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Mobil Idade

5 jun

Aron Demetz

escultura Aron Demetz

Mobilidade é o maior preditor isolado de expectativa de vida.  Condição sócio-econômica, educação, alimentação, trabalho, dentre outros quesitos não podem ser desconsiderados. Entretanto, de todas as variáveis que pesam isoladamente sobre a longevidade de alguém, são aquelas abarcadas pelo guarda-chuva do movimento as que têm maior peso.

Força, potência, resistência, amplitude de movimentos determinam a maneira como nos adaptamos a um ambiente em constante mudança. Manter estas competências à medida que o tempo avança é, em grande medida, a própria manutenção da vida. Estar vivo significa, enfim, poder participar ativamente do mundo em suas expressões mais diversas, ambientais e sociais.

Ao contrário do que diz o saber comum, não há envelhecimento do corpo independente da mente. Os indícios de senilidade vêm à tona quando o corpo mostra-se incapaz de responder prontamente aos desafios do meio.  Vivenciamos o desgaste sofrido pelo corpo durante o tempo e assistimos perplexos à perda da memória de curto prazo e do raciocínio ágil pelos anos: “coisas da idade”.  Só que não.

O desenvolvimento do cérebro deixa claro, desde os reflexos primitivos à coordenação motora fina, que a busca por respostas, intermediada pelos sentidos, representa a força motriz de seu desenvolvimento global, do concreto ao abstrato. O movimento é a linguagem do cérebro.

Não se pode afirmar, em nenhum momento da vida, que exista distinção tal que sustente o binômio mente-corpo, a não ser aquelas meramente arbitrárias ou didáticas.  Isso apresenta uma perspectiva de futuro importante.

Se as implicações musculoesqueléticas, cardiovasculares e neuronais decorrentes do envelhecimento são irreversíveis, isso não limita em absoluto o horizonte de quem está disposto a continuar ativamente explorando seu ambiente e aprendendo. Mas é preciso estar presente no ato do exercício, qual seja, pois o movimento sem atenção não gera aprendizado, não gera desenvolvimento e é inócuo para este fim.

O movimento deve ser vivenciado em toda sua dimensão, com vistas a ampliar o espectro de experiências e aumentar a quantidade de informação proveniente do meio, qualificando quem o realiza a manter e incrementar seu repertório gestual, tornando-o apto a aprender, a cada novo passo dado, sobre suas aptidões e fraquezas.

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Leituras sugeridas:

Capítulo ‘Movent Analysis across the Life Span’ do livro Umphred´s Neurological Rehabilitation escrito por Dale Skalise-Smith e por Darcy Umphred.

http://gerontologist.oxfordjournals.org/content/13/1/88.short

http://www.maturitas.org/article/S0378-5122(12)00301-5/fulltext

 

Apenas Mais um Texto sobre ‘Core’.

23 fev

Mark Manders

Instalação Mark Manders

Terapeutas e médicos pareciam ter combinado: Clara precisava fortalecer a musculatura abdominal, caso contrário sua lombar iria continuar a sentir os reflexos do sedentarismo e da postura inadequada. A contribuição da musculatura abdominal na estabilização da coluna vertebral era senso comum, assim, a indicação para o tratamento também era unânime: fortalecimento abdominal. A vendedora de 34 anos, porém, já havia passado por sessões de terapia, aulas de Yoga e Pilates, treinamento funcional e RPG sem que as dores nas costas dessem algum sinal de recuo.

Clara havia aprendido a encaixar a pelve, usar a respiração para ativar o abdome, acionar a musculatura pélvica e manter as costelas conectadas. Após tantas horas de exercícios físicos, ela acabou assimilando uma série de instruções corretas e adquiriu um apurado senso postural sem, contudo, poder usufruir dos benefícios proclamados. Entre uma prescrição e outra, Clara passou a ouvir uma palavra em uníssono, por vezes usada como substantivo, outras como marketing.

Core” parecia uma palavra da moda e, ao mesmo tempo, uma sinopse de todo o complexo que envolvia a musculatura abdominal. No Google, Clara havia encontrado nada menos que 15 milhões de sugestões para core dentro do contexto procurado.

inner_core_muscles Músculos profundos que compõe o cilindro abdominal

Como um cinturão muscular, o core encerra o peritônio a partir da coluna, costelas e pelve. Em sua dimensão mais profunda – inner corset-, os músculos do core abraçam o tronco sem dobrar, girar ou inclinar a coluna, estabilizando-a. Isso diferencia-os de outros músculos do mesmo complexo – outer corset.

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Plano transverso: músculos profundos contraídos e superficiais relaxados

Logo, Clara percebeu que os exercícios físicos que enfatizavam movimentos de flexão, rotação e inclinação do tronco estimulavam músculos que não eram capazes de estabilizar a coluna com eficiência, pois fatigavam rapidamente, o que não podia ser esperado de fibras capazes de manter a postura.

