Emovere

25 jan

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Emovere é uma palavra em latim que significa movimento e expressão. Emovere também está na raiz da palavra emoção.

Intuitivamente, interpretamos facilmente traços de personalidade e humor a partir de sinais do corpo. Em silêncio, o corpo transcende cultura, etnia e espécie e se faz entender.

Certo estado de espírito pode ser traduzido em gestos, movimentos e posturas. Assim, um animal pode expressar afeto, raiva, apreensão ou medo com o corpo, deixando claro o que sente e quais suas intenções. Da mesma maneira, o ator interfere voluntariamente nos sinais do corpo para criar sua personagem, construindo uma outra identidade. Por sua vez, a desconexão entre os sinais do corpo e a maneira como são interpretados, origina emoções igualmente desconexas, apontando para patologias severas como os transtornos de ansiedade e de humor.dancer

O cérebro dos mamíferos libera substâncias neurotransmissoras que desencadeiam alterações no estado emocional e modulam a liberação de hormônios. Os chamados neuropeptídeos têm efeito sobre as áreas cerebrais responsáveis pela modificação dos parâmetros de humor, excitação, depressão e dor. No sistema nervoso, estas substâncias são responsáveis pela comunicação que ocorre entre os neurônios e irão influenciar a execução de todas as atividades físicas e mentais de nosso organismo. O sistema nervoso, porém, não é o único destino destas substâncias, que encontram receptores espalhados pelos tecidos e órgãos de todo o organismo, desencadeando reações pelo corpo como um todo e expressando-se de modo singular.

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O estado adrenérgico encontrado em pessoas ansiosas, por exemplo, tende a acompanhar um alto tônus muscular, o que coloca a musculatura em estado de tensão permanente, alterando a maneira como o corpo se organiza no espaço.

Assim, na busca pela disfunção do movimento, tão importante quanto determinar as causa subjacente à disfunção somática é buscar entender a dinâmica que orquestra estes estados.

Interagindo continuamente com o meio ambiente, o corpo é o lugar par excellence onde a experiência acontece. Os sinais que provém do corpo são organizados, categorizados e integrados pelo sistema nervoso a outras experiências formando as representações básicas daquilo que chamamos de ‘eu’. Uma mente tranquila, assim, reside onde as representações básicas do organismo são fidedignas às experiências provenientes do mundo.

Se as informações procedentes do corpo são truncadas ou distorcidas, assim será o gesto.  Logo, as representações do organismo e do meio estarão em conflito. Neste caso, o desequilíbrio tende a persistir a guisa de intervenções.

Desta maneira, o ser emocional está no núcleo do movimento e não deve ser negligenciado.

Assediar o movimento com atenção e executar ações precisas, com clareza de propósito e consciência evidencia os processos mentais e os movimentos ulteriores. A compreensão de que o corpo e a consciência formam um todo sustenta as estratégias que irão por às claras os padrões motores recorrentes e lançar luz sobre os processos mentais.

Se a atenção não está alocada no próprio corpo durante o movimento, não há consciência e os exercícios passam a ser executados mecanicamente. Sem reflexão, os padrões viciosos são consolidados e ampliados. Na melhor das hipóteses, este trabalho é inócuo e se traduz em completa perda de tempo.

Apenas quando a atenção se debruça sobre a postura e movimento, o foco é interiorizado e o exercício leva ao aprendizado, este sim promotor de mudanças. O exercício assim terá impacto no indivíduo como um todo.

crédito das ilustrações: Free Daily Drama Game

2018

21 dez

Promessa de ano-novo é sinônimo de fracasso premeditado. Perder peso, guardar dinheiro, entrar em forma, estudar, viajar, fazer trabalho voluntário, organizar gavetas, mudar de emprego, namorado ou marido. Talvez o excesso de champanhe nos leve a crer que chegou o momento de colocar em prática tudo aquilo que empurramos com a barriga a vida inteira e ainda não conseguimos tirar do papel. Pois o “ano-que-vem” chegou.

Coisa nenhuma muda enquanto os valores, crenças e temores de ontem persistirem. Podemos até ficar um pouco frustrados com nossa própria resignação frente aos fatos, mas nada que nos leve a virar a mesa. Enquanto não nos desapegamos daquilo que somos, dos papéis que exercemos ou das funções que ocupamos, tendemos a continuar exatamente onde estamos a despeito de nossos esforços.

