimento ganha vida na absoluta imobilidade do corpo.

Para mover livremente os segmentos do corpo no espaço, ao contrário, imobilizamos o tronco e acionamos isoladamente o segmento desejado. Ao levantar um halter, sentados em uma cadeira, acessamos a articulação do cotovelo sem mobilizar significativamente o ombro, as escápulas ou as costas, por exemplo. Este movimento aumenta as forças de distração (separação articular) no cotovelo e recruta o bíceps do braço para manter a articulação unida. Essa estratégia é fundamental quando uma articulação está comprometida e deve ser preservada enquanto outras partes do corpo precisam ser exercitadas.

No cotidiano, porém, as habilidades biomotoras de vários segmentos do corpo são continuamente combinadas para a execução de determinado movimento e dificilmente podem ser esgotadas em termos de extensão, flexão ou rotação de um único membro. A combinação de exercícios que misturam imobilidade e mobilidade segmentar aproxima-se das atividades funcionais cotidianas e ampliam as possibilidades de tratamento e reabilitação.

Nas rotinas de Pilates, essa mistura é levada adiante com o propósito de estabilizar a musculatura profunda do cilindro abdominal e integrar as cadeias musculares envolvidas na preparação para o movimento. O transverso do abdome, o multifidio, o assoalho pélvico, o diafragma e o oblíquo quando trabalham afinados, liberam os músculos motores para trabalhar livre e eficientemente. O intervalo entre a preparação e a ação é crucial para a saúde articular, destacadamente da espinha.

Na rotina diária, durante o treinamento físico ou nas sessões de terapia, não basta evidenciar a conexão entre os segmentos com o todo ou tentar descobrir quais músculos são demasiadamente fracos ou exageradamente tensos, mas considerar a conexão do impacto da estrutura (forma e anatomia), da função (forças e coordenação motora) e mente (consciência). Esta orquestra é regida pelo sistema nervoso e diretamente influenciada pelas emoções.

Robôs Sonham com Colheres Elétricas.

5 jan

Prolongamento exposto do sistema nervoso no espaço, a mão liga o cérebro ao mundo e ensina nossa percepção a respeito do volume, distância, textura e temperatura das coisas, ao mesmo tempo em que põem em prática nossos sonhos e projetos de vida. Como palavras, as mãos têm o poder de manifestar nossas reflexões mais subjetivas e materializar as idéias mais abstratas.

Andromeda de Auguste Rodin

A precisão, a abundância de movimentos e a riqueza funcional da mão associadas à inteligência humana têm o poder de interferir agudamente em nosso habitat, tornando o mundo em que vivemos um mundo ‘feito a mão’ pelo homem. A inteligência não é a grande vantagem adaptativa do ser humano na natureza. Sem as mãos, a inteligência tagarelaria sozinha sobre um oceano de estímulos e impulsos. O binômio córtex superior- polegar opositor é o grande ator de nossa ingerência no mundo e o que distingue a nossa história na Terra das demais espécies.

Alterando sua forma, a mão facilmente se adapta à superfície de um objeto, identificando-o mesmo sem a necessidade de recorrer à visão. Nossa precisão tátil não apenas sente o estímulo, mas tem a faculdade de transformá-lo rapidamente em percepção e, consequentemente, em conhecimento.

Para atender a uma ordem do cérebro, as mãos solicitam com freqüência as articulações dos punhos, cotovelos e ombros, tornando o membro superior um conjunto funcional único.

Tendões extensores dos dedos das mãos. Google Bodybrowser.

Os tendões que fecham e abrem as mãos são longas alavancas musculares que se estendem dos cotovelos até os punhos. Os músculos que estabilizam o cotovelo, por sua vez, começam no ombro e ligam o braço ao tronco. Assim, as mãos organizam o movimento de todo o cíngulo superior e posiciona nosso corpo de modo a obter a maior eficiência possível no desempenho de suas funções.

A falta de precisão configurada pelos longos braços de alavanca (tendões) característicos da musculatura extrínseca das mãos é compensada pela independência dos pequenos músculos interósseos e lumbricais entre os dedos. Temos, enfim, a combinação única entre força e precisão que define nossas mãos.

Atitudes viciosas que não podem ser detectadas habitualmente são francamente expostas durante a execução de posturas de Yoga.

Marcas da mão contra superfície plana.

