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A Deriva.

17 nov

Da cabeça até a bacia, toda a extensão das costas está coberta pela coluna vertebral, que assenta o peso do corpo, vértebra após vértebra, com carga crescente até articulação sacro-ilíaca. Não há conexão semelhante na parte anterior do corpo, onde músculos e tecidos conjuntivos suspendem segmentos intermitentes, do occipital ao ossos púbico. Se estruturas rígidas como as vértebras suportam as forças compressivas nas costas, são composições flexíveis como as dos músculos escaleno, intercostais e abdominais que suspendem os segmentos na frente do tronco, equilibrando o corpo.

Como cordames atados a um mastro de vela, os músculos do pescoço equilibram o crânio sobre a cervical. A grande mobilidade da cabeça no espaço não é dada pela articulação do crânio com o pescoço (a. occípito-atloidiana), mas pela coluna cervical e, indiretamente, pelo corpo como um todo.

A posição da cabeça em relação ao corpo resulta das curvas fisiológicas, das deformidades e forças que agem na coluna. Ao mesmo tempo, os músculos que começam na base do crânio e pescoço desempenham papel fundamental na determinação da postura global ao suspenderem a parte anterior do corpo, das primeiras costelas até a pelve. Assim, a posição da cabeça é, ao mesmo tempo, causa e efeito de nossa postura.

‘Sanduichados’ entre músculos retesados e ligamentos poderosos, as artérias que nutrem o cérebro (carótidas), as vias de drenagem venosa (jugulares) e o sistema nervoso guardam relação muito estreita com os elementos móveis da coluna cervical.

Preservar o espaço destinado a estes elementos livre de obstrução dentro do pescoço requer intervenção deliberada na postura, uma vez que a rigidez torácica e dos membros superiores aumenta as exigências sobre a cervical e acaba sacrificando estes espaços.

Dobrar o pescoço para trás (hiperextensão) sem envolver o tórax, sobrecarrega a musculatura anterior da cervical, colapsa as espinhas vertebrais e diminui o diâmetro do pescoço, como evidenciam as pregas na pele da nuca. Tontura, náusea e dispnéia ao olhar para cima são sinais claros de que algo não vai bem e requer mudança. O praticante com rigidez torácica deve priorizar a mobilidade na região peitoral antes de trabalhar a flexibilidade na região do pescoço.

Ao elevar o primeiro par de costelas e descer os ombros, aumentamos a profundidade da cintura escapular, harmonizando a curva cervical. Graças aos músculos intercostais, todo o conjunto das costelas sobe, facilitando a respiração.

Não se trata simplesmente de favorecer um peito projetado à frente, tipo militar, mas um peito aberto, que conceda amplo espaço às artérias que irrigam o cérebro e mantenha livre de qualquer obstrução o sistema nervoso dentro do canal raquidiano.

O yogue B.K.S. Iyengar chama a região entre os primeiros pares de costelas e a clavícula de ‘olhos do peito’. Quando a musculatura peitoral está enrijecida, os ombros vêem à frente, o osso esterno desce e os ‘olhos se fecham’. Toda a musculatura posterior do corpo entra em tensão permanente, da base da nuca aos calcanhares.

Tanto no método proposto por B.K.S. Iyengar quanto na prática de Ashtanga Vinyasana Yoga, os ajustes posturais são amplamente empregados para criar condições seguras e necessárias para a evolução dos exercícios.

Posturas de Yoga cujo apoio recai sobre a cabeça ou ombros evidenciam de maneira quase caricatural muitos dos desequilíbrios posturais do praticante, porém as correções e ajustes aqui são difíceis e delicados. De execução aparentemente fácil, posturas como Sirsasana ou Sarvangasana escondem significativo risco de contusão. Se o pescoço é como um mastro de vela, imagine virar o barco de quilha para cima e equilibrá-lo sobre o mastro: a relação de forças se inverte. O corpo das vértebras cervicais é cerca de 50% menor que as lombares e não foi projetado para receber o peso do corpo todo. Assim, mais do que equilíbrio e força, o praticante precisa ter plena consciência de seu corpo para obter um alinhamento preciso na postura.

