Arquivo | Geral RSS feed for this section

Fogo no Circo

7 nov

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”

O espelho, Machado de Assis, 1882.

Nascemos plenos, coesos, indissociáveis. O corpo é a materialização de nossas emoções, o adensamento da sensibilidade em torno do tubo neural, a expressão da vontade no espaço, a confirmação, a cada instante, de nossa herança genética e social.  O corpo realiza nossa existência no mundo.

Somos unos, forma e conteúdo, até sermos apresentados à maior de todas as ficções: o espelho.

Reconhecer a própria imagem no espelho exige a construção de um clone, um alheio que se evade ao apagar das luzes.  A criação da imagem corporal edificada de fora para dentro irá inseminar a farsa do sujeito separado do próprio corpo.

O sujeito atrás do espelho apresenta nossa incrível capacidade de manipulação. O corpo se torna passivo de controle e submissão, uma propriedade à disposição.

A imagem refletida do corpo irá coexistir com outras partes do mesmo quebra-cabeça e compor a idéia de totalidade fora de mim.  Tomar a cópia pelo original, porém, exige certo viés psicótico.

Nossa procura pela harmonia das formas, pela pureza das composições, pela ordem das coisas, pela homogeneidade, encontra apenas no delírio da abstração seu possível habitat. A busca pelo ideal sobrepõe imagem ao real e reduz-nos a meros fantasmas de nós mesmos. Ganhamos, assim, o salvo-conduto para ingressar no picadeiro.

Cenas do filme Olympia de Leni Riefenstahl (1938)

A realidade não se encontra na estabilidade fictícia do equilíbrio, mas no caos da multiplicidade.

“Quanto mais maneiras possuímos de fazer o que sabemos, maior a liberdade de escolha. E quanto maior a liberdade de escolha, maior será a capacidade humana. “  Moshe Feldenkrais.

Tudo aquilo que se encontra ancorado no tempo e no espaço tem no corpo seu ponto de referência.  Longe de ser um ponto fixo, porém, o corpo integra e decompõe, irrompe e desaparece, interpenetra, participa da realidade e oferece uma perspectiva pluridimencional  da vida, muito diferente do espetáculo  despojado oferecido pelo espelho diante de nossos olhos.

Reintegrar corpo e mente significa abandonar o corpo enquanto posse, desistir do espetáculo, optar pela intangibilidade do real ao simulacro do ideal. Buscar a ética na raiz da estética.

Coreografia da Pedra

1 out

Capa da revista A1, por Dave Mckean

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento. Não há carne nem alma;

Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe,

Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível,

Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso,

Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo,

Não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável,  resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Kazuo Ohno – The Written Face

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.

Atlas Anatômico de um Zumbi

24 ago

Zumbis à procura de cérebros no filme “The Return of the Living Death” (1985)

“Penso, logo existo”. O que surpreende na conhecida afirmação de René Descartes, publicada em 1637, é que a razão pela qual existimos não é o corpo, mas a mente.  Assim, Descartes cavou uma vala entre o corpo e a mente que permanece aberta até hoje em nossas reflexões sobre como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos.  A noção cartesiana de que existe algo dentro de nós, que pensa e independe do corpo, sedimenta a idéia de consciência separada do corpo que dispomos hoje.

O homem e seu espírito -illustração de  Folon (Le Livre de Sante- v.9 -1967) 900

A reflexão contemporânea não foi muito além de colocar o “cérebro” no lugar da “coisa pensante” cartesiana. Entendemos nossa dinâmica com o meio a partir de que algo existe a priori em nosso sistema nervoso e é colocado “para fora” através do corpo.


Enquanto aguarda um corpo, o cérebro de Morbius é mantido vivo em episódio de Doctor Who.

Não há, porém, como a consciência ser puramente um fenômeno neural e ter no cérebro a sua única morada. Graças à subjetividade sensório-motora, uma pessoa imediatamente percebe-se em contato direto, efetivo e íntimo com seus movimentos e reconhece ininterruptamente as condições gerais de seu próprio organismo.  O corpo, dentro de sua dinâmica, informa-nos a respeito do mundo e serve de estrutura espacial para a formação da experiência consciente a partir de um ponto-de-vista único e vantajoso: “eu”.