Quando nos apoiamos com as mãos no chão, por exemplo, podemos sentir com exatidão os pontos que tocam o solo com mais intensidade e aqueles que mal roçam a superfície. Se a adaptabilidade da mão a um objeto é imperativa, sua inaptidão irá necessariamente exigir compensações e abrir espaço para acochambrações nem sempre desejáveis que, com o tempo, podem resultar em patologias nos ombros (mais freqüentes).

Detalhe de mãos em bakasana ou adhomoukha vriksasana (parada de mãos), com encurtamento dos extensores dos dedos.

Quando praticamos posturas de equilíbrio sobre os braços (arm balances) é bacana notar como nossas mãos respondem às exigências das posturas. Desequilíbrios entre extensores e flexores da mão tendem a tirar os dedos do chão quando mais precisamos deles. Isso aumenta a pressão sobre os canais e sulcos na base das mãos, diminuindo o espaço pelos quais passam os tendões e nervos com destino às pontas dos dedos, colocando em risco a vitalidade das mãos.


Detalhe dos cotovelos em Adhmoukha Svanasana com mãos bem abertas, mas cotovelos dobrados em função do encurtamento dos extensores dos dedos.

Usar os interósseos e flexores para corrigir este problema é fundamental para estender completamente os dedos e distribuir o peso do corpo sobre toda a superfície das mãos. Músculos hipertrofiados do antebraço, neste caso, tendem a dobrar os cotovelos. O tríceps do braço deve ser requisitado para alinhar os braços e corrigir a postura.


Adhmoukha Svanasana com braços e mão estendidas.

De modo geral, a prática de Yoga exige maior amplitude de movimento em segmentos do corpo naturalmente rígidos e fortes, como as pernas e as articulações do quadril, ao mesmo tempo em que propõe o fortalecimento de estruturas que contam com mobilidade inata, como as mãos e os ombros. Desta maneira, a prática de Yoga recruta nossas características inatas e leva o equilíbrio entre estabilidade e força a um novo patamar.

A Deriva.

17 nov

Da cabeça até a bacia, toda a extensão das costas está coberta pela coluna vertebral, que assenta o peso do corpo, vértebra após vértebra, com carga crescente até articulação sacro-ilíaca. Não há conexão semelhante na parte anterior do corpo, onde músculos e tecidos conjuntivos suspendem segmentos intermitentes, do occipital ao ossos púbico. Se estruturas rígidas como as vértebras suportam as forças compressivas nas costas, são composições flexíveis como as dos músculos escaleno, intercostais e abdominais que suspendem os segmentos na frente do tronco, equilibrando o corpo.

Como cordames atados a um mastro de vela, os músculos do pescoço equilibram o crânio sobre a cervical. A grande mobilidade da cabeça no espaço não é dada pela articulação do crânio com o pescoço (a. occípito-atloidiana), mas pela coluna cervical e, indiretamente, pelo corpo como um todo.

A posição da cabeça em relação ao corpo resulta das curvas fisiológicas, das deformidades e forças que agem na coluna. Ao mesmo tempo, os músculos que começam na base do crânio e pescoço desempenham papel fundamental na determinação da postura global ao suspenderem a parte anterior do corpo, das primeiras costelas até a pelve. Assim, a posição da cabeça é, ao mesmo tempo, causa e efeito de nossa postura.

‘Sanduichados’ entre músculos retesados e ligamentos poderosos, as artérias que nutrem o cérebro (carótidas), as vias de drenagem venosa (jugulares) e o sistema nervoso guardam relação muito estreita com os elementos móveis da coluna cervical.

Preservar o espaço destinado a estes elementos livre de obstrução dentro do pescoço requer intervenção deliberada na postura, uma vez que a rigidez torácica e dos membros superiores aumenta as exigências sobre a cervical e acaba sacrificando estes espaços.

Dobrar o pescoço para trás (hiperextensão) sem envolver o tórax, sobrecarrega a musculatura anterior da cervical, colapsa as espinhas vertebrais e diminui o diâmetro do pescoço, como evidenciam as pregas na pele da nuca. Tontura, náusea e dispnéia ao olhar para cima são sinais claros de que algo não vai bem e requer mudança. O praticante com rigidez torácica deve priorizar a mobilidade na região peitoral antes de trabalhar a flexibilidade na região do pescoço.

