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Mobil Idade

5 jun

Aron Demetz

escultura Aron Demetz

Mobilidade é o maior preditor isolado de expectativa de vida.  Condição sócio-econômica, educação, alimentação, trabalho, dentre outros quesitos não podem ser desconsiderados. Entretanto, de todas as variáveis que pesam isoladamente sobre a longevidade de alguém, são aquelas abarcadas pelo guarda-chuva do movimento as que têm maior peso.

Força, potência, resistência, amplitude de movimentos determinam a maneira como nos adaptamos a um ambiente em constante mudança. Manter estas competências à medida que o tempo avança é, em grande medida, a própria manutenção da vida. Estar vivo significa, enfim, poder participar ativamente do mundo em suas expressões mais diversas, ambientais e sociais.

Ao contrário do que diz o saber comum, não há envelhecimento do corpo independente da mente. Os indícios de senilidade vêm à tona quando o corpo mostra-se incapaz de responder prontamente aos desafios do meio.  Vivenciamos o desgaste sofrido pelo corpo durante o tempo e assistimos perplexos à perda da memória de curto prazo e do raciocínio ágil pelos anos: “coisas da idade”.  Só que não.

O desenvolvimento do cérebro deixa claro, desde os reflexos primitivos à coordenação motora fina, que a busca por respostas, intermediada pelos sentidos, representa a força motriz de seu desenvolvimento global, do concreto ao abstrato. O movimento é a linguagem do cérebro.

Não se pode afirmar, em nenhum momento da vida, que exista distinção tal que sustente o binômio mente-corpo, a não ser aquelas meramente arbitrárias ou didáticas.  Isso apresenta uma perspectiva de futuro importante.

Se as implicações musculoesqueléticas, cardiovasculares e neuronais decorrentes do envelhecimento são irreversíveis, isso não limita em absoluto o horizonte de quem está disposto a continuar ativamente explorando seu ambiente e aprendendo. Mas é preciso estar presente no ato do exercício, qual seja, pois o movimento sem atenção não gera aprendizado, não gera desenvolvimento e é inócuo para este fim.

O movimento deve ser vivenciado em toda sua dimensão, com vistas a ampliar o espectro de experiências e aumentar a quantidade de informação proveniente do meio, qualificando quem o realiza a manter e incrementar seu repertório gestual, tornando-o apto a aprender, a cada novo passo dado, sobre suas aptidões e fraquezas.

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Leituras sugeridas:

Capítulo ‘Movent Analysis across the Life Span’ do livro Umphred´s Neurological Rehabilitation escrito por Dale Skalise-Smith e por Darcy Umphred.

http://gerontologist.oxfordjournals.org/content/13/1/88.short

http://www.maturitas.org/article/S0378-5122(12)00301-5/fulltext

 

Apenas Mais um Texto sobre ‘Core’.

23 fev

Mark Manders

Instalação Mark Manders

Terapeutas e médicos pareciam ter combinado: Clara precisava fortalecer a musculatura abdominal, caso contrário sua lombar iria continuar a sentir os reflexos do sedentarismo e da postura inadequada. A contribuição da musculatura abdominal na estabilização da coluna vertebral era senso comum, assim, a indicação para o tratamento também era unânime: fortalecimento abdominal. A vendedora de 34 anos, porém, já havia passado por sessões de terapia, aulas de Yoga e Pilates, treinamento funcional e RPG sem que as dores nas costas dessem algum sinal de recuo.

Clara havia aprendido a encaixar a pelve, usar a respiração para ativar o abdome, acionar a musculatura pélvica e manter as costelas conectadas. Após tantas horas de exercícios físicos, ela acabou assimilando uma série de instruções corretas e adquiriu um apurado senso postural sem, contudo, poder usufruir dos benefícios proclamados. Entre uma prescrição e outra, Clara passou a ouvir uma palavra em uníssono, por vezes usada como substantivo, outras como marketing.