Uma vez que a experiência da consciência é estruturada pela dinâmica do corpo em sua interação sensorial com o meio, a consciência não pode ser algo que acontece exclusivamente em nosso cérebro, mas algo que existe pelo engajamento do corpo no mundo.  É óbvio que devido à nossa organização física não podemos enxergar sequer o que está atrás de nossas próprias costas, quanto mais olhar para os confins do universo em busca de nossas origens ou procurar dentro do átomo o elemento primordial da matéria. Mas sendo a experiência da consciência uma função determinada pela relação do corpo com o ambiente, o corpo é condição de inteligibilidade do mundo, ou seja, o ponto-de-partida de nossas expedições rumo ao desconhecido.

A distribuição dos elétrons de um átomo de Vanadium no plano cartesiano determina a forma como vemos a nuvem de elétrons em torno do núcleo.

Mudanças significativas em nossos sistemas vitais, órgãos e processos produzem mudanças correspondentes em nossa experiência, que podem ou não envolver o cérebro e o sistema nervoso. O mau funcionamento da tireóide, um desequilíbrio hormonal, uma descarga de adrenalina, promovem grandes mudanças em nossas emoções, afetando nossa experiência. Não devemos assim inflacionar a responsabilidade do cérebro e do sistema nervoso no estabelecimento de nossas emoções sob o risco de subestimar ou negligenciar o poder causal do corpo como um todo. Por último, na ausência de qualquer um de nossos sistemas vitais, órgãos ou processos metabólicos, o corpo, como um todo, é destruído. É neste preciso momento em que a consciência cessa. Assim a existência da consciência exige um corpo “inteiro” para existir.

Postura Urdhva Dhanurasa em corpo que sofreu processo de plastinação na exibição  Body Words III de Gunther von Hagens.

Pensamos na consciência como algo que acontece dentro da gente, como a digestão, quando deveríamos entender a consciência como algo que fazemos, como uma dança compartilhada com todos e com tudo o que existe. E se a consciência depende de um corpo inteiro para existir, ela está sujeita às mesmas leis da física do sistema que a contém, como gravidade, o peso, a aceleração, etc, e todas as limitações físicas que este sistema encerra em si, como  seu estado saúde, restrições físicas e motoras.

Primeira série Ashtanga Vinyasana Yoga

O lugar da consciência é a dinâmica da vida como um todo. Aliás, apenas quando nós levamos em consideração esta perspectiva holística é que a contribuição do cérebro e do sistema nervoso faz sentido. Vida mental é, antes de qualquer coisa, vida e, para tanto, é essencialmente corpo em dinâmica com o meio. Não é possível entender um sem o outro.

Árvores que Andam

6 fev

Para ser bem executada, uma postura de Yoga exige que nosso corpo esteja profundamente alicerçado em seus apoios. Pés no chão, mãos unidas, cabeça apoiada, ombros amparados e, depois de tudo isso, se ainda sobrar alguma ponta solta, haverá quem encontre um modo de amarrá-la.

Quando um membro ou qualquer segmento do corpo está apoiado sobre uma superfície, sua ação colide com o apoio e volta em direção à origem.  Em seu retorno, a força aplicada aumenta a compressão articular e estimula os sensores (proprioceptores), o que aprimora a sincronicidade da contração muscular e melhora a estabilidade postural.  Quando o movimento das mãos é interditado por uma parede, por exemplo, toda a cadeia muscular dos braços e costas é imediatamente recrutada e passa a se exercitar ao mesmo tempo.

Interiorizada, a força nem sempre é conduzida por canais apropriados e requer nossa intervenção. A manipulação deliberada e consciente das linhas de força que cortam o corpo durante a interceptação do movimento tem o poder de alterar profundamente uma postura, refazendo os caminhos pelos quais passam habitualmente essas linhas.

Ao realizar uma ação interna, manejamos os vetores de força com o propósito de promover o equilíbrio articular, diminuir as forças de cisalhamento sobre os ossos e aprumar as cargas axiais, redefinindo o alinhamento postural.