Ao elevar o primeiro par de costelas e descer os ombros, aumentamos a profundidade da cintura escapular, harmonizando a curva cervical. Graças aos músculos intercostais, todo o conjunto das costelas sobe, facilitando a respiração.

Não se trata simplesmente de favorecer um peito projetado à frente, tipo militar, mas um peito aberto, que conceda amplo espaço às artérias que irrigam o cérebro e mantenha livre de qualquer obstrução o sistema nervoso dentro do canal raquidiano.

O yogue B.K.S. Iyengar chama a região entre os primeiros pares de costelas e a clavícula de ‘olhos do peito’. Quando a musculatura peitoral está enrijecida, os ombros vêem à frente, o osso esterno desce e os ‘olhos se fecham’. Toda a musculatura posterior do corpo entra em tensão permanente, da base da nuca aos calcanhares.

Tanto no método proposto por B.K.S. Iyengar quanto na prática de Ashtanga Vinyasana Yoga, os ajustes posturais são amplamente empregados para criar condições seguras e necessárias para a evolução dos exercícios.

Posturas de Yoga cujo apoio recai sobre a cabeça ou ombros evidenciam de maneira quase caricatural muitos dos desequilíbrios posturais do praticante, porém as correções e ajustes aqui são difíceis e delicados. De execução aparentemente fácil, posturas como Sirsasana ou Sarvangasana escondem significativo risco de contusão. Se o pescoço é como um mastro de vela, imagine virar o barco de quilha para cima e equilibrá-lo sobre o mastro: a relação de forças se inverte. O corpo das vértebras cervicais é cerca de 50% menor que as lombares e não foi projetado para receber o peso do corpo todo. Assim, mais do que equilíbrio e força, o praticante precisa ter plena consciência de seu corpo para obter um alinhamento preciso na postura.

‘Sem saber onde estamos, não sabemos como chegar’. A consciência corporal deve ser adquirida antes em posturas em pé, sobre as quais temos mais controle do corpo, e evoluir gradualmente. Blocos, cadeiras e cintos podem ser encontrados pelo caminho.

Os desequilíbrios e assimetrias ficam evidentes à medida que aumentamos as exigências sobre a estrutura do corpo, e devem ser observados e corrigidos a tempo de evitar lesões. Ter consciência do alinhamento preciso da cervical e da cabeça, do equilíbrio lateral e ântero-posterior do corpo, da posição dos ombros são pré-requisitos para realizar a postura Sirsasana com segurança, por exemplo.

Para afinar nossa percepção sobre o próprio corpo é preciso coragem para encarar nossas dificuldades de frente e trabalhar com disciplina e desapego na realização de mudanças estruturais. É preciso coragem para se olhar no espelho e buscar não aquilo que queremos ver, mas aquilo que se esconde atrás do olhar.

Asas para Voar

18 out

Todo o grande conjunto formado pelos braços, ombros e escápulas prende-se ao corpo através de uma estreita rota em forma de “s” chamada clavícula, que desembarca no alto do peito por uma pequena articulação, a esterno-clavicular. Podemos facilmente imaginar a imensa liberdade de movimento que esse desenho propõe.

Cintura escapular vista de cima

A conexão dos membros superiores ao corpo não está baseada na robustez de suas articulações ou na precisão dos encaixes, mas na força dos músculos que grudam os braços ao tronco. Nos vertebrados, o encaixe das patas anteriores é de uma timidez notável se comparado à vigorosa articulação do quadril que conecta as patas traseiras à bacia. A estabilidade dos membros superiores não depende, assim, da estrutura articular, mas da força dos músculos que, dispostos em camadas, cresce em complexidade dentre os vertebrados até que alguns de nós possam alçar vôo.

Além da grande mobilidade oferecida por este modelo, ele se presta a proteger os sistemas vitais envolvidos pela caixa torácica, distribuindo o impacto sofrido pelos braços por 10 pares de costelas dispostas em cone, de cima para baixo, como um grande amortecedor de mola.

Em movimento ou parado, sob tensão ou relaxado, a posição do sistema formado pelos braços, ombros e escápulas depende do equilíbrio dos músculos que atuam sobre ele. A resultante das forças não apenas determina a posição dos braços em relação ao tronco, mas adapta continuamente a posição do tórax e, consequentemente do corpo todo, às solicitações dos membros superiores, colaborando para definir nossa postura patente.