Assim, Clara passou a separar o trabalho da musculatura postural daquela que participava dos movimentos do tronco. Acertadamente, ao invés de dedicar-se a séries intermináveis e flexões abdominais, ela começou a relaxar os músculos abdominais superficiais para evidenciar as camadas mais profundas.

Uma rota indireta para se atingir o inner corset é tirar vantagem da contigüidade fascial entre a musculatura do assoalho pélvico e deste cinturão abdominal. A base do core é o triângulo anterior do períneo e, quando o períneo é contraído, as fibras inferiores do inner corset também são ativadas. Assim que Clara conseguiu ativar a musculatura profunda independentemente da superficial, entendeu sua ação estabilizadora e sentiu resultados imediatos. Estava assim lançada as bases para livrar-se das dores que há tanto tempo a acompanhavam.

Embora os músculos profundos do abdome possam participar da respiração, os superficiais também ajudam. Logo, simplesmente levar o umbigo à coluna durante a expiração não tinha mais significado para ela.

Encontrar uma posição neutra para a coluna vertebral e ser capaz de mantê-la durante a execução dos exercícios físicos foi outra estratégia encontrada pela vendedora para atenuar as dores nas costas. Clara, antes de tudo, passou a evitar o efeito de “ioiô” na pelve, deixando mesmo alguns exercícios de lado quando não conseguia manter a estabilidade necessária para sua execução.

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Efeito ‘ioiô’ ocorre quando a musculatura é insuficiente para resistir (R) à força (F) durante os exercícios.

Os exercícios de flexão e extensão das pernas, por exemplo, passaram a ser feitos dentro de uma pequena amplitude de movimento, mas com grande consciência sobre o movimento. Aqui, as palmas das mãos sob a lombar ofereciam um input valioso sobre a mobilização de sua coluna na realização dos exercícios.

ab_yoga_9 Posicionar as mãos sob a lombar em alguns exercícios oferece um input valioso sobre a mobilização da sua coluna.

Clara, enfim, havia percebido que, antes de lançar-se à realização de exercícios desafiadores, era preciso desenvolver sua consciência corporal e assim restabelecer o alicerce de sua prática. Isso demandava paciência e, em não raras vezes, tornava exercícios simples extremamente difíceis para ela.

Apesar das dificuldades, o surgimento de benefícios quase imediatos após tantos anos de prática abriu o caminho para que Clara pudesse livrar-se das dores e isto, por si só, mudou completamente a relação que tinha com seu próprio corpo e lhe serviu de motivação para uma prática diária que a acompanha até hoje.

Fora dos Trilhos

4 mar
Transformation, 2011 Ville Andersson
Transformation. Ville Andersson.

O maior peso que somos capazes de carregar é igual ao peso suportado pelo nosso ponto mais fraco. Na tentativa continua e diligente de nos esquivarmos deste ponto, nascem desequilíbrios posturais importantes.

Roubar dos pontos mais suscetíveis o trabalho árduo para entregá-lo aos segmentos mais fortes e estáveis do corpo é uma coisa que fazemos o tempo todo no intuito de superar nossas dificuldades.

Pode-se buscar corrigir este déficit fortalecendo isoladamente os locais comprometidos. É possível até mesmo recrutar algumas poucas fibras de um único músculo através de estímulos elétricos. Não basta, porém, fortalecer o elo mais fraco, é preciso reintegrá-lo à corrente.

Desenvolver partes específicas do corpo é tão dispendioso quanto ineficiente. Na prática, não é possível conceber um corpo capaz de mover-se no espaço pela ação exclusiva de apenas um de seus segmentos. As interações mais distantes são tão relevantes quanto as afinidades mais próximas e diretas. O corpo desintegrado pode apresentar força e mobilidade, mas não expressa coerência.

Quando levantamos um peso, recrutamos muito mais que os músculos diretamente relacionados à tarefa. As estruturas que controlam, estabilizam e mantém o equilíbrio do corpo como um todo são solicitadas. O controle integrado da postura determina a performance funcional.

“Os ganhos de força podem ser conquistados sem mudanças estruturais no músculo, mas não sem adaptações neurais” (Roger Enoka). A força não é uma característica do músculo, mas do sistema nervoso como um todo e, portanto, todo o corpo deve ser objetivado no exercício do movimento.

Nos estúdios e academias de ginástica, os limites impostos ao corpo pelas máquinas, equipamentos e aparelhos têm lugar privilegiado na reabilitação do corpo enfermo, mas ao cercearem a amplitude e os planos de movimento, impedem a transferência dos ganhos conquistados para além dos parâmetros trabalhados. Há pouca equivalência entre o ambiente “in vitro” que circunscreve o movimento nestas condições e a imprevisibilidade da vida diária ou da prática esportiva.

