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A Árvore na Montanha

28 maio

Os dedos se fecham imediatamente após a palma da mão ser tocada. A ação primitiva será aperfeiçoada com o tempo; por hora, apenas alguns reflexos como gritar e sugar podem ser notados com clareza. Quando o mundo puder ser vislumbrado com mais nitidez, valerá o risco de engatinhar em direção ao desconhecido.

No começo, o movimento reage a estímulos de maneira mecânica, de forma reflexa, alheio à consciência e sem as nuances impostas pela volição. Mirando um alvo, os membros do corpo são propelidos no espaço por meio de movimentos rápidos e espasmódicos, fornecendo dados para que o mundo percebido ganhe a consistência do mundo real. As informações coletadas pelo movimento do corpo no espaço comprovam ou colocam em xeque os sinais recebidos pelos órgãos dos sentidos. A abstração dos sentidos, por fim, cede à concretude da vida. Desta maneira o corpo educa os sentidos e influencia a formação da consciência.

No caminho de volta, a precisão dos movimentos cresce na medida em que se desenvolve a consciência. O movimento antes desordenado e reflexo passa a ser modulado pelos estímulos que partem de instâncias superiores do cérebro e seguem em direção a toda parte do corpo. Sob a influência da mesma inteligência que ajudou a formar, os movimentos ficam mais elaborados e precisos.

Com o tempo, mesmo as ações mais complexas são otimizadas e se tornam habituais. A realização de um movimento passa pela escolha de alternativas energeticamente dispendiosas, lentas e potencialmente lesivas até consolidar um atalho rápido e econômico em direção à ação que irá tornar-se padrão. O equilíbrio do corpo existe neste contexto.

Um corpo parado e em equilíbrio alicerça-se sobre as articulações e na tensão muscular, estabelecendo uma base sólida a partir da qual nasce o movimento. Permanecer muito tempo em pé sem apresentar sinais de fatiga ou movimentar o corpo sem dissipar energia em excesso, por exemplo, requer equilíbrio.

A evolução do corpo pode ser capturada em snapshots ao focar sua adaptabilidade ao meio. Na postura da montanha (abaixo), por exemplo, o corpo equilibra-se dos pés à cabeça sobre as articulações e não exige tensão muscular maior que a já instalada. A postura é mantida predominantemente através de arcos reflexos curtos e elementares. Sentir fadiga e dor na manutenção de uma postura que deveria ser natural a partir dos 16 meses de vida denota evidente desequilíbrio.

Tadasana, a postura da montaha.

Quando uma perna é dobrada na postura da árvore, Vriksasana, há aumento do tônus muscular e os sentidos passam a ser solicitados para a realização da postura. A visão e o sistema vestibular irão ativar áreas de controle motor que, por sua vez, inundarão o corpo com impulsos nervosos de cima para baixo, da cabeça aos pés, modulando as contrações que começaram de baixo para cima, a partir do pé de apoio, melhorando a precisão das contrações e aprimorando os movimentos. Com a prática será possível manter esta postura por longos períodos de tempo, sem doses maciças de atenção, pois o corpo aprenderá o caminho para o equilíbrio.

Vriksasana, a postura da árvore.

Ao flexionar o corpo em Virabhadrasana III, além de toda atividade neuromuscular descrita, músculos que não têm função postural serão alistados para o exercício. Fibras musculares de alta tensão tetânica e de baixa resistência à fatiga serão mobilizadas na postura, o que a torna mais complexa que as anteriores. Ainda que a estabilidade em Virabhadrasana III pareça inicialmente algo precário e fora do alcance, o equilíbrio nesta postura é tão passível de ser atingido quanto em qualquer outra.

Virabhadrasana III, a postura dedicada ao herói Virabhadra.