A idéia de abhininvesa, como apresentada nos Yoga Sutras por Patanjali, presta-se muito bem para elucidar nosso eterno retorno ao ponto de partida. Causa de aflição, abhininvesa relaciona-se ao nosso apego à vida e medo da morte. A morte, contra a qual cada ser vivo trava uma feroz batalha desde seu nascimento até o fim derradeiro, está na raiz da vida e “(…) a impressão latente causada pela experiência da dor da morte é a mesma tanto no sábio quanto no ignorante” (Bangali Baba).

Situados em algum lugar entre “sábios” e “ignorantes”, transportamos astutamente nosso medo da morte para lugares onde podemos exercer alguma influência sobre ele, por exemplo, no trabalho, no âmbito familiar ou junto aos amigos. Dentro das divisórias do escritório ou cercados pelos muros do condomínio nos sentimos mais seguros para travar nossa luta diária pela vida.

O conceito de abhininvesa não aborda estritamente o fim da vida biológica, ainda que este seja sua matéria-prima, mas relaciona-se com a ideia de fim em geral. O medo atávico da morte acaba sustentando o continuísmo, a repetição e nosso eterno retorno à linha de largada. Nada muda significativamente enquanto não formos capazes de nos desapegar daquilo que somos, de perder o medo.

Por outro lado, a cada minúscula, precisa e corajosa incisão feita por nós em nossa própria índole refletirá profundamente em nossa conduta, em nossos costumes e na vida, promovendo mudanças exponenciais em tudo aquilo que gravita ao nosso redor.  Neste contexto, expectativas sofre o futuro perdem completamente o sentido, pois você estará sempre a uma ação de uma vida completamente diferente.

Em 2018 não faça promessas: “seja a mudança que você quer ver no mundo” (Mahatma Gandhi).

नमस्ते

Franca e João

Retiro de Yoga em Paraty

24 set

A imagem pode conter: 1 pessoa, texto
Programação para o Retiro de Ashtanga e Bhakti Yoga.

☆Programação Diária:

Sexta-Feira, 20/10

16:30 – Check in e Ambientação
20:00 – Jantar
21:00 – Descanso

Sabado, 21/10

06:00 – Prática de Yoga
07:30 – Meditacao no Templo
08:00 – Palestra do Srimad Bhagavatam
09:00 – Café da manhã
10:30 – Caminhada e Cachoeiras
14:00 – Almoço
15:00 – horário livre e terapias opcionais
16:30 – Aula de Yoga Tecnica
20:00 – Jantar
21:00 – Descanso

Domingo, 22/10

06:00 – Prática de Yoga
07:30 – Meditacao no Templo
08:00 – Palestra do Srimad Bhagavatam
09:00 – Café da manhã
10:30 – Caminhada e Cachoeiras
14:00 – Almoço
15:00 – Despedida

 

Detalhes sobre acomodações e preços aqui.

O não movimento.

30 jul

Quando nasce, a criança lança braços e pernas em direção ao espaço em interação com o mundo. A combinação entre força e potência usada pelo bebê muitas vezes não é lá muito eficiente e, à primeira vista, parece desordenada e sem sentido. Fato é que sem o devido controle, a busca por um chocalho ou brinquedo se perde no caminho em direção ao objeto.

O movimento que expressa intenção requer um freio, um limite, um não-movimento. Neste contexto, liberdade e constrição não são antagônicos, mas variáveis da mesma equação e coexistem. São as restrições que se impõe ao curso do movimento, ao lado dos estímulos primeiros responsáveis pela ação, aquelas capazes de promover a completa expressão do corpo.

Com o passar dos anos, a impossibilidade de realizar toda a amplitude do movimento gesta movimentos compensatórios. É a eficácia do gesto, sua funcionalidade, e não sua qualidade que irá modelar o sistema nervoso e, consequentemente, todo o corpo em sua relação com o ambiente. A diversidade dá espaço a soluções econômicas e a variabilidade é deixada de lado para ceder espaço à estabilidade.

Tônus elevado em cadeia extensora leva não apenas à dificuldade de flexão dos quadris, mas de sua rotação interna e de flexão e eversão do tornozelo. A restrição imposta pelo cinto altera o curso da postura.

 

Assim, intervir no curso da ação ou postura está além do plano meramente cinético ou cinemático e envolve informação e mudança comportamental. Durante o aprendizado, ou ‘reaprendizado’, a maneira como se executa um movimento deve predominar sobre qual movimento executar e, a partir desta premissa, alterar o curso da ação em direção a seu objetivo.