Core” parecia uma palavra da moda e, ao mesmo tempo, uma sinopse de todo o complexo que envolvia a musculatura abdominal. No Google, Clara havia encontrado nada menos que 15 milhões de sugestões para core dentro do contexto procurado.

inner_core_muscles Músculos profundos que compõe o cilindro abdominal

Como um cinturão muscular, o core encerra o peritônio a partir da coluna, costelas e pelve. Em sua dimensão mais profunda – inner corset-, os músculos do core abraçam o tronco sem dobrar, girar ou inclinar a coluna, estabilizando-a. Isso diferencia-os de outros músculos do mesmo complexo – outer corset.

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Plano transverso: músculos profundos contraídos e superficiais relaxados

Logo, Clara percebeu que os exercícios físicos que enfatizavam movimentos de flexão, rotação e inclinação do tronco estimulavam músculos que não eram capazes de estabilizar a coluna com eficiência, pois fatigavam rapidamente, o que não podia ser esperado de fibras capazes de manter a postura.

Assim, Clara passou a separar o trabalho da musculatura postural daquela que participava dos movimentos do tronco. Acertadamente, ao invés de dedicar-se a séries intermináveis e flexões abdominais, ela começou a relaxar os músculos abdominais superficiais para evidenciar as camadas mais profundas.

Uma rota indireta para se atingir o inner corset é tirar vantagem da contigüidade fascial entre a musculatura do assoalho pélvico e deste cinturão abdominal. A base do core é o triângulo anterior do períneo e, quando o períneo é contraído, as fibras inferiores do inner corset também são ativadas. Assim que Clara conseguiu ativar a musculatura profunda independentemente da superficial, entendeu sua ação estabilizadora e sentiu resultados imediatos. Estava assim lançada as bases para livrar-se das dores que há tanto tempo a acompanhavam.

Embora os músculos profundos do abdome possam participar da respiração, os superficiais também ajudam. Logo, simplesmente levar o umbigo à coluna durante a expiração não tinha mais significado para ela.

Encontrar uma posição neutra para a coluna vertebral e ser capaz de mantê-la durante a execução dos exercícios físicos foi outra estratégia encontrada pela vendedora para atenuar as dores nas costas. Clara, antes de tudo, passou a evitar o efeito de “ioiô” na pelve, deixando mesmo alguns exercícios de lado quando não conseguia manter a estabilidade necessária para sua execução.

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Efeito ‘ioiô’ ocorre quando a musculatura é insuficiente para resistir (R) à força (F) durante os exercícios.

Os exercícios de flexão e extensão das pernas, por exemplo, passaram a ser feitos dentro de uma pequena amplitude de movimento, mas com grande consciência sobre o movimento. Aqui, as palmas das mãos sob a lombar ofereciam um input valioso sobre a mobilização de sua coluna na realização dos exercícios.

ab_yoga_9 Posicionar as mãos sob a lombar em alguns exercícios oferece um input valioso sobre a mobilização da sua coluna.

Clara, enfim, havia percebido que, antes de lançar-se à realização de exercícios desafiadores, era preciso desenvolver sua consciência corporal e assim restabelecer o alicerce de sua prática. Isso demandava paciência e, em não raras vezes, tornava exercícios simples extremamente difíceis para ela.

Apesar das dificuldades, o surgimento de benefícios quase imediatos após tantos anos de prática abriu o caminho para que Clara pudesse livrar-se das dores e isto, por si só, mudou completamente a relação que tinha com seu próprio corpo e lhe serviu de motivação para uma prática diária que a acompanha até hoje.

Fora dos Trilhos

4 mar
Transformation, 2011 Ville Andersson
Transformation. Ville Andersson.

O maior peso que somos capazes de carregar é igual ao peso suportado pelo nosso ponto mais fraco. Na tentativa continua e diligente de nos esquivarmos deste ponto, nascem desequilíbrios posturais importantes.

Roubar dos pontos mais suscetíveis o trabalho árduo para entregá-lo aos segmentos mais fortes e estáveis do corpo é uma coisa que fazemos o tempo todo no intuito de superar nossas dificuldades.

Pode-se buscar corrigir este déficit fortalecendo isoladamente os locais comprometidos. É possível até mesmo recrutar algumas poucas fibras de um único músculo através de estímulos elétricos. Não basta, porém, fortalecer o elo mais fraco, é preciso reintegrá-lo à corrente.