Realocar forças deliberadamente e interferir conscientemente no corpo significa, do ponto de vista neuromuscular, uma prática de “descondicionamento” físico e mental, uma vez que estamos refazendo muito dos “atalhos” criados pelo corpo em direção à estabilidade. Revisitar antigos padrões motores abre uma nova perspectiva sobre o corpo, cultivando sua adaptabilidade e conferindo maior liberdade para responder aos desafios do meio, sempre em mudança.

“O ser humano é estável e deve ser para não ser destruído, dissolvido, desintegrado pelas forças colossais que o rodeiam. Por uma aparente contradição, ele mantém sua estabilidade somente se for capaz de modificar-se de acordo com os estímulos externos e ajustar a resposta ao estímulo. Em certo sentido, ele é estável porque é modificável; a instabilidade é a condição necessária para a estabilidade do organismo. “ Charles R. Richet, Physiologie. Paris, Alcan, 1893.

Sobre Peixes e Homens.

28 fev

Sem um chão firme, atolamos. Afundamos até que o solo abaixo de nossos pés se compacte o bastante para impedir nossa viagem Terra adentro. Concentramos todo nosso peso na pequena área compreendida entre os calcanhares e os dedos dos pés. A partir desta parca base de apoio criamos um alicerce para erigir nosso corpo do chão com todos os seus segmentos e apetrechos. Assim descolamos da superfície em direção ao espaço.

Quando saltamos da água para a terra firme, há pouco mais de 380 milhões de anos atrás, o esqueleto, antes sustentado gentilmente pela água em toda sua extensão, passou a custear nossa empreitada contra a gravidade. Um grande número de músculos se desenvolveu para bancar essa excursão em direção à terra firme e conferir uma estrutura adequada para que os ossos pudessem dar conta do recado e continuar a exercer suas funções.

Nos mares e rios, enquanto desloca uma quantidade de água equivalente a sua densidade, um peixe não afunda nem bóia. Sobe à superfície ou mergulha coordenando seu deslocamento no eixo vertical através de um sistema intrincado de controle biofísico, gerenciado por um cérebro complexo e receptores de pressão extremamente sensíveis. Sair da água e desgarrar-se do chão não foi fácil e tivemos que rastejar muito no barro antes de começar a engatinhar em terra firme.

Não se tratava apenas de respirar ar ao invés de água. Deixar mares e rios para trás representou sobreviver à ausência da sustentação oferecida pela água, passar a suportar a força descendente da gravidade e adaptar-se à resistência ascendente do chão ao peso. Finas e delicadas barbatanas adensaram-se na forma de patas musculosas.

De quatro no chão, os músculos se entrecruzaram em toda a extensão do torso em várias camadas, sustentando e ligando a coluna vertebral entre a bacia e os ombros. Como uma ponte pênsil, o tronco foi erguido do chão entre as patas da frente e de trás, suspenso pelas linhas de força que interligam toda sua estrutura anatômica de forma global. Qualquer movimento, do mais amplo deslocamento ao gesto mais delicado, mobiliza todo o corpo de modo a equilibrar suas incursões no espaço. Pata anterior direita para frente, posterior esquerda para trás; enquanto a bacia apoia os ombros, os ombros equilibram a bacia e assim o corpo campeou sobre os mais diversos tipos de terreno, vegetação e clima.

Levou ainda algum tempo antes de conseguirmos tirar as patas anteriores do chão para derrubar nosso almoço das árvores ou esticar o braço pela janela do carro para pegar um lanche no drive thru. Aos trancos e barrancos, adquirimos a forma mais adequada para desempenhar as funções necessárias à nossa sobrevivência, sem abandonar completamente algumas características em desuso, carregando em nosso corpo toda a história que nos trouxe até aqui. E a história continua…

“Apesar de nossa evolução como bípedes, continuamos sendo quadrúpedes em toda nossa estrutura, como demonstram nossos gestos. (…) Sofremos as seqüelas dessa evolução ainda incompleta” (Marcel Bienfait).

