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O Calibre da Linha.

22 maio


Stella Harper Left Brain, right brain

“O movimento é o único meio que temos para interagir com o mundo ao redor, quer migrando de um continente a outro em busca de comida ou chamando a atenção de um garçom. De fato, toda a comunicação, incluindo a fala, os sinais, os gestos e a escrita é mediada pelo sistema motor. Deste ponto de vista, o propósito do cérebro humano é um só: produzir movimento. ” 

Daniel Wolpert

14 de maio de 2013, 20:30 horas, uma trombose acomete o hemisfério esquerdo do córtex cerebral de L.M.C., 58 anos, sexo masculino. Os movimentos coordenados do lado direito do corpo, assim como da face, estão perdidos. A fala resume-se a um rosnar sem sentido. Apenas os olhos ainda lutam para manter algum brio e assim expressar a angústia que brota diretamente da alma. Sob os evidentes sinais de “derrame”, a afecção ainda esconde algo mais profundo que escapa ao observador e ao observado.

Tanto o hemisfério esquerdo quanto o hemisfério direito do cérebro processam igualmente as informações recebidas, mas cada um à sua maneira. Enquanto o hemisfério direito pensa por imagens e aprende cinestesicamente através da relação do movimento do corpo com o meio, o esquerdo organiza as informações de modo metódico e categoricamente, contextualizando o momento presente e ponderando sobre as conseqüências futuras, desfazendo a névoa sobre a miríade de estímulos provenientes da experiência direta.

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811).

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811)

O colapso no hemisfério esquerdo do cérebro faz emergir um mundo diferente. Um lugar onde o tempo e o espaço abandonaram seu papel regulador para ceder lugar ao limbo. Neste momento, recorrer à autoridade da forma e da estrutura pode submeter o caos à ordem e lançar luz sobre o tumulto.

Poucas coisas são tão despretensiosas quanto uma reta, uma esfera, um cubo. A clareza de suas formas traduz de tal maneira a complexidade dos conceitos que, sem hesitar, elegemos a simplicidade robusta da linha no lugar de sua expressão algébrica. Através da representação, o conceito é prontamente apreendido em sua estrutura.

A.I. Kapandji (capa Phisiologie Articulare). A.I. Kapandji

De fato, as linhas a partir das quais o movimento se expressa nada têm de contínuas, não há vértice nos ângulos do corpo, não há um centro no meio da circunferência. Existe, sim, um instantâneo, uma resultante efêmera do tempo que se manifesta em carne e osso, expressão fugaz da resilência orgânica frente às adversidades do meio.

 A coordenação motoraS. Piret e M.M. Bézier

A simplicidade das formas, sua disponibilidade imediata, sua súbita apreensão pelos sentidos, entretanto, conecta vigorosamente o abstrato ao concreto e tem o poder de interferir decisivamente no curso da ação, estabilizando-a. Não se trata de mimetizar a forma com o corpo, mas recrutar instâncias intelectuais para mudar o trajeto do movimento, elucidando-o.

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UK Iyengar Yoga Convention – Cambridge 2013

Instruções que suscitem imagens claras e objetivas ancoram o corpo a planos e linhas, tornando um movimento infinitamente complexo passivo de apreensão instantânea. Assim como o alinhamento postural concernente à prática de Yoga, a organização do corpo em torno de uma geometria orgânica lança luz sobre o ponto de partida de toda ação: o momento presente. Se não há consciência sobre o lugar que se ocupa no espaço, ainda que se vislumbre a linha de chegada, não é possível saber qual o caminho tomar.

Muito Além do Peso

28 fev

“Um filme obrigatório para qualquer pessoa que se importe com a saúde das nossas crianças” Jamie Oliver

Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2. O documentário “Muito Além do Peso” de Estela Renner, discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deviam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo. Filme disponibilizado na íntegra pelos seus produtores: http://www.muitoalemdopeso.com.br/

Abalos Sísmicos

30 dez

William Cheselden Osteographia 1733

William Cheselden, Osteographia 1733.

“Refinamento é inevitável quando você mede um fenômeno por um longo período de tempo”. Charles Francis Rischter

As mudanças estruturais, que alteram definitivamente a maneira como nos relacionamos com o espaço, não vêm do alongamento intenso exigido para explorar o movimento em toda sua amplitude, ou da energia gasta para levantar grande quantidade de peso. Transformações de fato têm seu lugar nos níveis mais profundos do corpo, onde reside o início de toda ação, em um ponto tão mais suscetível a mudanças quanto mais sutis e precisas são as exigências que recaem sobre ele.