Assim, durante a execução de uma postura de Yoga, o movimento ganha vida na absoluta imobilidade do corpo.

Para mover livremente os segmentos do corpo no espaço, ao contrário, imobilizamos o tronco e acionamos isoladamente o segmento desejado. Ao levantar um halter, sentados em uma cadeira, acessamos a articulação do cotovelo sem mobilizar significativamente o ombro, as escápulas ou as costas, por exemplo. Este movimento aumenta as forças de distração (separação articular) no cotovelo e recruta o bíceps do braço para manter a articulação unida. Essa estratégia é fundamental quando uma articulação está comprometida e deve ser preservada enquanto outras partes do corpo precisam ser exercitadas.

No cotidiano, porém, as habilidades biomotoras de vários segmentos do corpo são continuamente combinadas para a execução de determinado movimento e dificilmente podem ser esgotadas em termos de extensão, flexão ou rotação de um único membro. A combinação de exercícios que misturam imobilidade e mobilidade segmentar aproxima-se das atividades funcionais cotidianas e ampliam as possibilidades de tratamento e reabilitação.

Nas rotinas de Pilates, essa mistura é levada adiante com o propósito de estabilizar a musculatura profunda do cilindro abdominal e integrar as cadeias musculares envolvidas na preparação para o movimento. O transverso do abdome, o multifidio, o assoalho pélvico, o diafragma e o oblíquo quando trabalham afinados, liberam os músculos motores para trabalhar livre e eficientemente. O intervalo entre a preparação e a ação é crucial para a saúde articular, destacadamente da espinha.

Na rotina diária, durante o treinamento físico ou nas sessões de terapia, não basta evidenciar a conexão entre os segmentos com o todo ou tentar descobrir quais músculos são demasiadamente fracos ou exageradamente tensos, mas considerar a conexão do impacto da estrutura (forma e anatomia), da função (forças e coordenação motora) e mente (consciência). Esta orquestra é regida pelo sistema nervoso e diretamente influenciada pelas emoções.

Robôs Sonham com Colheres Elétricas.

5 jan

Prolongamento exposto do sistema nervoso no espaço, a mão liga o cérebro ao mundo e ensina nossa percepção a respeito do volume, distância, textura e temperatura das coisas, ao mesmo tempo em que põem em prática nossos sonhos e projetos de vida. Como palavras, as mãos têm o poder de manifestar nossas reflexões mais subjetivas e materializar as idéias mais abstratas.

Andromeda de Auguste Rodin

A precisão, a abundância de movimentos e a riqueza funcional da mão associadas à inteligência humana têm o poder de interferir agudamente em nosso habitat, tornando o mundo em que vivemos um mundo ‘feito a mão’ pelo homem. A inteligência não é a grande vantagem adaptativa do ser humano na natureza. Sem as mãos, a inteligência tagarelaria sozinha sobre um oceano de estímulos e impulsos. O binômio córtex superior- polegar opositor é o grande ator de nossa ingerência no mundo e o que distingue a nossa história na Terra das demais espécies.

Alterando sua forma, a mão facilmente se adapta à superfície de um objeto, identificando-o mesmo sem a necessidade de recorrer à visão. Nossa precisão tátil não apenas sente o estímulo, mas tem a faculdade de transformá-lo rapidamente em percepção e, consequentemente, em conhecimento.

Para atender a uma ordem do cérebro, as mãos solicitam com freqüência as articulações dos punhos, cotovelos e ombros, tornando o membro superior um conjunto funcional único.

Tendões extensores dos dedos das mãos. Google Bodybrowser.

Os tendões que fecham e abrem as mãos são longas alavancas musculares que se estendem dos cotovelos até os punhos. Os músculos que estabilizam o cotovelo, por sua vez, começam no ombro e ligam o braço ao tronco. Assim, as mãos organizam o movimento de todo o cíngulo superior e posiciona nosso corpo de modo a obter a maior eficiência possível no desempenho de suas funções.

A falta de precisão configurada pelos longos braços de alavanca (tendões) característicos da musculatura extrínseca das mãos é compensada pela independência dos pequenos músculos interósseos e lumbricais entre os dedos. Temos, enfim, a combinação única entre força e precisão que define nossas mãos.