Ao buscar a precisão do gesto dentro das infinitas possibilidades do movimento acabam sendo deixados de fora o erro, o desequilíbrio e a imprevisibilidade – variáveis que devem ser incorporados ao exercício na qualidade de instabilidade e assim aproximá-lo do real.

Quando o caminho que trilhamos deixa de ser regular e previsível, o automatismo é abandonado e o cortex motor assume a responsabilidade pela manutenção da marcha, abrindo espaço para o aumento do repertório gestual.

Com o aumento das possibilidades para a correção de eventuais desequilíbrios, abre-se caminho para mudanças nas bases sobre as quais o movimento está construído: a postura. O desequilíbrio, nestas condições, muito mais do que evitado, deve ser buscado.

Livros legais: Neuromechanics of Human Movement – 4th EditionTherapeutic Exercise: Foundations and Techniques 5th editionPrinciples of Neural Science –  5th edition.

A Árvore de Andry.

16 jul

Nuncio Paci

Ilustração Nuncio Paci

“tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado de pathos. O conceito está ligado a padecer, pois o que é passivo de um acontecimento padece deste mesmo. Portanto, não existe pathos senão no movimento, na imperfeição.” Descartes

A adversidade nunca foi um obstáculo ao corpo; o tempo, sim. Pois é preciso tempo para que as estruturas mais rígidas do corpo cedam, as mais delicadas enrijeçam, as mais sutis evidenciem-se. É preciso tempo suficiente para entender que o corpo não é expressão instantânea de nossa vontade, mas resultante de forças sobre as quais temos pouca ou nenhuma ascendência.  É da natureza do corpo humano sua adaptação e mudança, pois nada é inerte afora a morte, o rigor mortis.

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Frontispício do livro Orthopaedia, de Nicolas Andry, para quem os desvios posturais tinham causas ósseas.

No caminho em direção à adaptação, adotamos posturas potencialmente prejudiciais e movimentos arriscados que podem nos expor a lesões recorrentes. O percurso que seguimos em não raras vezes flerta com a dor sem tocá-la e é dispendioso energeticamente sem exaurir nossas forças. O motivo por que escolhemos um caminho tão inconveniente não pode ser explicado em termos antálgicos ou energéticos, pois há aspectos que prevalecem sobre estas dimensões.

O equilíbrio reúne as forças dispersas no curso da ação e as converte em um eixo, um vetor através do qual o movimento se expressa. Para ser eficiente, essa resultante deve privilegiar a estrutura que lhe dá vida, afora isso é dispendiosa energeticamente, e tão mais dispendiosa será quanto mais afastar-se da estrutura que a sustenta. Equilíbrio implica, portanto, na escolha de uma postura em convergência com a estrutura que a mantém.

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Foto arco romano

Os estímulos que interferem nesse eixo econômico e indolor originam-se, porém, de fontes adjacentes não relacionadas diretamente à imediata manifestação somática, mas de raízes histórico-emocionais. Os centros que modulam os estímulos sensoriais, o tônus postural e a coordenação motora são estruturalmente reflexos de nossa evolução enquanto espécie e funcionalmente alvo de nossa experiência vivida, interferindo sistematicamente em nosso modo de ser no mundo.

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Relação topográfica cortical e cerebelar, por Netter.  CCAS*, e.g., expõe disfunções posturais e emocionais em lesões cerebelares.

Temos assim, na expressão do corpo, algo completamente singular e que foge de sua uniformidade morfológica, pois é conseqüência do acaso. Serão as circunstâncias, as experiências vividas, que transformarão o corpo em sujeito.

A força que advém desta afirmação traduz-se na dificuldade em se quebrar padrões posturais nocivos ou dissociar movimentos dolorosos.  Devemos assumir, portanto, que o ruído que molda o movimento exibe, em grande medida, a identidade do ser. Em última instância, ao mudar o curso da ação propõe-se não apenas uma nova postura, mas uma nova maneira de estar no mundo.

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Postura de Yoga Adhomoukha Svanasana adaptada. A correção de um padrão postural depende da apresentação de um novo paradigma– Clínica Ortopedia e Traumatologia FCS Univap

Para recuperar os parâmetros sobre os quais o movimento se desenvolve e restabelecer o equilíbrio, não basta reabilitar a capacidade perdida, é preciso buscar um novo modelo que torne o existente imediatamente obsoleto, carregando per si o gene da mudança.

Para tanto há de se apelar à inteligência e instruir o indivíduo em torno de uma proposta afirmativa ao invés de lhe negar o realizado.