Sobrevive na origem do movimento a postura nuclear, onde o menor abalo engendra mudanças exponenciais por todo o corpo. São as alterações na raiz da ação aquelas que, antes de qualquer outra, respondem aos desafios impostos pela vontade e carregam em si a gênese da mudança.

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Postura invertida de apoio sobre os ombros (salamba sarvangasana).  Análise da atividade muscular (EMG) da região lombar .

Cada músculo do corpo guarda profunda identidade com o trabalho para o qual foi designado e carrega uma missão, uma incumbência que evidencia sua especificidade. Recrutar músculos superficiais para assumir funções posturais, ou atribuir a músculos posturais e profundos a responsabilidade pelo levantamento de peso, por exemplo, podem ser erros caros ao corpo. Além do elevado custo energético e do desgaste precoce que esta perspectiva engendra, a reprogramação em bases disfuncionais só consolidam o erro, tornando-o inexpugnável com o tempo.

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Postura de apoio unipodal (vriksasana). Atividade assimétrica na musculatura lombar.

“Trabalhar a postura” significa, simplesmente, trabalhar posturalmente. Para acessar o eixo em torno do qual se desenrola o movimento é preciso buscar o equilíbrio inerente a sua estrutura e enfatizar a estabilidade no cerne da ação.

Desta maneira, “como fazer” tem primazia sobre “o que fazer”. Os predicados da força – e não a força em si – têm o poder para promover e perpetuar mudanças.

A mobilização simultânea de articulações e músculos em múltiplos planos – e não a ação de um músculo isolado em um plano único do movimento – evidencia o denominador comum a toda ação, integrando todo o corpo em torno do próprio eixo ao invés de desagregá-lo.

A constância, a continuidade e a virtual imobilidade que constituem o equilíbrio postural indicam que a ênfase no tempo de permanência, muito mais que nas séries de repetição, cria as condições de acesso necessárias aos padrões posturais.

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Sinal EMG bruto do longuíssimo do dorso em salamba sarvangasana

A atividade muscular não diminui devido à imobilidade do corpo, mas em resposta à melhora do equilíbrio postural. Em desequilíbrio, o corpo recruta grande quantidade de força para manter a estabilidade. Se fraco, debruça-se sobre a própria estrutura para evitar o colapso. Equilíbrio e força expressam-se inversamente no corpo: a ausência de um aumenta a dependência do outro.

A sintaxe entre o movimento e sua estrutura instala-se quando os ruídos e maneirismos do corpo se dissipam à luz do detalhe e do respeito à singularidade do indivíduo. Uma atividade física suave pode ser tão palatável quanto inócua. Se extenuante, tão cansativa quanto estúpida.

Grandezas inversas no corpo, força e equilíbrio requerem, enfim, a intervenção da inteligência para sua simbiose.

A atenção voltada ao movimento – e não para fora dele – lança as bases para o aprendizado psicossomático: chave para a sintonia fina entre conteúdo e expressão, motor de mudanças profundas e definitivas.

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salamba sarvangasana

A postura deve ser estável e confortável (sthira-sukhan asanam II – 46)

* créditos nos comentários

Sistema Muito Nervoso.

5 ago

Escultura de Isidro Ferrer.

A maneira como nos movemos depende diretamente de como nos sentimos. O que sentimos depende diretamente de como nos movemos.  A comunhão entre movimento e sensibilidade consagra a lógica que rege e define o sistema nervoso.

Acordados ou dormindo, em alerta ou fatigados, famintos ou saciados. Expressamos continuamente o que sentimos através de nossas emoções e ações. O sistema nervoso determina nossa maneira de sentir e agir, sendo igualmente moldado e estruturado por nossas demandas.

Ilustração Puño

Longe de imaginá-lo pronto e acabado, o corpo se desenvolve a partir de reflexos fundamentais que estão presentes desde a gestação e se modificam gradualmente até que alcancem o mais alto nível de controle cortical consciente. O organismo é, portanto, a própria resultante entre vetores inatos e extrínsecos, e conforma um ser único que usufruirá de uma perspectiva singular da realidade.

O corpo  expressa continuamente nossa maneira de estar no mundo, nossa identidade,  e não pode ser entendido como um objeto separado do sujeito.  Sendo expressão, melhor é entendê-lo como obra de arte, uma música, uma pintura, ou seja, algo que existe ao irradiar continuamente seu significado.

Agence Eureka

Somos um sujeito corpóreo. Não há fantasma sob nossa pele ou diferença ontológica entre mente e corpo. Existem, sim, duas maneiras de caracterizar o mesmo organismo: uma que aborda o corpo em relação ao mundo e outra que se refere ao corpo enquanto expressão da subjetividade.  Para entender o indivíduo, portanto, devemos perguntar como este corpo se relaciona com o mundo e como se relaciona com si mesmo.