Atitudes viciosas que não podem ser detectadas habitualmente são francamente expostas durante a execução de posturas de Yoga.

Marcas da mão contra superfície plana.

Quando nos apoiamos com as mãos no chão, por exemplo, podemos sentir com exatidão os pontos que tocam o solo com mais intensidade e aqueles que mal roçam a superfície. Se a adaptabilidade da mão a um objeto é imperativa, sua inaptidão irá necessariamente exigir compensações e abrir espaço para acochambrações nem sempre desejáveis que, com o tempo, podem resultar em patologias nos ombros (mais freqüentes).

Detalhe de mãos em bakasana ou adhomoukha vriksasana (parada de mãos), com encurtamento dos extensores dos dedos.

Quando praticamos posturas de equilíbrio sobre os braços (arm balances) é bacana notar como nossas mãos respondem às exigências das posturas. Desequilíbrios entre extensores e flexores da mão tendem a tirar os dedos do chão quando mais precisamos deles. Isso aumenta a pressão sobre os canais e sulcos na base das mãos, diminuindo o espaço pelos quais passam os tendões e nervos com destino às pontas dos dedos, colocando em risco a vitalidade das mãos.


Detalhe dos cotovelos em Adhmoukha Svanasana com mãos bem abertas, mas cotovelos dobrados em função do encurtamento dos extensores dos dedos.

Usar os interósseos e flexores para corrigir este problema é fundamental para estender completamente os dedos e distribuir o peso do corpo sobre toda a superfície das mãos. Músculos hipertrofiados do antebraço, neste caso, tendem a dobrar os cotovelos. O tríceps do braço deve ser requisitado para alinhar os braços e corrigir a postura.


Adhmoukha Svanasana com braços e mão estendidas.

De modo geral, a prática de Yoga exige maior amplitude de movimento em segmentos do corpo naturalmente rígidos e fortes, como as pernas e as articulações do quadril, ao mesmo tempo em que propõe o fortalecimento de estruturas que contam com mobilidade inata, como as mãos e os ombros. Desta maneira, a prática de Yoga recruta nossas características inatas e leva o equilíbrio entre estabilidade e força a um novo patamar.

Natal em Auschwitz

7 dez

A não ser por uma fina camada de pele que nos dá forma no espaço, somos rigorosamente iguais, não importa de onde viemos ou o que fazemos. Logo abaixo da pele, a maneira como se constituem tecidos e fluídos do corpo é rigorosamente a mesma em todos nós. Tamanha é a semelhança que podemos inferir com tranqüilidade o conhecimento extraído de um único corpo, dissecado sobre a mesa fria de inox, para toda a humanidade estendida sobre a face da Terra. Uma camada de células epiteliais apenas dá forma ao que chamamos de “eu” e por derivação imprópria, distingue-nos do “outro”. Tomar a forma pelo conteúdo e imaginar-se especial dentre seus pares é parte de um equívoco congênito, condição da qual um deve procurar libertar-se.

Trata-se sempre da mesma coluna axial que abriga um sistema nervoso e sustenta uma estrutura radial, as costelas, onde se prendem as diversas unidades de manutenção da vida. Somos nós peixes, anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos, estruturalmente iguais e com algumas adaptações arquitetônicas para atender às exigências do habitat onde vivemos. Cada qual mestre em sua ordem e plenamente consciente de seu meio, compartilhamos todos o mesmo anseio pela vida e igual imperativo de liberdade, sem a qual a vida não se realiza.

evolution

Les stades du developpment de l’embryon, illus. J. Alessandrini

São sempre os mesmos átomos, organizados e reorganizados ao fim de cada momento, de cada ciclo, da vida. Somos nós minério. Não há necessidade de mística superior que exemplifique aquilo que a tabela periódica esgota. É preciso, sim, muita honestidade para tirar os olhos do céu e encontrar sob nossos pés o mesmo carbono, nitrogênio, enxofre, fósforo, oxigênio e hidrogênio que nos constitui. Compreender, de uma vez por todas, que somos iguais e participamos do mesmo conjunto de elementos é a epifania possível – e não é pouco-, tudo o mais é ilusão, é ‘maya’.

