_Eu não sei respirar.

16 maio

La jaunisse, illus. A. Dahan (Le Livre de Sante, v.6, 1967)

A pele estabelece a primeira fronteira entre nós e o mundo. Da distinção entre o corpo e seu entorno surge aquilo que passaremos a chamar de “eu”.  Assim, os órgãos do sentido farão a ponte que atualiza, redefine e forja as representações que fazemos do meio, fornecendo a matéria-prima para a memória, o raciocínio e o pensamento.

O input sensorial, porém, não se limita apenas aos receptores que se encontram nos órgãos sensoriais. Quimioreceptores monitoram continuamente a concentração de oxigênio no sangue e determinam alterações na freqüência e profundidade da respiração. Proprioceptores encontrados nos fusos musculares, tendões e articulações discriminam a posição e o movimento articular.  Barorreceptores presentes no arco aórtico distinguem a pressão arterial pela distensão vascular.  Os neurônios entéricos mantêm a coordenação das funções digestivas em harmonia com os comandos recebidos do sistema nervoso central.  Mesmos que os dados destes e de muitos outros receptores nunca venham à tona e se tornem conscientes, não há como nos imaginarmos independente deles. Não ter controle sobre processos inconscientes, enfim, não implica em afirmar que estes processos não influem na consciência. Podemos afirmar com tranqüilidade que tato, olfato, audição, paladar e visão representam uma fração das informações que irão alimentar nossas representações, corroborando ou invalidando aquilo que, na maioria das vezes, já percebemos ou sabemos por outras vias.

A idéia de alteridade em relação ao mundo, portanto, não é tão explícita quanto a apresentada pela nossa compleição física.  A pele não é uma trincheira cavada entre o corpo e o mundo, mas um contorno difuso, uma maneira de nos organizarmos nos espaço. Interagimos profundamente, subcutaneamente, com o meio, sofrendo e promovendo mudanças, sentindo dor, bem-estar, tensão, desconforto, etc., e reagindo aos estímulos recebidos.  É, por fim, a integração de informações provenientes de diversos canais que irão costurar os segmentos e órgãos do corpo em um indivíduo unificado.

A precisão das informações sobre o estado interno do organismo é um componente crítico para a preservação da saúde e relaciona-se diretamente com o equilíbrio geral do organismo (homeostase).  Assim como deixamos de enxergar ao apagar das luzes, ruídos nos sinais que vêm de dentro do corpo levam-nos a desenvolver uma experiência alterada em relação a nós mesmos.  Sentir dores sem lesão associada ou potencial, ter medo sem estar sob ameaça ou sentir falta de ar sem comprometimento respiratório apontam para o colapso da experiência subjetiva. Perder os parâmetros sobre os quais aprendemos a nos entender leva à manifestação de sintomas enviesados que, em não raras vezes, geram prognósticos equivocados.

 Building Blocks of Nervous Systems, illus. Paul Slick 

Não há praticamente como interferir de maneira deliberada em processos não-conscientes e refazer o caminho entre instâncias cognitivas e nosso estado interno, mas podemos decupar parte daquilo que fazemos de maneira reflexa no intuito limpar os ruídos que interferem em nossa relação com o próprio corpo e aprimorar nossa consciência corporal em sentido amplo.

Neste contexto, a respiração é um ato privilegiado onde a ação voluntária e a metabólica (involuntária) coexistem. A congruência entre o automático e o somático no sistema respiratório apresenta um ambiente propício para melhorar a interpretação dos impulsos que vêm de dentro do corpo.

Não é possível dissociar respiração e postura. A eficiência da primeira depende do equilíbrio da última.

As práticas de Yoga e Pilates incorporam sistematicamente em seus exercícios o controle sobre a ventilação pulmonar, restringindo, sincronizando e modificando padrões autômatos. Aprendemos, através da interferência nos processos reflexos, a aprimorar os sentidos sobre a condição fisiológica de todo o corpo.

Chamadas de Pranayama, as práticas de controle respiratório têm objetivos específicos mas, em princípio, todas demandam atenção e disciplina. “Pranayama é uma arte e depende de técnicas para fazer com que os órgãos do sistema respiratório movam-se intencionalmente, ritimadamente e intensamente”  (B.K.S. Yengar).

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