 

Se recrutados na abertura do braço, os músculos que fazem a rotação externa do membro diminuem o trabalho para elevá-lo e aumentam a cooptação da articulação do ombro, aumentando sua propriocepção. 

 

Anteparos e suportes que parecem impor limites à ação, antes estabelecem as bases para a mudança. As restrições ao movimento com o objetivo de ampliá-lo são incapazes de promover alterações em si, devem antes ser associados a informações pertinentes ao gesto, abrindo caminho importante não só para a mudança como para o autoconhecimento.

Yoga no Parque, 24/06.

5 jun

Convidamos a todos para participar do Dia Internacional do Yoga no parque Vicentina Aranha no sábado, 24 de junho de 2016. Vai ter tanta gente boa no evento que os horários acabam inevitavelmente coincidindo. Então resolvemos pinçar algumas aulas imperdíveis. As informações foram extraídas do material de divulgação da organização do evento que segue. A entrada é na faixa!

DIA INTERNACIONAL DO YOGA NO VICENTINA

08h00 ABERTURA | Local: Bambuzal

08h30 – PRÁNÁYÁMA, RESPIRAR BEM PARA VIVER MELHOR | Local: Sala de Leitura Reginaldo Poeta. Com Marcela Bigarella, instrutora de Hatha Yoga, Yoga Restaurativa.

08h30 – YOGA ASHTANGA | Local: Atrium Pavilhão São José. Com Zé Rangel, praticante de yoga há mais de 15 anos dos quais quase 10 são dedicados ao Ashtanga.

09h45 – MEDITAÇÃO | Local: Quiosque Alfredo Galvão. Com Cláudia Sato, professora de Yoga e Mindfulness, certificada pelo Yoga Alliance dos EUA. TT 220h.

09h45 HATHA YOGA | Local: Bambuzal. Com Eduardo Pereira, professor formado em Hatha Yoga pela UNITAU especializado em Yogaterapia, co-fundador do projeto Yoga no Parque; e Luci Ferreira, Professora de Hatha Yoga no Jardim do Yoga SJC e na FCCR.

09h45 YOGA MÃES & BEBÊS | Local: Quiosque São José. Com Renata Machado, psicóloga, instrutora de Hatha Yoga, yoga para gestantes e yogaterapia. Terapeuta floral e reikiana.

11h YOGA DO CANTO | Local: Bambuzal. Com Jesica Lanzillotta, Professora de Yoga, massoterapeuta e cantora de música devocional.

12h ENCONTRO DOS PROFESSORES DE YOGA | Local: Bambuzal. Ao final das práticas, os professores da região são convidados à reunirem-se para uma aula especial de Yoga, que será conduzida por um professor sorteado no local. O encontro também será um momento para integração, autocuidado e fortalecimento da comunidade dos professores de yoga da cidade.

DIA INTERNACIONAL DA YOGA NO PARQUE VICENTINA ARANHA
Data: 24/06 | Sábado
Horário: das 08h às 13h
Traga uma canga, esteira, tapete de yoga – algo que você possa forrar o chão.

O Outro no Espelho.

9 abr

Espelhos de Bergman

Um paciente com AVC luta para abrir uma porta. Um amputado está frustrado com os movimentos erráticos de seu novo membro protético. Um jovem saudável está desapontado com a aparência de seu corpo no espelho. Grande parte das dificuldades enfrentadas na interação com o ambiente relacionam-se à falta de sintonia entre nosso corpo e a imagem que temos dele.

Quase todo texto sobre percepção listará  a visão, audição, tato, paladar e olfato como os nossos cinco sentidos, o que não está certo. Esses sentidos não são suficientes sequer para guiar tarefas tão simples quanto alcançar e agarrar um objeto. Antes de tudo, precisamos ter disponível um mapa de nós mesmos. Podemos imaginar como seria difícil dirigir pelas ruas de uma cidade que desconhecemos sem um mapa? Ter um mapa de nós mesmos no cérebro é fundamental para que você possa chegar onde quer ir. Então, para fazer movimentos precisos, integramos a entrada sensorial com os mapas disponíveis de nosso corpo.