A fixação privilegiada no próprio “eu”, das representações e dos sentimentos pessoais a ponto de perder, em maior ou menor grau, a relação com o mundo exterior explica a apatia frente à dor alheia, o autismo de quem encontra na auto-satisfação o motivo para viver, a estupidez diante do colapso da vida.

“(…) no seu comportamento em relação aos animais todos os homens são nazistas. A presunção de que o homem pode fazer com outras espécies o que delas quiser exemplifica as teorias racistas mais extremistas”. Isaac Bashevis Singer

A indiferença perante a vivisseção animal para consumo (*) torna o homem insensível em absoluto e não há porque cobrar-lhe compaixão. A miopia diante da barbárie torna o homem completamente cego e não há porque exigir-lhe discernimento. A violência incapacita o homem para viver em harmonia com o meio, extirpa-lhe a humanidade e o torna órfão do mundo em que vive. Afasta-o do Yoga no sentido mais amplo do termo.

O Natal é a época do ano em que mais se mata animais. Comemorar a vida, o nascimento, com a morte é o auge da ignomínia humana.

STC

27 nov

A Síndrome do Túnel Carpal (STC) é um problema comum no ambiente de trabalho e causa de enfermidade recorrente. Tem elevado potencial debilitante e impacto financeiro direto devido a afastamento do trabalho e aumento nos gastos com despesas médicas.

Tradicionalmente, STC vem sendo tratado com agentes antiinflamatórios, imobilização da articulação do punho, fisioterapia e cirurgia. Entretanto, muitas destas opções não têm oferecido alívio satisfatório. Yoga tem sido usado para aliviar alguns dos sintomas músculo-esqueléticos. O estudo aqui em parte resumido demonstrou aumento na amplitude de movimento e redução da dor durante a atividade em pacientes com osteoartrite que realizaram o programa de Yoga.

A prática de Yoga mostrou-se eficiente porque o alongamento na região afetada alivia a compressão no túnel carpal. Ao determinar uma melhor posição articular, os exercícios diminuem a compressão intermitente, aumentando o fluxo sanguíneo que reduz a isquemia do nervo medial. Neste artigo foram apresentados os resultados de uma intervenção usando o Modelo de Controle Aleatório (RTC) com técnicas de Yoga especificamente aplicadas para o tratamento de pacientes com Síndrome do Tunel Carpal.

O estudo foi realizado em 51 pacientes escolhidos a partir de um universo de 400 inscritos foi realizado na Geriatric Center of the University of Pennsylvania – PA. E aprovado pelo conselho da Presbyterian Medical Center, Philadelphia- PA e publicado em 22 de dezembro de 2009.

Os participantes da pesquisa foram divididos em dois grupos. O grupo de controle recebeu o tratamento tradicional, enquanto o grupo de Yoga recebeu uma intervenção baseada em posturas que objetivavam aumentar a flexibilidade e corrigir o alinhamento do membro superior e aumentar a percepção sobre a posição articular das mãos. O estudo usou a abordagem proposta por B.K.S Iyengar, mestre de hatha yoga que enfatiza o alinhamento estrutural do corpo. O método é ordenado e progressivo e as posturas foram adaptadas para atender as condições dos participantes. A partir de posturas de Yoga (ásanas), a postura habitual pode ser melhorada. Quando o alinhamento músculo-esquelético melhora, a habilidade para realizar o ásana também melhora. Os benefícios potenciais deste método incluem aumento da força, coordenação motora e flexibilidade. A seqüência usada neste estudo foi elaborada para atender indivíduos com STC. Os exercícios foram realizados com indivíduos na posição em pé ou sentados com o objetivo de levar as articulações envolvidas a sua maior amplitude de movimento, com alongamento, força e equilíbrio. Toda sessão terminou com uma sessão de relaxamento em que o corpo permaneceu imóvel (savasana). O programa foi ministrado em aulas com duração entre 1 e 1 ½ hora, duas vezes por semana por 8 semanas.

1. Dandasana. Sentado em uma cadeira, com o tronco na vertical, pressione as mãos contra o assento. Pressione as escápulas contra as costas e leve os ombros para trás e para baixo.