Desenvolver partes específicas do corpo é tão dispendioso quanto ineficiente. Na prática, não é possível conceber um corpo capaz de mover-se no espaço pela ação exclusiva de apenas um de seus segmentos. As interações mais distantes são tão relevantes quanto as afinidades mais próximas e diretas. O corpo desintegrado pode apresentar força e mobilidade, mas não expressa coerência.

Quando levantamos um peso, recrutamos muito mais que os músculos diretamente relacionados à tarefa. As estruturas que controlam, estabilizam e mantém o equilíbrio do corpo como um todo são solicitadas. O controle integrado da postura determina a performance funcional.

“Os ganhos de força podem ser conquistados sem mudanças estruturais no músculo, mas não sem adaptações neurais” (Roger Enoka). A força não é uma característica do músculo, mas do sistema nervoso como um todo e, portanto, todo o corpo deve ser objetivado no exercício do movimento.

Nos estúdios e academias de ginástica, os limites impostos ao corpo pelas máquinas, equipamentos e aparelhos têm lugar privilegiado na reabilitação do corpo enfermo, mas ao cercearem a amplitude e os planos de movimento, impedem a transferência dos ganhos conquistados para além dos parâmetros trabalhados. Há pouca equivalência entre o ambiente “in vitro” que circunscreve o movimento nestas condições e a imprevisibilidade da vida diária ou da prática esportiva.

Ao buscar a precisão do gesto dentro das infinitas possibilidades do movimento acabam sendo deixados de fora o erro, o desequilíbrio e a imprevisibilidade – variáveis que devem ser incorporados ao exercício na qualidade de instabilidade e assim aproximá-lo do real.

Quando o caminho que trilhamos deixa de ser regular e previsível, o automatismo é abandonado e o cortex motor assume a responsabilidade pela manutenção da marcha, abrindo espaço para o aumento do repertório gestual.

Com o aumento das possibilidades para a correção de eventuais desequilíbrios, abre-se caminho para mudanças nas bases sobre as quais o movimento está construído: a postura. O desequilíbrio, nestas condições, muito mais do que evitado, deve ser buscado.

Livros legais: Neuromechanics of Human Movement – 4th EditionTherapeutic Exercise: Foundations and Techniques 5th editionPrinciples of Neural Science –  5th edition.

A Árvore de Andry.

16 jul

Nuncio Paci

Ilustração Nuncio Paci

“tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado de pathos. O conceito está ligado a padecer, pois o que é passivo de um acontecimento padece deste mesmo. Portanto, não existe pathos senão no movimento, na imperfeição.” Descartes

A adversidade nunca foi um obstáculo ao corpo; o tempo, sim. Pois é preciso tempo para que as estruturas mais rígidas do corpo cedam, as mais delicadas enrijeçam, as mais sutis evidenciem-se. É preciso tempo suficiente para entender que o corpo não é expressão instantânea de nossa vontade, mas resultante de forças sobre as quais temos pouca ou nenhuma ascendência.  É da natureza do corpo humano sua adaptação e mudança, pois nada é inerte afora a morte, o rigor mortis.

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Frontispício do livro Orthopaedia, de Nicolas Andry, para quem os desvios posturais tinham causas ósseas.

No caminho em direção à adaptação, adotamos posturas potencialmente prejudiciais e movimentos arriscados que podem nos expor a lesões recorrentes. O percurso que seguimos em não raras vezes flerta com a dor sem tocá-la e é dispendioso energeticamente sem exaurir nossas forças. O motivo por que escolhemos um caminho tão inconveniente não pode ser explicado em termos antálgicos ou energéticos, pois há aspectos que prevalecem sobre estas dimensões.

O equilíbrio reúne as forças dispersas no curso da ação e as converte em um eixo, um vetor através do qual o movimento se expressa. Para ser eficiente, essa resultante deve privilegiar a estrutura que lhe dá vida, afora isso é dispendiosa energeticamente, e tão mais dispendiosa será quanto mais afastar-se da estrutura que a sustenta. Equilíbrio implica, portanto, na escolha de uma postura em convergência com a estrutura que a mantém.