Pablo Picasso, femme assise devant la fenetre. 1937

A análise do hiato entre corpo enquanto subjetividade e do organismo no mundo abre uma janela para contemplar a natureza do indivíduo.  Não se trata mais de observar sua essência causal, distinta do mundo, reflexo da vida, mas notar sua natureza interventora, que conecta perspectivas, une ângulos, constrói e reconstrói continuamente o mundo, criando a própria existência.

“Quando percebo, não penso o mundo, ele organiza-se diante de mim.” Merleau Ponty

Caminho de Volta.

6 maio

‘I walk alone’ de Gottfried Helnwein (2003)

Todos nós temos um potencial latente, não desenvolvido por completo, acumulado à custa do esgotamento de sistemas mais econômicos e confortáveis. De maneira congênita, apoiamos nosso desenvolvimento sobre estruturas mais convenientes, repetindo padrões de movimento à exaustão.

Com sulcos profundos cavados no caminho da ação, tendemos a incorrer na vala já aberta dos enganos, a despeito da riqueza de movimentos disponível. Nossa conduta motora está dominada por atividades reflexas inconscientes, reforçadas e consolidadas pelo tempo.


Protuberâncias e sulcos na cabeça do úmero evidenciam-se com o tempo em função das tensões exercidas pelos tendões que cruzam a articulação.

Muitas vezes, um movimento não é deturpado durante sua realização, mas em sua concepção. Por não participar de nossa narrativa motora, determinado movimento simplesmente não é concebido e, portanto, a chance de realizá-lo inexiste.

Assim, o desenvolvimento do potencial motor passa, necessariamente, pelo aumento de seu repertório.

Atividades físicas que exploram a riqueza e a diversidade de movimentos não são, em si, garantia de alteração na maneira como respondemos aos desafios propostos, tampouco de mudança nos padrões adquiridos. Sem a nossa intervenção deliberada, percorreremos sempre o mesmo atalho, ainda que de maneiras diferentes e de acordo com a natureza da atividade física proposta.

Trilhar um caminho realmente diferente e sem obstruções requer disciplina para abrir uma picada em meio a padrões consolidados e enfrentar percursos frequentemente mais longos e tortuosos.

Liberdade com disciplina é liberdade de fato. (BKS Iyengar).

O desenvolvimento motor inicia-se pela estabilização da cabeça, do tronco e, por último, dos membros, seguindo uma direção cervico-caudal. A aprendizagem de movimentos coordenados, entretanto, segue o caminho inverso, propagando-se das extremidades do corpo em direção à cabeça.

Desde nosso desenvolvimento embrionário, a posição da cabeça influi no movimento total do corpo. Virar a cabeça para o lado e olhar um objeto leva imediatamente o pescoço, os ombros e o tronco na mesma direção. Quando agarramos o objeto, são os dedos das mãos que irão recrutar cotovelos, ombros e tronco para movimentá-lo. O caminho de ida é diferente do caminho de volta.

Aos 6 meses de vida os movimentos descontrolados dão lugar a um controle progressivo da cabeça, dos membros e do tronco.

O movimento irradiado a partir das extremidades do corpo, onde estruturas delicadas contam com grande mobilidade e precisão, interfere na organização de estruturas mais fortes, responsáveis pela manutenção postural, por exemplo.


Ameya Gokhal 2008. BKS Iyengar ajustando praticante de yoga. 

Dispositivos complexos como as mãos e os pés reorganizam o movimento global do corpo ao conectarem-se a unidades de transição como os ombros, quadris e escápulas, promovendo mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o espaço. A propagação de um movimento voluntário para outro não é causal e segue um padrão específico dos grupos musculares (Charles Sherrington).

A implicação das extremidades do corpo no aumento do repertório somático  possibilita a aprendizagem de movimentos antes desconhecidos. Só então uma a atividade física que explore a riqueza de movimentos poderá promover a mudanças de fato.

Yoga Has to Progress!

13 abr

Diferente de outras entrevistas “chapa branca” concedidas por BKS Iyengar, esta expõe alguns pontos que norteiam seu método e a razão que o motivou a trilhar um caminho específico dentro da prática e do ensino de yoga, o que acabou por diferenciá-lo radicalmente dos demais professores.

Entrevista integral com quase 20 minutos de duração, concedida por BKS Iyengar, na época aos 90 anos, para o documentário “Enlighten Up” de 2008.

Morfina

9 dez

Lasser Skarbovik para The New Yorker

“A alegria é um sonho, a dor é real”
Arthur Schopenhauer.