Estes mapas foram identificados pela primeira vez no córtex somatossensorial primário – região do cérebro que recebe e interpreta os impulsos sensoriais vindos do corpo. Curiosamente, o mapa disponível de nosso corpo é distorcido se comparado ao corpo em si,  assim como um atlas representa uma visão desproporcional do mundo. Nós normalmente não experimentamos o corpo como distorcido, mesmo que esses mapas cerebrais sejam desproporcionais. Portanto, existem outros processos que corrigem essa falta de acuidade.

homunculo de penfield

homúnculo de Penfield

Essa distorção é corrigida usando uma ilusão. Entendemos aqui ilusão como uma discrepância entre o estímulo físico e a percepção. No espaço entre estímulo físico e percepção, o cérebro faz continuamente suposições sobre o incerto e o provável.  O cérebro supõe, por exemplo, que dois toques próximos na pele,  ao mesmo tempo, originam-se de um único objeto.

Sabemos que tais mapas podem mudar – como eles se adaptam às mudanças na forma do nosso corpo à medida que crescemos. Se esses mapas não fossem atualizados, estaríamos sempre a esbarrar nossos braços em batentes de portas ou a cair de escadas ao dar passos maiores que os necessários.

Não há limite de idade para atualização desses mapas e se a ilusão é usada para consolidar a imagem que temos de nós mesmos, ela também é capaz de acelerar e otimizar o remapeamento.

Na prática de Yoga, Pilates, Dança ou qualquer outra atividade física em que a consciência corporal prevaleça sobre o desempenho corporal, a representação e o figurativo facilitam esse remapeamento. Linhas no espaço, ângulos nas articulações e círculos perfeitos com braços e pernas são prontamente apreendidos em sua estrutura.

Já dissemos por aqui:  “De fato, as linhas a partir das quais o movimento se expressa nada têm de contínuas, não há vértice nos ângulos do corpo, não há um centro na circunferência.  A simplicidade das formas, sua disponibilidade imediata, sua súbita apreensão pelos sentidos conecta vigorosamente o abstrato ao concreto e tem o poder de interferir decisivamente no curso da ação, estabilizando-a. Não se trata de mimetizar a forma com o corpo, mas recrutar instâncias intelectuais para mudar o trajeto do movimento ao elucidá-lo.”

Especialistas e Gurus

26 fev

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Qual é a diferença entre um guru e um especialista? As pessoas ouvem e respeitam a opinião de especialistas, aceitam seus conselhos e seguem suas orientações, mas acreditam nos gurus. O problema surge quando, mesmo sabendo tratar-se de níveis diferentes de conhecimento, as pessoas recorrem tanto a especialistas quanto a gurus para obter soluções para os mesmos problemas.

A experiência extraída da vida, um sincero desejo de ajudar os outros e um certo desprezo pelas informações que conflitam com suas convicções, conferem ao guru uma aura de credibilidade e conforto não encontrada em especialistas.

O especialista tem o dever de avisar o quanto ele mesmo não sabe, o que falta conhecer e, quando indagado sobre como aplicar seus conhecimentos para resolver um problema, lança mão de um sonoro “depende” ou ainda “ninguém realmente sabe”.

Infelizmente, gurus e especialistas se confundem no campo da saúde. Verdadeiros especialistas costumam apontar para lacunas em sua compreensão, relatar a complexidade do assunto ou falar sobre a existência de teorias concorrentes e evidências conflitantes. A cura só está pronta e acessível na boca do guru.

Esse quadro reflete o momento atual sobre os estudos no campo da dor crônica. Se a ciência avança a passos largos sobre diversas áreas da saúde humana, a dor crônica não é uma delas. Logo, se alguém afirma ser um especialista sobre esse assunto, trata-se na realidade de um guru.

Por exemplo, gurus do movimento ou terapia manual muitas vezes falam sobre a dor crônica como um problema que pode ser facilmente resolvido seguindo uma determinada receita ou modelo, ou aplicando uma série de exercícios e movimentos.

Dor nas costas? Um guru da correção postural dirá que sua verdadeira causa é a lordose excessiva da lombar. O guru massagista vai atribuir às adesões fasciais e pontos-gatilho a origem de toda a dor. O guru quiroprata irá apontar quais vértebras estão “fora do lugar” e o guru osteopata irá mostrar que a “pelve está girada” para este ou aquele lado. E todos podem fazer prescrições igualmente confiantes para dor no ombro, dor no pé, dor no joelho, etc.

De mesmo modo, opiniões do tipo “Pilates resolve isso” ou “Yoga é bom para aquilo” devem ser vistas com muita desconfiança, especialmente quando se sabe que no campo de estudos da dor crônica não existem soluções “one size fits all”.