“ a vontade de poder não é nem um ser, nem um devir, é um pathos”.  Nietzche

O Calibre da Linha.

22 maio


Stella Harper Left Brain, right brain

“O movimento é o único meio que temos para interagir com o mundo ao redor, quer migrando de um continente a outro em busca de comida ou chamando a atenção de um garçom. De fato, toda a comunicação, incluindo a fala, os sinais, os gestos e a escrita é mediada pelo sistema motor. Deste ponto de vista, o propósito do cérebro humano é um só: produzir movimento. ” 

Daniel Wolpert

14 de maio de 2013, 20:30 horas, uma trombose acomete o hemisfério esquerdo do córtex cerebral de L.M.C., 58 anos, sexo masculino. Os movimentos coordenados do lado direito do corpo, assim como da face, estão perdidos. A fala resume-se a um rosnar sem sentido. Apenas os olhos ainda lutam para manter algum brio e assim expressar a angústia que brota diretamente da alma. Sob os evidentes sinais de “derrame”, a afecção ainda esconde algo mais profundo que escapa ao observador e ao observado.

Tanto o hemisfério esquerdo quanto o hemisfério direito do cérebro processam igualmente as informações recebidas, mas cada um à sua maneira. Enquanto o hemisfério direito pensa por imagens e aprende cinestesicamente através da relação do movimento do corpo com o meio, o esquerdo organiza as informações de modo metódico e categoricamente, contextualizando o momento presente e ponderando sobre as conseqüências futuras, desfazendo a névoa sobre a miríade de estímulos provenientes da experiência direta.

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811).

Kawaguchi, Shinnin (1736-1811)

O colapso no hemisfério esquerdo do cérebro faz emergir um mundo diferente. Um lugar onde o tempo e o espaço abandonaram seu papel regulador para ceder lugar ao limbo. Neste momento, recorrer à autoridade da forma e da estrutura pode submeter o caos à ordem e lançar luz sobre o tumulto.

Poucas coisas são tão despretensiosas quanto uma reta, uma esfera, um cubo. A clareza de suas formas traduz de tal maneira a complexidade dos conceitos que, sem hesitar, elegemos a simplicidade robusta da linha no lugar de sua expressão algébrica. Através da representação, o conceito é prontamente apreendido em sua estrutura.

A.I. Kapandji (capa Phisiologie Articulare). A.I. Kapandji

De fato, as linhas a partir das quais o movimento se expressa nada têm de contínuas, não há vértice nos ângulos do corpo, não há um centro no meio da circunferência. Existe, sim, um instantâneo, uma resultante efêmera do tempo que se manifesta em carne e osso, expressão fugaz da resilência orgânica frente às adversidades do meio.

 A coordenação motoraS. Piret e M.M. Bézier

A simplicidade das formas, sua disponibilidade imediata, sua súbita apreensão pelos sentidos, entretanto, conecta vigorosamente o abstrato ao concreto e tem o poder de interferir decisivamente no curso da ação, estabilizando-a. Não se trata de mimetizar a forma com o corpo, mas recrutar instâncias intelectuais para mudar o trajeto do movimento, elucidando-o.

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UK Iyengar Yoga Convention – Cambridge 2013

Instruções que suscitem imagens claras e objetivas ancoram o corpo a planos e linhas, tornando um movimento infinitamente complexo passivo de apreensão instantânea. Assim como o alinhamento postural concernente à prática de Yoga, a organização do corpo em torno de uma geometria orgânica lança luz sobre o ponto de partida de toda ação: o momento presente. Se não há consciência sobre o lugar que se ocupa no espaço, ainda que se vislumbre a linha de chegada, não é possível saber qual o caminho tomar.

_Eu não sei respirar.

16 maio

La jaunisse, illus. A. Dahan (Le Livre de Sante, v.6, 1967)

A pele estabelece a primeira fronteira entre nós e o mundo. Da distinção entre o corpo e seu entorno surge aquilo que passaremos a chamar de “eu”.  Assim, os órgãos do sentido farão a ponte que atualiza, redefine e forja as representações que fazemos do meio, fornecendo a matéria-prima para a memória, o raciocínio e o pensamento.

O input sensorial, porém, não se limita apenas aos receptores que se encontram nos órgãos sensoriais. Quimioreceptores monitoram continuamente a concentração de oxigênio no sangue e determinam alterações na freqüência e profundidade da respiração. Proprioceptores encontrados nos fusos musculares, tendões e articulações discriminam a posição e o movimento articular.  Barorreceptores presentes no arco aórtico distinguem a pressão arterial pela distensão vascular.  Os neurônios entéricos mantêm a coordenação das funções digestivas em harmonia com os comandos recebidos do sistema nervoso central.  Mesmos que os dados destes e de muitos outros receptores nunca venham à tona e se tornem conscientes, não há como nos imaginarmos independente deles. Não ter controle sobre processos inconscientes, enfim, não implica em afirmar que estes processos não influem na consciência. Podemos afirmar com tranqüilidade que tato, olfato, audição, paladar e visão representam uma fração das informações que irão alimentar nossas representações, corroborando ou invalidando aquilo que, na maioria das vezes, já percebemos ou sabemos por outras vias.