Aprender passa pelo corpo. Mesmo os conceitos mais abstratos ou as deduções mais hipotéticas edificam-se a partir de pequenas peças de estímulos sensoriais e motores que nascem da interação do corpo no espaço.

Desta maneira, a inteligência não pode ser amputada da estrutura anatômica e morfológica que nos constitui, uma vez que é esta mesma estrutura a responsável pela maneira que percebemos o que percebemos.

Lasser Skarbovik para Smith Alumnaue Quarterly

Ainda que sejamos capazes de refletir de maneira livre e independente do mundo sensorial, manipulando habilmente signos ligados a uma realidade distante, não é possível separar em nenhum momento o constructo mental de nosso organismo. O corpo é a caixa de ressonância que confirma, molda ou nega o conhecimento adquirido.

Diferente, porém, das especulações imaginárias e suposições generalistas criadas pela inteligência, o corpo desgasta-se, perde agilidade, sente as intempéries do meio. O corpo sofre e a inteligência perde a lealdade de seu fiel interlocutor.

 Utskrift de Lasser Skarbovik  

Não se trata de envelhecimento. Tão pouco são fatores genéticos ou ambientais os responsáveis pela degradação do corpo e do conseqüente comprometimento cognitivo. É o sofrimento e mais precisamente, a fuga da dor que, antes de qualquer coisa, molda o corpo e interfere na maneira como percebemos a realidade.

Ao menor sinal de desconforto, deformamos, trapaceamos, sobrecarregamos estruturas em detrimento de outras, produzimos compensações e desequilíbrios. Estamos dispostos a tudo para fugir da dor e, frequentemente, pagamos um preço alto pelo nosso conforto.

Entendemos equivocadamente a dor como algo a ser extirpado a qualquer custo e não medimos esforços para atingir este objetivo. A dor é o mais soberbo e presunçoso indício de que estamos errados e isso nos irrita. Não estamos, afinal, habituados a aceitar os próprios erros com condescendência.

Free Drawing de Lasser Skarbovik 

A dor deve ser ouvida antes de contestada.  Suas árduas palavras buscam desobstruir vias da percepção e devolver a fluência ao movimento,   restituindo à inteligência a fidelidade do corpo.

A dor surge para por fim à dor.

O corpo entrevado não interage , não assimila, não aprende. O ser vivo requer liberdade de movimento para existir como tal.

Fogo no Circo

7 nov

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”

O espelho, Machado de Assis, 1882.

Nascemos plenos, coesos, indissociáveis. O corpo é a materialização de nossas emoções, o adensamento da sensibilidade em torno do tubo neural, a expressão da vontade no espaço, a confirmação, a cada instante, de nossa herança genética e social.  O corpo realiza nossa existência no mundo.

Somos unos, forma e conteúdo, até sermos apresentados à maior de todas as ficções: o espelho.

Reconhecer a própria imagem no espelho exige a construção de um clone, um alheio que se evade ao apagar das luzes.  A criação da imagem corporal edificada de fora para dentro irá inseminar a farsa do sujeito separado do próprio corpo.

O sujeito atrás do espelho apresenta nossa incrível capacidade de manipulação. O corpo se torna passivo de controle e submissão, uma propriedade à disposição.

A imagem refletida do corpo irá coexistir com outras partes do mesmo quebra-cabeça e compor a idéia de totalidade fora de mim.  Tomar a cópia pelo original, porém, exige certo viés psicótico.

Nossa procura pela harmonia das formas, pela pureza das composições, pela ordem das coisas, pela homogeneidade, encontra apenas no delírio da abstração seu possível habitat. A busca pelo ideal sobrepõe imagem ao real e reduz-nos a meros fantasmas de nós mesmos. Ganhamos, assim, o salvo-conduto para ingressar no picadeiro.

Cenas do filme Olympia de Leni Riefenstahl (1938)

A realidade não se encontra na estabilidade fictícia do equilíbrio, mas no caos da multiplicidade.

“Quanto mais maneiras possuímos de fazer o que sabemos, maior a liberdade de escolha. E quanto maior a liberdade de escolha, maior será a capacidade humana. “  Moshe Feldenkrais.

Tudo aquilo que se encontra ancorado no tempo e no espaço tem no corpo seu ponto de referência.  Longe de ser um ponto fixo, porém, o corpo integra e decompõe, irrompe e desaparece, interpenetra, participa da realidade e oferece uma perspectiva pluridimencional  da vida, muito diferente do espetáculo  despojado oferecido pelo espelho diante de nossos olhos.