Os benefícios de práticas nascidas da experiência e consolidadas pela história devem ser respeitados. Muitas vezes, a esperança de cura para alguém que sofre de dor crônica faz parte da própria cura, entretanto a distinção entre os limites da crença e da crença justificada baseada em evidências deve estar clara desde o início de qualquer processo.

Invocação a Patanjali

13 jan

 

Mantra de invocação ao sábio Patanjali entoado por B.K.S. Iyengar

yogena cittasya padena vācāṁ
malaṁ śarīrasya ca vaidyakena |

yo’pākarottaṁ pravaraṁ munīnāṁ
patañjaliṁ prāñjalirānato’smi ||

ābāhu puruṣākāraṁ
śaṁkhacakrāsi dhāriṇam |

sahasra śirasaṁ śvetaṁ
praṇamāmi patañjalim ||

Hare Om

Tradução bem legal copiada de http://www.namaskara.com.br/

yogena cittasya padena vācā
mala
śarīrasya ca vaidyakena |

yo’pākarotta pravara munī
patañjali
prāñjalirānato’smi ||

Por meio do Yoga retira a Impureza da mente, pela gramática a impureza da linguagem e pela medicina a impureza do corpo físico.

Com as minhas mãos juntas eu respeitosamente reverencio Patanjali.

Aquele que é o maior entre os sábios

ābāhu puruākāra
śakhacakrāsi dhāriam |

sahasra śirasa śveta
praamāmi patañjalim ||

Com a parte superior do corpo humano
Carrega a Concha(Tom original), o Disco(Infinito) e a Espada(poder do discernimento)

Tendo mil cabeças brilhantes
eu revencio Patanjali

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Imagem de Patanjali

O início, o fim e o meio.

18 dez

corpse-pose

Savasana: a postura do cadáver

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio

Raul Seixas, Gita

Toda atividade física perturba o equilíbrio do corpo. O aumento no número de batimentos do coração, o suor, a respiração ofegante são manifestações evidentes de esforço físico.  A inevitável fadiga deve ser acompanhada por um período de recuperação no qual as estruturas estressadas durante o exercício possam adaptar-se aos estímulos recebidos. Este é o preciso momento em que importantes alterações têm início: Savana.

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Posturas de Yoga, como qualquer outro desafio proposto ao corpo, não provocam mudanças em si e não são responsáveis pelas alterações estruturais profundas que muitas vezes delas se espera.  Uma atividade física aponta ‘onde’ e ‘como’ as mudanças devem ocorrer. As alterações de fato começam quando o movimento cessa.

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Célula satélite  indiferenciadas inseridas entre a fibra muscular e sua membrana basal são responsáveis pela regeneração das fibras musculares esqueléticas em caso de mionecrose.  Fonte: Anapat – UNICAMP

Após uma sessão extenuante de alongamentos, flexões e rotações em todas as direções e sentidos, deitar-se de costas no chão, estender pernas e braços e fechar os olhos parece ser apenas uma maneira de relaxar que não requer habilidade ou prática.  No instante em que a atividade chega ao fim, começa a mudança. Savasana é o início, o fim e o meio da prática de Yoga.

Neste momento, a capacidade para desvencilhar-se de pensamentos, julgamentos, interpretações ou críticas é a chave para o início da pronta recuperação do corpo.thoughts-durting-relaxation

O vazio da morte evocado por Savasana está relacionado ao vazio do momento presente. Quando o passado é enterrado e o futuro deixa de existir, a ansiedade acaba e dá espaço à serenidade requisitada para o reestabelecimento pleno do organismo.

A calma de quem dorme, a paz de quem  medita, a contemplação sem identificação são essenciais para as funções celulares, orgânicas e sistêmicas do corpo.  A diminuição da síntese proteica e a conseqüente perda de massa muscular, por exemplo, estão associadas à manutenção de níveis elevados de cortisol decorrentes de estresse e insônia. Nestas condições, sem o devido relaxamento, o resultado de qualquer atividade física fica muito aquém do esperado.

cortisol-cycle

Desta forma, Savasana oferece a possibilidade de uma pequena morte ao fim de cada aula de Yoga, momento no qual as mudanças propostas pelos ásanas preparam o corpo para um novo início.

Os Ombros que Carregam o Mundo.