Quando os ombros vêem à frente, o peito se “fecha”, a curva lombar aumenta e o tórax é recuado para atrasar o centro de gravidade e diminuir o desequilíbrio. Para manter a horizontalidade do olhar, o pescoço se dobra e o queixo avança.

Quando os músculos das costas são mais curtos que os do peito, os ombros são puxados para trás. O desequilíbrio posterior leva o abdome para trás e o esterno é empurrado para frente, projetando as costelas.

Tais desequilíbrios podem ser congênitos ou funcionais e ter origem em fatores extrínsecos ao tronco. Independente da origem, a correção postural contribui muito para eliminar estas deformidades.

Uma das muitas sacadas do yogi B.K.S Iyengar foi encarar o osso esterno como um painel de controle apto a desencadear mudanças posturais em todo o corpo. O conjunto formado pelas escápulas, braços e clavículas tem no osso esterno sua âncora no esqueleto, “levante o esterno” passa a ser a senha para iniciar a reorganização do tórax no espaço e preparar o corpo para posturas mais equilibradas e saudáveis.

Na postura Dandasana o osso esterno sobe ao mesmo tempo em que empurramos as mãos para baixo como se quiséssemos nos levantar do chão. Os músculos que se prendem às escápulas irão puxar as costelas para cima e alongar a coluna. Dandasana é a base para a maioria das posturas sentadas e o alongamento da coluna cria as condições para que flexões e rotações sejam praticadas de maneira equilibrada e segura.

Dandasana

Ao alinhar as costas é preciso muita atenção para não trazer a lombar à frente, situação evidenciada pela projeção anterior das costelas inferiores (8º a 10º par destacadamente). Esse blefe é muito comum para esconder restrições na mobilidade da pelve e tronco.

Uma postura de Yoga (ásana) é um momento privilegiado de observação e análise. Além de salientar eventuais desequilíbrios do corpo, o ásana expõe as soluções encontradas por nós para sobrepujar e, frequentemente, escamotear as dificuldades enfrentadas na prática de Yoga. Como um fotograma, o ásana aponta o ardil que os olhos não vêem e os sentidos não captam, mostrando os riscos assumidos pelo praticante para atingir determinados objetivos. Habituados que estamos a resultados imediatos, encarar as dificuldades de frente e reorganizar nossa postura consome mais tempo e disciplina do que estamos acostumados a investir.

Em não raras vezes, escolhemos a saída mais conveniente e, no exato momento em que os fins passam a justificar os meios, perdemos toda a riqueza de informações sobre nós mesmos oferecida pelo caminho do auto-conhecimento, pela prática sincera e pelo exercício consciente. Quando optamos pela ilusão do atalho, ironicamente, nos esforçando muito e não saímos do lugar.

O Som do Fogo.

18 set

Pensamos no músculo como um guincho, que produz força para levantar, carregar e puxar, mas que nada faz para soltar a carga a não ser deixá-la cair. A intuição de que o músculo se contrai para gerar movimento e simplesmente relaxa para voltar ao seu formato original não é verdadeira e prejudica tanto o entendimento sobre o movimento como reduz na prática as possibilidades do corpo.

Quando decidimos nos movimentar, coletamos informações dos sentidos, da memória e do sistema nervoso para formar uma imagem que levará os segmentos do corpo nesta ou naquela direção. A exatidão com que a imagem é reproduzida pelo corpo depende assim de nossa aptidão física e da acuidade com que a imagem original é pintada pelos órgãos dos sentidos.

Tudo o que enxergamos encontra-se dentro de um cone de 15 graus ligado à nossa retina, e todos os sons que ouvimos restringem-se a freqüências entre 20Hz e 20kHz sentidas pelo tímpano. Os sentidos iluminam uma fração da realidade como uma lanterna acesa em um quarto escuro: se iluminamos as pernas de uma cadeira, logo imaginamos a cadeira completa. O cérebro se incumbe de colocar o encosto e o acento que faltam para dar significado ao que estamos vendo. Assim, aquilo que percebemos depende em grande parte de nossa própria memória e experiência. O que enxergamos, pode não corresponder à realidade, mas necessariamente fará sentido, pois é parte de nossa própria criação.