‘Sem saber onde estamos, não sabemos como chegar’. A consciência corporal deve ser adquirida antes em posturas em pé, sobre as quais temos mais controle do corpo, e evoluir gradualmente. Blocos, cadeiras e cintos podem ser encontrados pelo caminho.

Os desequilíbrios e assimetrias ficam evidentes à medida que aumentamos as exigências sobre a estrutura do corpo, e devem ser observados e corrigidos a tempo de evitar lesões. Ter consciência do alinhamento preciso da cervical e da cabeça, do equilíbrio lateral e ântero-posterior do corpo, da posição dos ombros são pré-requisitos para realizar a postura Sirsasana com segurança, por exemplo.

Para afinar nossa percepção sobre o próprio corpo é preciso coragem para encarar nossas dificuldades de frente e trabalhar com disciplina e desapego na realização de mudanças estruturais. É preciso coragem para se olhar no espelho e buscar não aquilo que queremos ver, mas aquilo que se esconde atrás do olhar.

Variações sobre Suryanamaskar

14 nov

Phillip Askew, instrutor de yoga, ao lado de Lydia Walker, ex-dançarina do School of American Ballet, apresentam “Variações sobre Suryanamaskar” como parte da Collaborative’s Fall Show no NY Center Studio, com improvisão do pianista Jonah Rank.

Asas para Voar

18 out

Todo o grande conjunto formado pelos braços, ombros e escápulas prende-se ao corpo através de uma estreita rota em forma de “s” chamada clavícula, que desembarca no alto do peito por uma pequena articulação, a esterno-clavicular. Podemos facilmente imaginar a imensa liberdade de movimento que esse desenho propõe.

Cintura escapular vista de cima

A conexão dos membros superiores ao corpo não está baseada na robustez de suas articulações ou na precisão dos encaixes, mas na força dos músculos que grudam os braços ao tronco. Nos vertebrados, o encaixe das patas anteriores é de uma timidez notável se comparado à vigorosa articulação do quadril que conecta as patas traseiras à bacia. A estabilidade dos membros superiores não depende, assim, da estrutura articular, mas da força dos músculos que, dispostos em camadas, cresce em complexidade dentre os vertebrados até que alguns de nós possam alçar vôo.

Além da grande mobilidade oferecida por este modelo, ele se presta a proteger os sistemas vitais envolvidos pela caixa torácica, distribuindo o impacto sofrido pelos braços por 10 pares de costelas dispostas em cone, de cima para baixo, como um grande amortecedor de mola.

Em movimento ou parado, sob tensão ou relaxado, a posição do sistema formado pelos braços, ombros e escápulas depende do equilíbrio dos músculos que atuam sobre ele. A resultante das forças não apenas determina a posição dos braços em relação ao tronco, mas adapta continuamente a posição do tórax e, consequentemente do corpo todo, às solicitações dos membros superiores, colaborando para definir nossa postura patente.

Quando os ombros vêem à frente, o peito se “fecha”, a curva lombar aumenta e o tórax é recuado para atrasar o centro de gravidade e diminuir o desequilíbrio. Para manter a horizontalidade do olhar, o pescoço se dobra e o queixo avança.

Quando os músculos das costas são mais curtos que os do peito, os ombros são puxados para trás. O desequilíbrio posterior leva o abdome para trás e o esterno é empurrado para frente, projetando as costelas.

Tais desequilíbrios podem ser congênitos ou funcionais e ter origem em fatores extrínsecos ao tronco. Independente da origem, a correção postural contribui muito para eliminar estas deformidades.

Uma das muitas sacadas do yogi B.K.S Iyengar foi encarar o osso esterno como um painel de controle apto a desencadear mudanças posturais em todo o corpo. O conjunto formado pelas escápulas, braços e clavículas tem no osso esterno sua âncora no esqueleto, “levante o esterno” passa a ser a senha para iniciar a reorganização do tórax no espaço e preparar o corpo para posturas mais equilibradas e saudáveis.

Na postura Dandasana o osso esterno sobe ao mesmo tempo em que empurramos as mãos para baixo como se quiséssemos nos levantar do chão. Os músculos que se prendem às escápulas irão puxar as costelas para cima e alongar a coluna. Dandasana é a base para a maioria das posturas sentadas e o alongamento da coluna cria as condições para que flexões e rotações sejam praticadas de maneira equilibrada e segura.