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Foto arco romano

Os estímulos que interferem nesse eixo econômico e indolor originam-se, porém, de fontes adjacentes não relacionadas diretamente à imediata manifestação somática, mas de raízes histórico-emocionais. Os centros que modulam os estímulos sensoriais, o tônus postural e a coordenação motora são estruturalmente reflexos de nossa evolução enquanto espécie e funcionalmente alvo de nossa experiência vivida, interferindo sistematicamente em nosso modo de ser no mundo.

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Relação topográfica cortical e cerebelar, por Netter.  CCAS*, e.g., expõe disfunções posturais e emocionais em lesões cerebelares.

Temos assim, na expressão do corpo, algo completamente singular e que foge de sua uniformidade morfológica, pois é conseqüência do acaso. Serão as circunstâncias, as experiências vividas, que transformarão o corpo em sujeito.

A força que advém desta afirmação traduz-se na dificuldade em se quebrar padrões posturais nocivos ou dissociar movimentos dolorosos.  Devemos assumir, portanto, que o ruído que molda o movimento exibe, em grande medida, a identidade do ser. Em última instância, ao mudar o curso da ação propõe-se não apenas uma nova postura, mas uma nova maneira de estar no mundo.

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Postura de Yoga Adhomoukha Svanasana adaptada. A correção de um padrão postural depende da apresentação de um novo paradigma– Clínica Ortopedia e Traumatologia FCS Univap

Para recuperar os parâmetros sobre os quais o movimento se desenvolve e restabelecer o equilíbrio, não basta reabilitar a capacidade perdida, é preciso buscar um novo modelo que torne o existente imediatamente obsoleto, carregando per si o gene da mudança.

Para tanto há de se apelar à inteligência e instruir o indivíduo em torno de uma proposta afirmativa ao invés de lhe negar o realizado.

“ a vontade de poder não é nem um ser, nem um devir, é um pathos”.  Nietzche

O Calibre da Linha.

22 maio


Stella Harper Left Brain, right brain

“O movimento é o único meio que temos para interagir com o mundo ao redor, quer migrando de um continente a outro em busca de comida ou chamando a atenção de um garçom. De fato, toda a comunicação, incluindo a fala, os sinais, os gestos e a escrita é mediada pelo sistema motor. Deste ponto de vista, o propósito do cérebro humano é um só: produzir movimento. ” 

Daniel Wolpert

14 de maio de 2013, 20:30 horas, uma trombose acomete o hemisfério esquerdo do córtex cerebral de L.M.C., 58 anos, sexo masculino. Os movimentos coordenados do lado direito do corpo, assim como da face, estão perdidos. A fala resume-se a um rosnar sem sentido. Apenas os olhos ainda lutam para manter algum brio e assim expressar a angústia que brota diretamente da alma. Sob os evidentes sinais de “derrame”, a afecção ainda esconde algo mais profundo que escapa ao observador e ao observado.

Tanto o hemisfério esquerdo quanto o hemisfério direito do cérebro processam igualmente as informações recebidas, mas cada um à sua maneira. Enquanto o hemisfério direito pensa por imagens e aprende cinestesicamente através da relação do movimento do corpo com o meio, o esquerdo organiza as informações de modo metódico e categoricamente, contextualizando o momento presente e ponderando sobre as conseqüências futuras, desfazendo a névoa sobre a miríade de estímulos provenientes da experiência direta.

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811).

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811)

O colapso no hemisfério esquerdo do cérebro faz emergir um mundo diferente. Um lugar onde o tempo e o espaço abandonaram seu papel regulador para ceder lugar ao limbo. Neste momento, recorrer à autoridade da forma e da estrutura pode submeter o caos à ordem e lançar luz sobre o tumulto.

Poucas coisas são tão despretensiosas quanto uma reta, uma esfera, um cubo. A clareza de suas formas traduz de tal maneira a complexidade dos conceitos que, sem hesitar, elegemos a simplicidade robusta da linha no lugar de sua expressão algébrica. Através da representação, o conceito é prontamente apreendido em sua estrutura.