A idéia de alteridade em relação ao mundo, portanto, não é tão explícita quanto a apresentada pela nossa compleição física.  A pele não é uma trincheira cavada entre o corpo e o mundo, mas um contorno difuso, uma maneira de nos organizarmos nos espaço. Interagimos profundamente, subcutaneamente, com o meio, sofrendo e promovendo mudanças, sentindo dor, bem-estar, tensão, desconforto, etc., e reagindo aos estímulos recebidos.  É, por fim, a integração de informações provenientes de diversos canais que irão costurar os segmentos e órgãos do corpo em um indivíduo unificado.

A precisão das informações sobre o estado interno do organismo é um componente crítico para a preservação da saúde e relaciona-se diretamente com o equilíbrio geral do organismo (homeostase).  Assim como deixamos de enxergar ao apagar das luzes, ruídos nos sinais que vêm de dentro do corpo levam-nos a desenvolver uma experiência alterada em relação a nós mesmos.  Sentir dores sem lesão associada ou potencial, ter medo sem estar sob ameaça ou sentir falta de ar sem comprometimento respiratório apontam para o colapso da experiência subjetiva. Perder os parâmetros sobre os quais aprendemos a nos entender leva à manifestação de sintomas enviesados que, em não raras vezes, geram prognósticos equivocados.

 Building Blocks of Nervous Systems, illus. Paul Slick 

Não há praticamente como interferir de maneira deliberada em processos não-conscientes e refazer o caminho entre instâncias cognitivas e nosso estado interno, mas podemos decupar parte daquilo que fazemos de maneira reflexa no intuito limpar os ruídos que interferem em nossa relação com o próprio corpo e aprimorar nossa consciência corporal em sentido amplo.

Neste contexto, a respiração é um ato privilegiado onde a ação voluntária e a metabólica (involuntária) coexistem. A congruência entre o automático e o somático no sistema respiratório apresenta um ambiente propício para melhorar a interpretação dos impulsos que vêm de dentro do corpo.

Não é possível dissociar respiração e postura. A eficiência da primeira depende do equilíbrio da última.

As práticas de Yoga e Pilates incorporam sistematicamente em seus exercícios o controle sobre a ventilação pulmonar, restringindo, sincronizando e modificando padrões autômatos. Aprendemos, através da interferência nos processos reflexos, a aprimorar os sentidos sobre a condição fisiológica de todo o corpo.

Chamadas de Pranayama, as práticas de controle respiratório têm objetivos específicos mas, em princípio, todas demandam atenção e disciplina. “Pranayama é uma arte e depende de técnicas para fazer com que os órgãos do sistema respiratório movam-se intencionalmente, ritimadamente e intensamente”  (B.K.S. Yengar).

Árvores que Andam

6 fev

Para ser bem executada, uma postura de Yoga exige que nosso corpo esteja profundamente alicerçado em seus apoios. Pés no chão, mãos unidas, cabeça apoiada, ombros amparados e, depois de tudo isso, se ainda sobrar alguma ponta solta, haverá quem encontre um modo de amarrá-la.

Quando um membro ou qualquer segmento do corpo está apoiado sobre uma superfície, sua ação colide com o apoio e volta em direção à origem.  Em seu retorno, a força aplicada aumenta a compressão articular e estimula os sensores (proprioceptores), o que aprimora a sincronicidade da contração muscular e melhora a estabilidade postural.  Quando o movimento das mãos é interditado por uma parede, por exemplo, toda a cadeia muscular dos braços e costas é imediatamente recrutada e passa a se exercitar ao mesmo tempo.

Interiorizada, a força nem sempre é conduzida por canais apropriados e requer nossa intervenção. A manipulação deliberada e consciente das linhas de força que cortam o corpo durante a interceptação do movimento tem o poder de alterar profundamente uma postura, refazendo os caminhos pelos quais passam habitualmente essas linhas.

Ao realizar uma ação interna, manejamos os vetores de força com o propósito de promover o equilíbrio articular, diminuir as forças de cisalhamento sobre os ossos e aprumar as cargas axiais, redefinindo o alinhamento postural.

Assim, durante a execução de uma postura de Yoga, o movimento ganha vida na absoluta imobilidade do corpo.