Dandasana

Ao alinhar as costas é preciso muita atenção para não trazer a lombar à frente, situação evidenciada pela projeção anterior das costelas inferiores (8º a 10º par destacadamente). Esse blefe é muito comum para esconder restrições na mobilidade da pelve e tronco.

Uma postura de Yoga (ásana) é um momento privilegiado de observação e análise. Além de salientar eventuais desequilíbrios do corpo, o ásana expõe as soluções encontradas por nós para sobrepujar e, frequentemente, escamotear as dificuldades enfrentadas na prática de Yoga. Como um fotograma, o ásana aponta o ardil que os olhos não vêem e os sentidos não captam, mostrando os riscos assumidos pelo praticante para atingir determinados objetivos. Habituados que estamos a resultados imediatos, encarar as dificuldades de frente e reorganizar nossa postura consome mais tempo e disciplina do que estamos acostumados a investir.

Em não raras vezes, escolhemos a saída mais conveniente e, no exato momento em que os fins passam a justificar os meios, perdemos toda a riqueza de informações sobre nós mesmos oferecida pelo caminho do auto-conhecimento, pela prática sincera e pelo exercício consciente. Quando optamos pela ilusão do atalho, ironicamente, nos esforçando muito e não saímos do lugar.

O Som do Fogo.

18 set

Pensamos no músculo como um guincho, que produz força para levantar, carregar e puxar, mas que nada faz para soltar a carga a não ser deixá-la cair. A intuição de que o músculo se contrai para gerar movimento e simplesmente relaxa para voltar ao seu formato original não é verdadeira e prejudica tanto o entendimento sobre o movimento como reduz na prática as possibilidades do corpo.

Quando decidimos nos movimentar, coletamos informações dos sentidos, da memória e do sistema nervoso para formar uma imagem que levará os segmentos do corpo nesta ou naquela direção. A exatidão com que a imagem é reproduzida pelo corpo depende assim de nossa aptidão física e da acuidade com que a imagem original é pintada pelos órgãos dos sentidos.

Tudo o que enxergamos encontra-se dentro de um cone de 15 graus ligado à nossa retina, e todos os sons que ouvimos restringem-se a freqüências entre 20Hz e 20kHz sentidas pelo tímpano. Os sentidos iluminam uma fração da realidade como uma lanterna acesa em um quarto escuro: se iluminamos as pernas de uma cadeira, logo imaginamos a cadeira completa. O cérebro se incumbe de colocar o encosto e o acento que faltam para dar significado ao que estamos vendo. Assim, aquilo que percebemos depende em grande parte de nossa própria memória e experiência. O que enxergamos, pode não corresponder à realidade, mas necessariamente fará sentido, pois é parte de nossa própria criação.

Ao fazer uma postura de Yoga (ásana) não pensamos nas fibras musculares que deverão ser estimuladas para levar nosso corpo a determinada posição, sequer nas articulações envolvidas no processo. Simplesmente formamos uma imagem a partir das palavras do professor ou de sua demonstração e levamos nosso corpo na direção do retrato pintado por nós mesmos, com maior ou menor aptidão. Restrições motoras certamente irão interferir no ásana, mas a aptidão física não é mais importante que nosso poder de interpretação, conhecimento e experiência. Enfim, a nossa capacidade para realizar um ásana está diretamente ligada à imaginação e inteligência.

Falta de conhecimento, preconceito e medo limitam as possibilidades do corpo da mesma maneira que afetam nossa percepção da realidade. Logo, suplantar obstáculos físicos e psicológicos que se interpõe entre nós e o próprio corpo requer conhecimento e coragem para mudar a forma como enxergamos mundo.

Se o movimento é visto como resultado de uma contração muscular, a imobilidade costuma ser entendida como seu antônimo, a pausa entre uma ação e outra. Pensamos no músculo como uma estrutura especializada em transformar energia química em movimento. Movimento que é tão importante à vida que frequentemente é tomado por um sinônimo dela. A imobilidade, o rigor mortis, portanto, seu fim. Porém, o músculo está sempre ativo, mesmo quando está imóvel, alongado ou relaxado.