A.I. Kapandji (capa Phisiologie Articulare). A.I. Kapandji

De fato, as linhas a partir das quais o movimento se expressa nada têm de contínuas, não há vértice nos ângulos do corpo, não há um centro no meio da circunferência. Existe, sim, um instantâneo, uma resultante efêmera do tempo que se manifesta em carne e osso, expressão fugaz da resilência orgânica frente às adversidades do meio.

 A coordenação motoraS. Piret e M.M. Bézier

A simplicidade das formas, sua disponibilidade imediata, sua súbita apreensão pelos sentidos, entretanto, conecta vigorosamente o abstrato ao concreto e tem o poder de interferir decisivamente no curso da ação, estabilizando-a. Não se trata de mimetizar a forma com o corpo, mas recrutar instâncias intelectuais para mudar o trajeto do movimento, elucidando-o.

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UK Iyengar Yoga Convention – Cambridge 2013

Instruções que suscitem imagens claras e objetivas ancoram o corpo a planos e linhas, tornando um movimento infinitamente complexo passivo de apreensão instantânea. Assim como o alinhamento postural concernente à prática de Yoga, a organização do corpo em torno de uma geometria orgânica lança luz sobre o ponto de partida de toda ação: o momento presente. Se não há consciência sobre o lugar que se ocupa no espaço, ainda que se vislumbre a linha de chegada, não é possível saber qual o caminho tomar.

Muito Além do Peso

28 fev

“Um filme obrigatório para qualquer pessoa que se importe com a saúde das nossas crianças” Jamie Oliver

Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2. O documentário “Muito Além do Peso” de Estela Renner, discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deviam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo. Filme disponibilizado na íntegra pelos seus produtores: http://www.muitoalemdopeso.com.br/

Memorial do Açougue

8 fev

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Destrinchamos o corpo em pedaços para melhor apreendê-lo. Esta é nossa maneira de entender as coisas e a própria expressão de nossa natureza inquiridora. A tudo perscrutamos com régua e compasso a fim de nos aproximarmos da verdade.  Enquanto o fragmento colhido não for reduzido, localizado e delimitado, enquanto não puder ser enredado em nossa teia de significações, não podemos sequer vislumbrá-lo.  E assim, a golpes de facão, abrimos uma picada em direção à compreensão.

Desbastamos tudo o que encontramos pela frente para que possa caber em categorias, ser armazenado e, enfim, envolvido pelo entendimento. Avançamos trilha adentro, deixando para trás um caminho pilado, fácil de ser seguido.  A cada passo, acomodamo-nos a tudo aquilo que nos contém e suporta.

O ser humano só “se dá” ao ambiente na medida em que ele obriga o ambiente a “dar-se” a ele”.

Thommas Hanna

A fragmentação inerente ao método científico, analítico por natureza, é reflexo dessa nossa condição epistemológica.  A pesquisa, enquanto processo, nada é além da efígie talhada a partir do modo pelo qual construímos conhecimento.

Não é difícil imaginar como, a partir do desenvolvimento das ciências, os meios de produção se apropriaram da prática científica.

Chaplin

O homem na sala de planejamento, cuja a função é planejar, descobre invariavelmente que o trabalho pode ser feito de modo mais econômico se as tarefas forem subdividadas; cada ato de um mecânico, por exemplo, deve ser precedido por vários atos preparatórios realizados por outros homens

Frederick W. Taylor

Ao ser cooptado pelos meios de produção, o corpo não é mais subdividido para fins de análise, mas por motivos econômicos. Em não raras vezes, a busca pela verdade sucumbe à busca pela eficiência. As descobertas passam a ter um fim em si mesmo; tornam-se trade marks e patentes. Órfã do contexto em que se originou e destituída de sua função elementar, a pesquisa apodrece no pé

A conseqüência mais funesta deste sistema é a completa desconexão entre o detalhe e o todo. Neste ambiente, toda busca se torna estéril e qualquer resultado inócuo. A redução do corpo a partes autônomas, estruturais ou fisiológicas, nada tem de natural e se presta apenas a retroalimentar o sistema que busca moldar, concertar ou aperfeiçoar o organismo, instalando o corpo no moto-contínuo vertiginoso dos resultados segmentados e imediatos.