Para mover livremente os segmentos do corpo no espaço, ao contrário, imobilizamos o tronco e acionamos isoladamente o segmento desejado. Ao levantar um halter, sentados em uma cadeira, acessamos a articulação do cotovelo sem mobilizar significativamente o ombro, as escápulas ou as costas, por exemplo. Este movimento aumenta as forças de distração (separação articular) no cotovelo e recruta o bíceps do braço para manter a articulação unida. Essa estratégia é fundamental quando uma articulação está comprometida e deve ser preservada enquanto outras partes do corpo precisam ser exercitadas.

No cotidiano, porém, as habilidades biomotoras de vários segmentos do corpo são continuamente combinadas para a execução de determinado movimento e dificilmente podem ser esgotadas em termos de extensão, flexão ou rotação de um único membro. A combinação de exercícios que misturam imobilidade e mobilidade segmentar aproxima-se das atividades funcionais cotidianas e ampliam as possibilidades de tratamento e reabilitação.

Nas rotinas de Pilates, essa mistura é levada adiante com o propósito de estabilizar a musculatura profunda do cilindro abdominal e integrar as cadeias musculares envolvidas na preparação para o movimento. O transverso do abdome, o multifidio, o assoalho pélvico, o diafragma e o oblíquo quando trabalham afinados, liberam os músculos motores para trabalhar livre e eficientemente. O intervalo entre a preparação e a ação é crucial para a saúde articular, destacadamente da espinha.

Na rotina diária, durante o treinamento físico ou nas sessões de terapia, não basta evidenciar a conexão entre os segmentos com o todo ou tentar descobrir quais músculos são demasiadamente fracos ou exageradamente tensos, mas considerar a conexão do impacto da estrutura (forma e anatomia), da função (forças e coordenação motora) e mente (consciência). Esta orquestra é regida pelo sistema nervoso e diretamente influenciada pelas emoções.

A Árvore na Montanha

28 maio

Os dedos se fecham imediatamente após a palma da mão ser tocada. A ação primitiva será aperfeiçoada com o tempo; por hora, apenas alguns reflexos como gritar e sugar podem ser notados com clareza. Quando o mundo puder ser vislumbrado com mais nitidez, valerá o risco de engatinhar em direção ao desconhecido.

No começo, o movimento reage a estímulos de maneira mecânica, de forma reflexa, alheio à consciência e sem as nuances impostas pela volição. Mirando um alvo, os membros do corpo são propelidos no espaço por meio de movimentos rápidos e espasmódicos, fornecendo dados para que o mundo percebido ganhe a consistência do mundo real. As informações coletadas pelo movimento do corpo no espaço comprovam ou colocam em xeque os sinais recebidos pelos órgãos dos sentidos. A abstração dos sentidos, por fim, cede à concretude da vida. Desta maneira o corpo educa os sentidos e influencia a formação da consciência.

No caminho de volta, a precisão dos movimentos cresce na medida em que se desenvolve a consciência. O movimento antes desordenado e reflexo passa a ser modulado pelos estímulos que partem de instâncias superiores do cérebro e seguem em direção a toda parte do corpo. Sob a influência da mesma inteligência que ajudou a formar, os movimentos ficam mais elaborados e precisos.

Com o tempo, mesmo as ações mais complexas são otimizadas e se tornam habituais. A realização de um movimento passa pela escolha de alternativas energeticamente dispendiosas, lentas e potencialmente lesivas até consolidar um atalho rápido e econômico em direção à ação que irá tornar-se padrão. O equilíbrio do corpo existe neste contexto.

Um corpo parado e em equilíbrio alicerça-se sobre as articulações e na tensão muscular, estabelecendo uma base sólida a partir da qual nasce o movimento. Permanecer muito tempo em pé sem apresentar sinais de fatiga ou movimentar o corpo sem dissipar energia em excesso, por exemplo, requer equilíbrio.

A evolução do corpo pode ser capturada em snapshots ao focar sua adaptabilidade ao meio. Na postura da montanha (abaixo), por exemplo, o corpo equilibra-se dos pés à cabeça sobre as articulações e não exige tensão muscular maior que a já instalada. A postura é mantida predominantemente através de arcos reflexos curtos e elementares. Sentir fadiga e dor na manutenção de uma postura que deveria ser natural a partir dos 16 meses de vida denota evidente desequilíbrio.

Tadasana, a postura da montaha.

Quando uma perna é dobrada na postura da árvore, Vriksasana, há aumento do tônus muscular e os sentidos passam a ser solicitados para a realização da postura. A visão e o sistema vestibular irão ativar áreas de controle motor que, por sua vez, inundarão o corpo com impulsos nervosos de cima para baixo, da cabeça aos pés, modulando as contrações que começaram de baixo para cima, a partir do pé de apoio, melhorando a precisão das contrações e aprimorando os movimentos. Com a prática será possível manter esta postura por longos períodos de tempo, sem doses maciças de atenção, pois o corpo aprenderá o caminho para o equilíbrio.