Ao fazer uma postura de Yoga (ásana) não pensamos nas fibras musculares que deverão ser estimuladas para levar nosso corpo a determinada posição, sequer nas articulações envolvidas no processo. Simplesmente formamos uma imagem a partir das palavras do professor ou de sua demonstração e levamos nosso corpo na direção do retrato pintado por nós mesmos, com maior ou menor aptidão. Restrições motoras certamente irão interferir no ásana, mas a aptidão física não é mais importante que nosso poder de interpretação, conhecimento e experiência. Enfim, a nossa capacidade para realizar um ásana está diretamente ligada à imaginação e inteligência.

Falta de conhecimento, preconceito e medo limitam as possibilidades do corpo da mesma maneira que afetam nossa percepção da realidade. Logo, suplantar obstáculos físicos e psicológicos que se interpõe entre nós e o próprio corpo requer conhecimento e coragem para mudar a forma como enxergamos mundo.

Se o movimento é visto como resultado de uma contração muscular, a imobilidade costuma ser entendida como seu antônimo, a pausa entre uma ação e outra. Pensamos no músculo como uma estrutura especializada em transformar energia química em movimento. Movimento que é tão importante à vida que frequentemente é tomado por um sinônimo dela. A imobilidade, o rigor mortis, portanto, seu fim. Porém, o músculo está sempre ativo, mesmo quando está imóvel, alongado ou relaxado.

Quando servimos chá, por exemplo, fazemos força para tirar o bule da mesa (a – contração concêntrica do bíceps), seguramos firmemente o bule parado sobre a xícara (b- contração isométrica do bíceps) e por fim, alongamos o braço para devolver o bule à mesa (c – contração excêntrica do bíceps). O músculo do bíceps não parou um segundo de trabalhar, ainda que tenha ficado imóvel a maior parte do tempo.

Mesmo quando estamos totalmente relaxados, estatelados no sofá de casa, a tensão muscular é a maior responsável por manter nossas articulações unidas (alongamento passivo). São os elementos contráteis do músculo, e não apenas o tecido conectivo que os encerra, os maiores responsáveis pela resistência à tensão (Magid A, Law DJ. Science 1985;230:1280-1282).

Nossos músculos também fazem força, gastam energia e ficam fatigados quando estão parados ou alongando. A força realizada por um músculo sobre o osso é até mesmo maior quando ele se distende do que quando se contrai, mobilizando grande quantidade de energia para este fim.

Enoka, R.M. Neuromuscular Basis of Kinesiology

Se entendemos o músculo como uma estrutura capaz de fazer força somente quando se contrai e encurta e que, para retornar ao seu formato original, relaxa e se distende passivamente, amputamos razoavelmente as possibilidades do corpo.

Em Chaturanga Dandasana é necessário força para tirar o corpo do chão apenas com a força dos braços. Para compensar a fraqueza do bíceps, preparamos a musculatura peitoral (contração concêntrica) para estabilizar os ombros e empurramos o chão com toda a força que conseguimos juntar. As escápulas basculam para baixo e suas bordas internas são projetada assim para cima, longe das costelas, abusando do serrátil e provocando aumento da cifose.

Chaturanga Dandasana (m.peitoral em contração concêntrica)

Se, ao invés de nos esforçarmos para empurrar o chão, pensarmos em descansar a caixa torácica sobre a resistência do músculo peitoral (contração excêntrica do peitoral), a situação muda e passamos a desfrutar de uma postura mais equilibrada e inteligente. Em contração excêntrica, o peitoral é mais forte e estabiliza a postura tranquilamente. O peito permanece aberto e a respiração, prejudicada pelo efeito estabilizante do diafragma, é facilitada.

Chaturanga Dandasana (m.peitoral em contração excêntrica)

Para conseguir manter esta postura por períodos cada vez mais longos de tempo, assim como para avançar na prática de outros ásanas de Yoga, é preciso mobilizar os músculos certos de forma inteligente, tornando o esforço muscular mais eficiente possível, sem aumentar distorções.

No entanto, não temos acesso direto às fibras musculares e somos virtualmente incapazes de excitar pontualmente os motoneurônios que as estimulam. Muitas vezes, músculos inteiros são completos estranhos dentro de nosso corpo, sobre os quais não temos nenhuma ascendência, conformando zonas de exclusão com grande potencial para lesões. Lançar mão da imaginação e do conhecimento para provocar respostas musculares e nervosas que coloquem o corpo obscurecido pela alienação sob a luz da consciência é uma maneira para introjetar uma realidade maior, que está além de nossa observação e percepção, e mostrar ao corpo novos horizontes.