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A natureza, quando deixada em paz, irá delicadamente recuperar-se da desordem em que se encontrava. É nossa ansiedade, nossa impaciência que estragam tudo, e quase todos os homens morrem de seus remédios, não de suas doenças.

Moliére

O corpo não se relaciona com o ambiente de modo fragmentado e, portanto, não deve ser tratado como uma somatória de peças soltas. A unidade corpórea é radical e significa a própria vida entendida como tal. Não existe esquartejamento que não signifique desnaturação.

Abalos Sísmicos

30 dez

William Cheselden Osteographia 1733

William Cheselden, Osteographia 1733.

“Refinamento é inevitável quando você mede um fenômeno por um longo período de tempo”. Charles Francis Rischter

As mudanças estruturais, que alteram definitivamente a maneira como nos relacionamos com o espaço, não vêm do alongamento intenso exigido para explorar o movimento em toda sua amplitude, ou da energia gasta para levantar grande quantidade de peso. Transformações de fato têm seu lugar nos níveis mais profundos do corpo, onde reside o início de toda ação, em um ponto tão mais suscetível a mudanças quanto mais sutis e precisas são as exigências que recaem sobre ele.

Sobrevive na origem do movimento a postura nuclear, onde o menor abalo engendra mudanças exponenciais por todo o corpo. São as alterações na raiz da ação aquelas que, antes de qualquer outra, respondem aos desafios impostos pela vontade e carregam em si a gênese da mudança.

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Postura invertida de apoio sobre os ombros (salamba sarvangasana).  Análise da atividade muscular (EMG) da região lombar .

Cada músculo do corpo guarda profunda identidade com o trabalho para o qual foi designado e carrega uma missão, uma incumbência que evidencia sua especificidade. Recrutar músculos superficiais para assumir funções posturais, ou atribuir a músculos posturais e profundos a responsabilidade pelo levantamento de peso, por exemplo, podem ser erros caros ao corpo. Além do elevado custo energético e do desgaste precoce que esta perspectiva engendra, a reprogramação em bases disfuncionais só consolidam o erro, tornando-o inexpugnável com o tempo.

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Postura de apoio unipodal (vriksasana). Atividade assimétrica na musculatura lombar.

“Trabalhar a postura” significa, simplesmente, trabalhar posturalmente. Para acessar o eixo em torno do qual se desenrola o movimento é preciso buscar o equilíbrio inerente a sua estrutura e enfatizar a estabilidade no cerne da ação.

Desta maneira, “como fazer” tem primazia sobre “o que fazer”. Os predicados da força – e não a força em si – têm o poder para promover e perpetuar mudanças.

A mobilização simultânea de articulações e músculos em múltiplos planos – e não a ação de um músculo isolado em um plano único do movimento – evidencia o denominador comum a toda ação, integrando todo o corpo em torno do próprio eixo ao invés de desagregá-lo.

A constância, a continuidade e a virtual imobilidade que constituem o equilíbrio postural indicam que a ênfase no tempo de permanência, muito mais que nas séries de repetição, cria as condições de acesso necessárias aos padrões posturais.

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Sinal EMG bruto do longuíssimo do dorso em salamba sarvangasana

A atividade muscular não diminui devido à imobilidade do corpo, mas em resposta à melhora do equilíbrio postural. Em desequilíbrio, o corpo recruta grande quantidade de força para manter a estabilidade. Se fraco, debruça-se sobre a própria estrutura para evitar o colapso. Equilíbrio e força expressam-se inversamente no corpo: a ausência de um aumenta a dependência do outro.

A sintaxe entre o movimento e sua estrutura instala-se quando os ruídos e maneirismos do corpo se dissipam à luz do detalhe e do respeito à singularidade do indivíduo. Uma atividade física suave pode ser tão palatável quanto inócua. Se extenuante, tão cansativa quanto estúpida.

Grandezas inversas no corpo, força e equilíbrio requerem, enfim, a intervenção da inteligência para sua simbiose.

A atenção voltada ao movimento – e não para fora dele – lança as bases para o aprendizado psicossomático: chave para a sintonia fina entre conteúdo e expressão, motor de mudanças profundas e definitivas.