Vriksasana, a postura da árvore.

Ao flexionar o corpo em Virabhadrasana III, além de toda atividade neuromuscular descrita, músculos que não têm função postural serão alistados para o exercício. Fibras musculares de alta tensão tetânica e de baixa resistência à fatiga serão mobilizadas na postura, o que a torna mais complexa que as anteriores. Ainda que a estabilidade em Virabhadrasana III pareça inicialmente algo precário e fora do alcance, o equilíbrio nesta postura é tão passível de ser atingido quanto em qualquer outra.

Virabhadrasana III, a postura dedicada ao herói Virabhadra.

Realocar forças deliberadamente e interferir conscientemente no corpo significa, do ponto de vista neuromuscular, uma prática de “descondicionamento” físico e mental, uma vez que estamos refazendo muito dos “atalhos” criados pelo corpo em direção à estabilidade. Revisitar antigos padrões motores abre uma nova perspectiva sobre o corpo, cultivando sua adaptabilidade e conferindo maior liberdade para responder aos desafios do meio, sempre em mudança.

“O ser humano é estável e deve ser para não ser destruído, dissolvido, desintegrado pelas forças colossais que o rodeiam. Por uma aparente contradição, ele mantém sua estabilidade somente se for capaz de modificar-se de acordo com os estímulos externos e ajustar a resposta ao estímulo. Em certo sentido, ele é estável porque é modificável; a instabilidade é a condição necessária para a estabilidade do organismo. “ Charles R. Richet, Physiologie. Paris, Alcan, 1893.

Sobre Peixes e Homens.

28 fev

Sem um chão firme, atolamos. Afundamos até que o solo abaixo de nossos pés se compacte o bastante para impedir nossa viagem Terra adentro. Concentramos todo nosso peso na pequena área compreendida entre os calcanhares e os dedos dos pés. A partir desta parca base de apoio criamos um alicerce para erigir nosso corpo do chão com todos os seus segmentos e apetrechos. Assim descolamos da superfície em direção ao espaço.

Quando saltamos da água para a terra firme, há pouco mais de 380 milhões de anos atrás, o esqueleto, antes sustentado gentilmente pela água em toda sua extensão, passou a custear nossa empreitada contra a gravidade. Um grande número de músculos se desenvolveu para bancar essa excursão em direção à terra firme e conferir uma estrutura adequada para que os ossos pudessem dar conta do recado e continuar a exercer suas funções.

Nos mares e rios, enquanto desloca uma quantidade de água equivalente a sua densidade, um peixe não afunda nem bóia. Sobe à superfície ou mergulha coordenando seu deslocamento no eixo vertical através de um sistema intrincado de controle biofísico, gerenciado por um cérebro complexo e receptores de pressão extremamente sensíveis. Sair da água e desgarrar-se do chão não foi fácil e tivemos que rastejar muito no barro antes de começar a engatinhar em terra firme.

Não se tratava apenas de respirar ar ao invés de água. Deixar mares e rios para trás representou sobreviver à ausência da sustentação oferecida pela água, passar a suportar a força descendente da gravidade e adaptar-se à resistência ascendente do chão ao peso. Finas e delicadas barbatanas adensaram-se na forma de patas musculosas.

De quatro no chão, os músculos se entrecruzaram em toda a extensão do torso em várias camadas, sustentando e ligando a coluna vertebral entre a bacia e os ombros. Como uma ponte pênsil, o tronco foi erguido do chão entre as patas da frente e de trás, suspenso pelas linhas de força que interligam toda sua estrutura anatômica de forma global. Qualquer movimento, do mais amplo deslocamento ao gesto mais delicado, mobiliza todo o corpo de modo a equilibrar suas incursões no espaço. Pata anterior direita para frente, posterior esquerda para trás; enquanto a bacia apoia os ombros, os ombros equilibram a bacia e assim o corpo campeou sobre os mais diversos tipos de terreno, vegetação e clima.

Levou ainda algum tempo antes de conseguirmos tirar as patas anteriores do chão para derrubar nosso almoço das árvores ou esticar o braço pela janela do carro para pegar um lanche no drive thru. Aos trancos e barrancos, adquirimos a forma mais adequada para desempenhar as funções necessárias à nossa sobrevivência, sem abandonar completamente algumas características em desuso, carregando em nosso corpo toda a história que nos trouxe até aqui. E a história continua…

“Apesar de nossa evolução como bípedes, continuamos sendo quadrúpedes em toda nossa estrutura, como demonstram nossos gestos. (…) Sofremos as seqüelas dessa evolução ainda incompleta” (Marcel Bienfait).