Quando servimos chá, por exemplo, fazemos força para tirar o bule da mesa (a – contração concêntrica do bíceps), seguramos firmemente o bule parado sobre a xícara (b- contração isométrica do bíceps) e por fim, alongamos o braço para devolver o bule à mesa (c – contração excêntrica do bíceps). O músculo do bíceps não parou um segundo de trabalhar, ainda que tenha ficado imóvel a maior parte do tempo.

Mesmo quando estamos totalmente relaxados, estatelados no sofá de casa, a tensão muscular é a maior responsável por manter nossas articulações unidas (alongamento passivo). São os elementos contráteis do músculo, e não apenas o tecido conectivo que os encerra, os maiores responsáveis pela resistência à tensão (Magid A, Law DJ. Science 1985;230:1280-1282).

Nossos músculos também fazem força, gastam energia e ficam fatigados quando estão parados ou alongando. A força realizada por um músculo sobre o osso é até mesmo maior quando ele se distende do que quando se contrai, mobilizando grande quantidade de energia para este fim.

Enoka, R.M. Neuromuscular Basis of Kinesiology

Se entendemos o músculo como uma estrutura capaz de fazer força somente quando se contrai e encurta e que, para retornar ao seu formato original, relaxa e se distende passivamente, amputamos razoavelmente as possibilidades do corpo.

Em Chaturanga Dandasana é necessário força para tirar o corpo do chão apenas com a força dos braços. Para compensar a fraqueza do bíceps, preparamos a musculatura peitoral (contração concêntrica) para estabilizar os ombros e empurramos o chão com toda a força que conseguimos juntar. As escápulas basculam para baixo e suas bordas internas são projetada assim para cima, longe das costelas, abusando do serrátil e provocando aumento da cifose.

Chaturanga Dandasana (m.peitoral em contração concêntrica)

Se, ao invés de nos esforçarmos para empurrar o chão, pensarmos em descansar a caixa torácica sobre a resistência do músculo peitoral (contração excêntrica do peitoral), a situação muda e passamos a desfrutar de uma postura mais equilibrada e inteligente. Em contração excêntrica, o peitoral é mais forte e estabiliza a postura tranquilamente. O peito permanece aberto e a respiração, prejudicada pelo efeito estabilizante do diafragma, é facilitada.

Chaturanga Dandasana (m.peitoral em contração excêntrica)

Para conseguir manter esta postura por períodos cada vez mais longos de tempo, assim como para avançar na prática de outros ásanas de Yoga, é preciso mobilizar os músculos certos de forma inteligente, tornando o esforço muscular mais eficiente possível, sem aumentar distorções.

No entanto, não temos acesso direto às fibras musculares e somos virtualmente incapazes de excitar pontualmente os motoneurônios que as estimulam. Muitas vezes, músculos inteiros são completos estranhos dentro de nosso corpo, sobre os quais não temos nenhuma ascendência, conformando zonas de exclusão com grande potencial para lesões. Lançar mão da imaginação e do conhecimento para provocar respostas musculares e nervosas que coloquem o corpo obscurecido pela alienação sob a luz da consciência é uma maneira para introjetar uma realidade maior, que está além de nossa observação e percepção, e mostrar ao corpo novos horizontes.

A Leveza da Tradição

21 jun

por Yogindra Das

A prática do Ashtanga Vinyasa Yoga é realizada com base em séries fixas de asanas (posturas físicas), em que evoluímos gradativamente de postura em postura à medida em que nos aprofundamos na prática. Um asana é ligado ao outro pelo vinyasa, ou seja, pela sincronização entre o movimento e a respiração desenvolvida, enquanto realinhamos nosso corpo para avançarmos para o asana seguinte.

É muito importante entendermos que a série de ashtanga deve ser praticada tal como ensinada por seu fundador, Sri K. Pattabhi Jois, ou seja, não se admite modificações segundo a vontade do praticante, pois sua construção obedece a critérios bem definidos em textos antigos pesquisados por Jois, em que uma postura relaciona-se com aquela que a antecede e com aquela que a segue, a fim de possibilitar a fruição dos inúmeros benefícios físicos e mentais que a prática bem conduzida pode proporcionar.