Reintegrar corpo e mente significa abandonar o corpo enquanto posse, desistir do espetáculo, optar pela intangibilidade do real ao simulacro do ideal. Buscar a ética na raiz da estética.

Coreografia da Pedra

1 out

Capa da revista A1, por Dave Mckean

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento. Não há carne nem alma;

Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe,

Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível,

Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso,

Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo,

Não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável,  resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Kazuo Ohno – The Written Face

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.

Atlas Anatômico de um Zumbi

24 ago

Zumbis à procura de cérebros no filme “The Return of the Living Death” (1985)

“Penso, logo existo”. O que surpreende na conhecida afirmação de René Descartes, publicada em 1637, é que a razão pela qual existimos não é o corpo, mas a mente.  Assim, Descartes cavou uma vala entre o corpo e a mente que permanece aberta até hoje em nossas reflexões sobre como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos.  A noção cartesiana de que existe algo dentro de nós, que pensa e independe do corpo, sedimenta a idéia de consciência separada do corpo que dispomos hoje.

O homem e seu espírito -illustração de  Folon (Le Livre de Sante- v.9 -1967) 900

A reflexão contemporânea não foi muito além de colocar o “cérebro” no lugar da “coisa pensante” cartesiana. Entendemos nossa dinâmica com o meio a partir de que algo existe a priori em nosso sistema nervoso e é colocado “para fora” através do corpo.


Enquanto aguarda um corpo, o cérebro de Morbius é mantido vivo em episódio de Doctor Who.

Não há, porém, como a consciência ser puramente um fenômeno neural e ter no cérebro a sua única morada. Graças à subjetividade sensório-motora, uma pessoa imediatamente percebe-se em contato direto, efetivo e íntimo com seus movimentos e reconhece ininterruptamente as condições gerais de seu próprio organismo.  O corpo, dentro de sua dinâmica, informa-nos a respeito do mundo e serve de estrutura espacial para a formação da experiência consciente a partir de um ponto-de-vista único e vantajoso: “eu”.

Uma vez que a experiência da consciência é estruturada pela dinâmica do corpo em sua interação sensorial com o meio, a consciência não pode ser algo que acontece exclusivamente em nosso cérebro, mas algo que existe pelo engajamento do corpo no mundo.  É óbvio que devido à nossa organização física não podemos enxergar sequer o que está atrás de nossas próprias costas, quanto mais olhar para os confins do universo em busca de nossas origens ou procurar dentro do átomo o elemento primordial da matéria. Mas sendo a experiência da consciência uma função determinada pela relação do corpo com o ambiente, o corpo é condição de inteligibilidade do mundo, ou seja, o ponto-de-partida de nossas expedições rumo ao desconhecido.

A distribuição dos elétrons de um átomo de Vanadium no plano cartesiano determina a forma como vemos a nuvem de elétrons em torno do núcleo.

Mudanças significativas em nossos sistemas vitais, órgãos e processos produzem mudanças correspondentes em nossa experiência, que podem ou não envolver o cérebro e o sistema nervoso. O mau funcionamento da tireóide, um desequilíbrio hormonal, uma descarga de adrenalina, promovem grandes mudanças em nossas emoções, afetando nossa experiência. Não devemos assim inflacionar a responsabilidade do cérebro e do sistema nervoso no estabelecimento de nossas emoções sob o risco de subestimar ou negligenciar o poder causal do corpo como um todo. Por último, na ausência de qualquer um de nossos sistemas vitais, órgãos ou processos metabólicos, o corpo, como um todo, é destruído. É neste preciso momento em que a consciência cessa. Assim a existência da consciência exige um corpo “inteiro” para existir.

Postura Urdhva Dhanurasa em corpo que sofreu processo de plastinação na exibição  Body Words III de Gunther von Hagens.

Pensamos na consciência como algo que acontece dentro da gente, como a digestão, quando deveríamos entender a consciência como algo que fazemos, como uma dança compartilhada com todos e com tudo o que existe. E se a consciência depende de um corpo inteiro para existir, ela está sujeita às mesmas leis da física do sistema que a contém, como gravidade, o peso, a aceleração, etc, e todas as limitações físicas que este sistema encerra em si, como  seu estado saúde, restrições físicas e motoras.

Primeira série Ashtanga Vinyasana Yoga

O lugar da consciência é a dinâmica da vida como um todo. Aliás, apenas quando nós levamos em consideração esta perspectiva holística é que a contribuição do cérebro e do sistema nervoso faz sentido. Vida mental é, antes de qualquer coisa, vida e, para tanto, é essencialmente corpo em dinâmica com o meio. Não é possível entender um sem o outro.

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