Responder com liberdade às exigências do meio é um estatuto do corpo e uma premissa adaptativa sem a qual adoecemos. Contar com as condições para que as solicitações do meio possam ser solucionadas pelo corpo, promovendo as mudanças necessárias de modo eficaz, sem limitações e isento de dificuldades extraordinárias, é sinônimo de uma vida longa e sem sofrimento.

“Quando o homem levantou seu corpo do chão, assumindo a postura ereta, as desvantagens de se apoiar sobre uma base pequena foram enfrentadas por vários dispositivos e através de mudanças estruturais. Estas mudanças se mostraram insuficientes para resolver todos os problemas. Como consequência, o funcionamento do esqueleto como um mecanismo de proteção é frequentemente colocado em risco por ajustes mecânicos inadequados. A inteligência humana deve ser aplicada a este problema” (Mabel E. Todd).

Desequilíbrio Estático

3 jan

A perna direita impulsiona você à frente enquanto a esquerda descansa uma fração de segundo no ar antes de voltar à carga. Caminhando, deslocamo-nos no espaço. Ao observar as pegadas deixadas para trás, decompomos o movimento em uma série de períodos cuja unidade de tempo é dada em passos. Fica evidente o rastro de explosões de força que coordenamos para dar orientação e sentido a um movimento chamado “andar”.

Somos virtualmente incapazes de realizar um trabalho constante por um longo período de tempo, sem intermitência ou intervalo, pois a energia mobilizada por nós se esvai rapidamente e a bateria precisa ser recarregada. Assim pulsamos em ritmos variados, em ciclos de fatiga e descanso, carga e descarga, ação e inação, durante uma atividade física, durante o dia, o ano, durante uma vida.

Os grandes músculos superficiais estão aptos a mobilizar prontamente grande quantidade de força, mediante a cobrança de uma conta alta de energia, e precisam ser ciclicamente desligados para que possam se recuperar do esforço. Assim não conseguimos mantê-los em uso contínuo por muito tempo. Rentes à pele e facilmente observados, estes músculos inserem-se perto das articulações e são responsáveis pela considerável amplitude de movimento que dispomos, porém não oferecem grande precisão de movimento. É como tentar escrever com um lápis atado a uma vara de pesca: quanto mais distante do lápis estamos, menos preciso é nosso traço e maior é a linha que conseguimos traçar com ele.

Para nos mantermos em determinada posição por muito tempo, fazemos uso da musculatura profunda do corpo. Capaz de nos manter estáveis por longos períodos de tempo, estes músculos estabilizam nossas articulações e fazem a sintonia fina em nossa postura para que possamos nos movimentar com liberdade e segurança. Com fibras curtas e potentes, os músculos profundos não primam pela amplitude de movimento, mas pelo ajuste preciso das ações. Quando estamos sentados, por exemplo, a musculatura profunda da coluna empilha com precisão cada uma de nossas vértebras para equilibrá-las de forma eficiente e nos manter estáveis por muito mais tempo.

Quando a musculatura profunda do corpo está atrofiada, manda a fatura para os grandes grupos musculares que, incapazes de responder com a precisão e permanência adequadas a este tipo de estímulo, sobrecarregam as articulações e abrem as portas para um sem número de patologias articulares que irão afetar principalmente a coluna, os joelhos e os ombros.

Durante a realização de posturas de Yoga ou determinadas séries de Pilates, paramos no tempo e adentramos em nosso corpo para trabalhar sua musculatura profunda. A permanência em um ásana de Yoga como Padangustha Dandasana (foto abaixo), por exemplo, além do trabalho óbvio nos grandes grupos musculares posteriores da coxa, leva-nos a uma viagem em direção aos movimentos de extensão e flexão da coluna que raramente encontramos em outra atividade física. Conectar nossa consciência a estas regiões terá reflexos imediatos em nossa postura global.

 null Padangustha Dandasana alonga os músculos interespinhais , transverso
espinhal e subocciptais promovendo o alongamento longitudinal da coluna
antes da flexão
.

Adquirimos com o tempo de prática uma inteligência neuromotor que se expandirá a outras atividades em nosso cotidiano.

Estamos em constante movimento e pulsamos como pulsa nosso coração, nossa respiração e tudo aquilo que entendemos por movimento resume-se em essência a instantâneos conectados em linha que oferecem a idéia de tempo e movimento. A prática de atividades como Yoga e Pilates têm o poder de nos mostrar em detalhes cada um destes fragmentos de movimento e reconduzir cada estímulo ao seu devido lugar.

“Tempo é o desenrolar do meu corpo no espaço”. Ivaldo Bertazzo

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