Portanto, o Ashtanga, assim como o Yoga em si, obedece ao parampara, ou seja, o conhecimento é transmitido de mestre para discípulo tal como o recebeu de seu próprio mestre, não admitindo interpretações ou modificações, mantendo-se, dessa forma, portanto, a pureza dos seus ensinamentos.

Infelizmente o que percebemos hoje é que esse método de ensino vem se perdendo resultando na descaracterização do Yoga como uma filosofia e, principalmente, uma espiritualidade.

A primeira séria de Ashtanga é chamada de Yoga Chiktsa, pois, sua finalidade é terapêutica. Daí a enorme importância dessa série, a qual deve ser bem estabelecida pelo praticante, a fim de que ele se habilite a avançar para as séries seguintes. Isso porque a primeira série toma um corpo bruto e o transforma no que chamamos de “corpo de diamante”, tal qual um ourives cuidadosamente transforme uma pedra bruta em preciosa. E quando dizemos corpo, referimo-nos também à mente, com seus entraves, tendências e pré-conceitos, que, com a prática diligente, serão destruídos para que surja uma nova mente, uma nova concepção de vida.

Na primeira série, portanto o esforço desenvolvido na sua execução nos confere tônus muscular, principalmente nos braços, ombros, abdômen, e força mental, já que desenvolvemos habilidades tais como perseverança, paciência, determinação, coragem e autoconfiança. É na primeira série que desenvolvemos o complexo corpo-mente, necessário para que possamos avançar para a série seguinte, na qual a força adquirida é fundamental para proteger o corpo das lesões, que podem resultar de uma prática mal executada ou feita às pressas. Por essa razão é que se diz que ainda que estejamos praticando a segunda ou terceira séries, nunca devemos abandonar a prática da primeira, pois ela é o nosso fundamento, a nossa base.

E é durante o aprendizado da primeira série que nos pegamos muitas vezes reclamando da falta de força física, a qual não decorre apenas da falta de tônus muscular, mas principalmente das inúmeras toxinas que ‘grudam’ em nosso corpo e em nossa mente. Toxinas no sentido mais amplo da palavra, que ingerimos através dos alimentos, por imagens, sons e odores, enfim, tudo aquilo que consumimos sem nos darmos conta disso. Tais toxinas permanecem em nosso corpo, principalmente em nossas articulações, impedindo-nos de soltar, alinhar e equilibrar o corpo. Grudam também em nossas mentes, quando achamos que não somos capazes de realizar algo, seja porque nos achamos velhos ou jovens demais, ou porque acreditamos que não nascemos para isso ou para aquilo, enfim desculpas para deixarmos de realizar tudo que podemos em nossas vidas.

Portanto, o esforço desenvolvido na primeira série, que nos leva a suar bastante e nos conduz a uma intensa concentração, é que nos livras das toxinas e purifica nosso corpo e nossa mente. Mas isso não acontece de um dia para o outro, é preciso paciência e sabedoria para entender que cada passo que damos é definitivo. E à medida que sentimos o corpo mais limpo, nossos hábitos gradativamente mudam, visando justamente manter a pureza conquistada com a prática. É dessa forma que muitos praticantes começam a se alimentar melhor e abandonam hábitos destrutivos.

Enfim, a primeira série é uma enorme porta aberta para todos que esperam, mais que a satisfação dos sentidos, uma felicidade baseada na profundidade da alma, realizando dessa forma em suas vidas o grande objetivo do Yoga.

A Árvore na Montanha

28 maio

Os dedos se fecham imediatamente após a palma da mão ser tocada. A ação primitiva será aperfeiçoada com o tempo; por hora, apenas alguns reflexos como gritar e sugar podem ser notados com clareza. Quando o mundo puder ser vislumbrado com mais nitidez, valerá o risco de engatinhar em direção ao desconhecido.

No começo, o movimento reage a estímulos de maneira mecânica, de forma reflexa, alheio à consciência e sem as nuances impostas pela volição. Mirando um alvo, os membros do corpo são propelidos no espaço por meio de movimentos rápidos e espasmódicos, fornecendo dados para que o mundo percebido ganhe a consistência do mundo real. As informações coletadas pelo movimento do corpo no espaço comprovam ou colocam em xeque os sinais recebidos pelos órgãos dos sentidos. A abstração dos sentidos, por fim, cede à concretude da vida. Desta maneira o corpo educa os sentidos e influencia a formação da consciência.