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salamba sarvangasana

A postura deve ser estável e confortável (sthira-sukhan asanam II – 46)

* créditos nos comentários

Coreografia da Pedra

1 out

Capa da revista A1, por Dave Mckean

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento. Não há carne nem alma;

Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe,

Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível,

Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso,

Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo,

Não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável,  resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Kazuo Ohno – The Written Face

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.

Via de mão dupla

19 jun

Dançamos, pulamos, corremos, movimentamo-nos nas três dimensões do espaço enquanto nossa cabeça, em cima de todo esse fuzuê, permanece relativamente imóvel, desfrutando de certa calmaria. Para o bom funcionamento de nosso organismo, a cabeça é mantida um tanto independente dos movimentos do corpo, requisitando para isso informações contínuas sobre nossa posição no espaço. O corpo, porém, só participa definitivamente como integrante deste mesmo espaço em virtude do sentido da visão.

O sistema visual está conectado aos sensores de posição desde o início de nossa gestação. Intimamente relacionado aos músculos posturais, o sentido da visão tem a tarefa de manter o mundo estável, fazendo os ajustes necessários nos olhos, na cabeça e na postura para compensar as mudanças no fluxo óptico que acompanham as alterações de movimento.

A visão é, portanto, fonte direta de informações sobre o próprio corpo e ajuda a ligar nossa imagem ao meio. Podemos nos enxergar no espaço e calibrar continuamente o sistema motor. Esse aspecto perceptivo contribui para a construção da própria imagem.

A interpretação das informações visuais sobre o movimento no espaço – visão consciente, foveal – fornece dados de como o corpo se relaciona com o ambiente e, desta maneira, educa o corpo, desempenhando papel postural preponderante. Com freqüência a propriocepção visual se sobrepõe ao sistema vestibular e leva a um senso de movimento equivocado. Por exemplo, quando você está parado no trânsito e o carro ao lado começa a movimentar-se, você tem a súbita impressão que está se movendo também.

L´homme et son esprit-illus.Folon (Le Livre de Sante -v.10- 1967)

As informações recebidas dos órgãos dos sentidos e interpretadas à luz da consciência sofrem interferência da própria consciência. É fácil constatar a dificuldade que sentimos em nos concentrar quando estamos preocupados, agitados ou assustados. Nestas condições, deixamos de ouvir um interlocutor que nos fala diretamente ou de enxergar um objeto imediatamente à nossa frente e, naturalmente, sofremos os reflexos posturais desta situação.

Se, por um lado o movimento é influenciado pela consciência e pelas emoções, por outro prefigura a maneira como nos tornamos conscientes de nós mesmos e contribui não apenas para organizar o desenvolvimento das estruturas neurais responsáveis pela ação motora, mas como nos comunicamos com os outros e nos relacionamos com o meio. A “corporificação molda a mente” (Shaun Gallagher, 2005) e pode tornar-se a via franca para reverter um processo de déficit de atenção ou distração, por exemplo.

A interferência de nossa visão sobre nossa postura é óbvia. Para manter o equilíbrio, buscamos continuamente pontos estacionários no ambiente onde podemos ancorar nosso olhar.  Durante a execução de posturas unipodais de Yoga, como ardha-chandrasana, vriksasana ou virabhadrasana III, evidencia-se a dependência da estabilidade óptica no equilíbrio postural, assim como a influência da concentração na manutenção destas posturas.  E como em uma via mão dupla, a execução destas posturas irá exigir que deixemos de lado toda a série de estímulos capazes de interferir na realização destas posturas, selecionando e aperfeiçoando nossa capacidade de focar.

Ardha Chandrasana

Qualquer parte do corpo pode ser trazida à luz da consciência e também pode, felizmente, deixar de depender de nossa intervenção para  seu funcionamento. O corpo trabalha sozinho para manter a postura e governar o movimento com base nas informações recebidas de inúmeras fontes. Assim, uma pessoa normal e saudável pode, de modo geral, esquecer-se de seu corpo durante boa parte de sua rotina diária. O corpo cuida de si mesmo e, desta maneira, libera o sujeito para que, com facilidade, dedique-se a outros aspectos práticos de sua vida.

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