2. Namakar. Com as mãos em posição de prece, una e pressione os dedos das mãos, posicionando-os fora do alinhamento ulnar. Relaxe as mãos e repita o procedimento abrindo os dedos das mãos em leque. Repita pressionando os metacarpos de cada dedo e afastando os dedos das mãos em hiper-extensão.

3. Urdhva hastasana. Leve os braços para frente e para cima, com as mãos verticais e os cotovelos estendidos. Alongue as laterais do corpo.

4. Parvatasana. Braços extendidos sobre a cabeça, como os dedos entrelaçados com o polegar direito sobre o esquerdo. Vire as palmas das mãos para fora. Estique os cotovelos. Erga o tronco a partir dos braços e leve os braços para trás. Repita com o polegar esquerdo sobre o direito.
Jathara Parivartanasana

5. Garudasana. Braços entrelaçados em frente do tronco. Dobre seus cotovelos cruzando os braços em frente do peito, flexione os antebraços. Cruze o cotovelo esquerdo sobre o direito e afaste a mão esquerda, cruzando o antebraço esquerdo atrás do direito. Uma as palmas das mãos. Eleve os cotovelos e desça o ombros. Repita para o outro lado.
Garudasana

6. Baradvajasana na cadeira. Sente-se de lado na cadeira, com a coxa direita contra o encosto. Alongue o tronco para cima e os ombros para trás. Mantenha os joelhos unidos. Sem mover a bacia, vire-se para o encosto. Repita para o outro lado.
bharadvajasana

7. Tadasana. Em pé, com os maléolos internos unidos e o peso igualmente distribuído sobre os calcanhares internos e externos, erga as patelas. Suba o alto do peito e as clavículas.
Tadasana

8. Ardha Uttanasana. Em pé, com os calcanhares afastados, estenda os braços sobre a cabeça. Flexione o tronco em 90 graus, na altura do quadril e alongue todo o corpo em direção à parede tocando as mãos com a parede.
Ardha uttanasana

9. Virabhadrasana I (somente os braços). Em pé, estenda os braços com as palmas das mãos unidas. Gire os braços, fechando as axilas, mantendo os dedos das mãos unidos. Afaste as mãos, deixando os braços paralelos. Alongue as laterais do tronco e volte a unir as palmas das mãos. Trave os cotovelos.
Virabhadrasana I hands only

10. Salabhasana (variação). Ênfase na posição das mãos. Deitado em decúbito ventral, leve as palmas das mãos sobre o acento da cadeira. Estenda os braços e erga o peito, o quadril e os joelhos. Desça os ombros. Leve o cóccix para frente, mantendo os glúteos firmes. Alongue a parte anterior do tronco para cima, a partir do osso púbico. Erga o esterno e as costelas e pressione as escápulas para frente (veja comentário).
Salabhasana Variation

11. Paschima namaskar. Em pé, una as mãos atrás das costas com os dedos apontando para baixo. Vire os dedos das mãos para cima e suba as mãos entre as escápulas o mais alto possível, sem separar as mãos. Pressione o quinto dedo e a borda externa das mãos contra as costas e abra o peito. Ombros para trás e para baixo.
paschima namaskar

12. Relaxamento. Deite-se com as costas no chão e com os braços ligeiramente afastados do corpo. Palmas das mãos para cima. Calcanhares unidos e artelhos afastados. Feche os olhos, respire profundamente e concentre-se na expiração. Relaxe o maxilar inferior, a língua e os olhos. Fique nesta postura entre 10 a 15 minutos.

Os pacientes no grupo de Yoga tiveram significante acréscimo na força das mãos e redução na dor. Neste estudo, um programa sem o uso de remédios, equipamentos ou cirurgia, reduziu a dor e aumentou a força nas mãos dos pacientes. Ainda que não tenha sido estudado aqui, um programa supervisionado não é útil apenas para tratar os sintomas, mas também prevenir que os sintomas voltem a ocorrer. Muitos dos pacientes estudados relataram que apresentaram melhoras mesmo depois do fim do tratamento, durante as 4 semanas que se seguiram após o tratamento.

Confira estudo completo aqui.