No caminho de volta, a precisão dos movimentos cresce na medida em que se desenvolve a consciência. O movimento antes desordenado e reflexo passa a ser modulado pelos estímulos que partem de instâncias superiores do cérebro e seguem em direção a toda parte do corpo. Sob a influência da mesma inteligência que ajudou a formar, os movimentos ficam mais elaborados e precisos.

Com o tempo, mesmo as ações mais complexas são otimizadas e se tornam habituais. A realização de um movimento passa pela escolha de alternativas energeticamente dispendiosas, lentas e potencialmente lesivas até consolidar um atalho rápido e econômico em direção à ação que irá tornar-se padrão. O equilíbrio do corpo existe neste contexto.

Um corpo parado e em equilíbrio alicerça-se sobre as articulações e na tensão muscular, estabelecendo uma base sólida a partir da qual nasce o movimento. Permanecer muito tempo em pé sem apresentar sinais de fatiga ou movimentar o corpo sem dissipar energia em excesso, por exemplo, requer equilíbrio.

A evolução do corpo pode ser capturada em snapshots ao focar sua adaptabilidade ao meio. Na postura da montanha (abaixo), por exemplo, o corpo equilibra-se dos pés à cabeça sobre as articulações e não exige tensão muscular maior que a já instalada. A postura é mantida predominantemente através de arcos reflexos curtos e elementares. Sentir fadiga e dor na manutenção de uma postura que deveria ser natural a partir dos 16 meses de vida denota evidente desequilíbrio.

Tadasana, a postura da montaha.

Quando uma perna é dobrada na postura da árvore, Vriksasana, há aumento do tônus muscular e os sentidos passam a ser solicitados para a realização da postura. A visão e o sistema vestibular irão ativar áreas de controle motor que, por sua vez, inundarão o corpo com impulsos nervosos de cima para baixo, da cabeça aos pés, modulando as contrações que começaram de baixo para cima, a partir do pé de apoio, melhorando a precisão das contrações e aprimorando os movimentos. Com a prática será possível manter esta postura por longos períodos de tempo, sem doses maciças de atenção, pois o corpo aprenderá o caminho para o equilíbrio.

Vriksasana, a postura da árvore.

Ao flexionar o corpo em Virabhadrasana III, além de toda atividade neuromuscular descrita, músculos que não têm função postural serão alistados para o exercício. Fibras musculares de alta tensão tetânica e de baixa resistência à fatiga serão mobilizadas na postura, o que a torna mais complexa que as anteriores. Ainda que a estabilidade em Virabhadrasana III pareça inicialmente algo precário e fora do alcance, o equilíbrio nesta postura é tão passível de ser atingido quanto em qualquer outra.

Virabhadrasana III, a postura dedicada ao herói Virabhadra.

Realocar forças deliberadamente e interferir conscientemente no corpo significa, do ponto de vista neuromuscular, uma prática de “descondicionamento” físico e mental, uma vez que estamos refazendo muito dos “atalhos” criados pelo corpo em direção à estabilidade. Revisitar antigos padrões motores abre uma nova perspectiva sobre o corpo, cultivando sua adaptabilidade e conferindo maior liberdade para responder aos desafios do meio, sempre em mudança.

“O ser humano é estável e deve ser para não ser destruído, dissolvido, desintegrado pelas forças colossais que o rodeiam. Por uma aparente contradição, ele mantém sua estabilidade somente se for capaz de modificar-se de acordo com os estímulos externos e ajustar a resposta ao estímulo. Em certo sentido, ele é estável porque é modificável; a instabilidade é a condição necessária para a estabilidade do organismo. “ Charles R. Richet, Physiologie. Paris, Alcan, 1893.

A Primeira Visita de B.K.S. Iyengar aos E.U.A.

14 mar

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Pelas mãos do violinista Yehudi Mehunim, B.K.S. Iyengar viajou o mundo divulgando o Yoga. Em sua primeira visita aos Estados Unidos, Iyengar foi capturado pelas lentes da revista Life e virou matéria na edição de agosto de 1956 ao ministrar aulas para uma família da alta sociedade americana. Confira a reportagem.