6 nov

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Atlas

Todo o grande conjunto formado pelos braços, ombros e escápulas prende-se ao corpo através de uma estreita rota em forma de “s” chamada clavícula, que desembarca no alto do peito por uma pequena articulação, a esterno-clavicular. Podemos facilmente imaginar a imensa liberdade de movimento que esse desenho propõe.

Cintura escapular vista de cima

A conexão dos membros superiores ao corpo não está baseada na robustez de suas articulações ou na precisão dos encaixes, mas na força dos músculos que grudam os braços ao tronco. Nos vertebrados, o encaixe das patas anteriores é de uma timidez notável se comparado à vigorosa articulação do quadril que conecta as patas traseiras à bacia. A estabilidade dos membros superiores não depende, assim, da estrutura articular, mas da força dos músculos que, dispostos em camadas, cresce em complexidade dentre os vertebrados até que alguns de nós pudessem alçar vôo.

Além da grande mobilidade oferecida por este modelo, ele se presta a proteger os sistemas vitais envolvidos pela caixa torácica, distribuindo o impacto sofrido pelos braços por 10 pares de costelas dispostas em cone, de cima para baixo, como um grande amortecedor de mola.

Em movimento ou parado, sob tensão ou relaxado, a posição do sistema formado pelos braços, ombros e escápulas depende do equilíbrio dos músculos que atuam sobre ele. A resultante das forças não apenas determina a posição dos braços em relação ao tronco, mas adapta continuamente a posição do tórax e, consequentemente do corpo todo às solicitações dos membros superiores, colaborando para definir nossa postura patente.

Quando os ombros vêem à frente, anteriorizados, o peito se “fecha”, a curva lombar tende à retificação e o tórax é recuado para atrasar o centro de gravidade e diminuir o desequilíbrio. Para manter a horizontalidade do olhar, o pescoço se dobra e o queixo avança.

Quando os músculos das costas são mais curtos que os do peito, os ombros são puxados para trás. O desequilíbrio posterior leva s lombst para frente e o esterno é empurrado para cima, projetando as costelas.

Tais desequilíbrios podem ser congênitos ou funcionais e ter origem em fatores extrínsecos ao tronco. Independente da origem, a correção postural contribui muito para eliminar estas deformidades.

Uma das muitas sacadas do yogi indiano B.K.S Iyengar foi encarar o osso esterno como um painel de controle apto a desencadear mudanças posturais em todo o corpo. O conjunto formado pelas escápulas, braços e clavículas tem no osso esterno sua âncora. “Levante o esterno” passa a ser a senha para iniciar a reorganização do tórax no espaço e preparar o corpo para posturas mais equilibradas e saudáveis.

bks-iyengar

B.K.S. Iyengar,  1960

Na postura Dandasana, por exemplo, o osso esterno sobe ao mesmo tempo em que empurramos as mãos para baixo como se quiséssemos nos levantar do chão. Os músculos que se prendem às escápulas irão puxar as costelas para cima e alongar a coluna. Dandasana é a base para a maioria das posturas sentadas na tradição proposta por B.K.S. Iyengar e o alongamento da coluna cria as condições para que flexões e rotações sejam praticadas de maneira equilibrada e segura.

Dandasana

Ao alinhar as costas é preciso muita atenção para não trazer a lombar à frente, situação evidenciada pela projeção anterior das costelas inferiores  – 8º a 10º pares costais. Esse blefe é muito comum para esconder restrições na mobilidade da pelve e tronco, quando a lombar é levada a realizar uma extensão que os ombros não têm competência para fazer.

Uma postura de Yoga (ásana) é um momento privilegiado de observação e análise. Além de salientar eventuais desequilíbrios do corpo, o ásana expõe as soluções encontradas por nós para sobrepujar e, frequentemente, escamotear as dificuldades enfrentadas na prática de Yoga. Como um fotograma isolado no espaço-tempo, o ásana aponta o ardil que os olhos não vêem e os sentidos não captam, mostrando os riscos assumidos pelo praticante para atingir determinados objetivos. Habituados que estamos a resultados imediatos, encarar as dificuldades de frente e reorganizar nossa postura consome mais tempo e disciplina do que estamos acostumados a investir.

Em não raras vezes, escolhemos a saída mais conveniente e, no exato momento em que os fins ultrapassam os meios, abandonamos toda a riqueza de informações exposta a nós pela prática sincera e pelo exercício consciente. Quando optamos pela ilusão do atalho, ironicamente, fazemos muitos esforço e não saímos do lugar.

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