Responder com liberdade às exigências do meio é um estatuto do corpo e uma premissa adaptativa sem a qual adoecemos. Contar com as condições para que as solicitações do meio possam ser solucionadas pelo corpo, promovendo as mudanças necessárias de modo eficaz, sem limitações e isento de dificuldades extraordinárias, é sinônimo de uma vida longa e sem sofrimento.

“Quando o homem levantou seu corpo do chão, assumindo a postura ereta, as desvantagens de se apoiar sobre uma base pequena foram enfrentadas por vários dispositivos e através de mudanças estruturais. Estas mudanças se mostraram insuficientes para resolver todos os problemas. Como consequência, o funcionamento do esqueleto como um mecanismo de proteção é frequentemente colocado em risco por ajustes mecânicos inadequados. A inteligência humana deve ser aplicada a este problema” (Mabel E. Todd).

Desequilíbrio Estático

3 jan

A perna direita impulsiona você à frente enquanto a esquerda descansa uma fração de segundo no ar antes de voltar à carga. Caminhando, deslocamo-nos no espaço. Ao observar as pegadas deixadas para trás, decompomos o movimento em uma série de períodos cuja unidade de tempo é dada em passos. Fica evidente o rastro de explosões de força que coordenamos para dar orientação e sentido a um movimento chamado “andar”.

Somos virtualmente incapazes de realizar um trabalho constante por um longo período de tempo, sem intermitência ou intervalo, pois a energia mobilizada por nós se esvai rapidamente e a bateria precisa ser recarregada. Assim pulsamos em ritmos variados, em ciclos de fatiga e descanso, carga e descarga, ação e inação, durante uma atividade física, durante o dia, o ano, durante uma vida.

Os grandes músculos superficiais estão aptos a mobilizar prontamente grande quantidade de força, mediante a cobrança de uma conta alta de energia, e precisam ser ciclicamente desligados para que possam se recuperar do esforço. Assim não conseguimos mantê-los em uso contínuo por muito tempo. Rentes à pele e facilmente observados, estes músculos inserem-se perto das articulações e são responsáveis pela considerável amplitude de movimento que dispomos, porém não oferecem grande precisão de movimento. É como tentar escrever com um lápis atado a uma vara de pesca: quanto mais distante do lápis estamos, menos preciso é nosso traço e maior é a linha que conseguimos traçar com ele.

Para nos mantermos em determinada posição por muito tempo, fazemos uso da musculatura profunda do corpo. Capaz de nos manter estáveis por longos períodos de tempo, estes músculos estabilizam nossas articulações e fazem a sintonia fina em nossa postura para que possamos nos movimentar com liberdade e segurança. Com fibras curtas e potentes, os músculos profundos não primam pela amplitude de movimento, mas pelo ajuste preciso das ações. Quando estamos sentados, por exemplo, a musculatura profunda da coluna empilha com precisão cada uma de nossas vértebras para equilibrá-las de forma eficiente e nos manter estáveis por muito mais tempo.

Quando a musculatura profunda do corpo está atrofiada, manda a fatura para os grandes grupos musculares que, incapazes de responder com a precisão e permanência adequadas a este tipo de estímulo, sobrecarregam as articulações e abrem as portas para um sem número de patologias articulares que irão afetar principalmente a coluna, os joelhos e os ombros.

Durante a realização de posturas de Yoga ou determinadas séries de Pilates, paramos no tempo e adentramos em nosso corpo para trabalhar sua musculatura profunda. A permanência em um ásana de Yoga como Padangustha Dandasana (foto abaixo), por exemplo, além do trabalho óbvio nos grandes grupos musculares posteriores da coxa, leva-nos a uma viagem em direção aos movimentos de extensão e flexão da coluna que raramente encontramos em outra atividade física. Conectar nossa consciência a estas regiões terá reflexos imediatos em nossa postura global.

 null Padangustha Dandasana alonga os músculos interespinhais , transverso
espinhal e subocciptais promovendo o alongamento longitudinal da coluna
antes da flexão
.

Adquirimos com o tempo de prática uma inteligência neuromotor que se expandirá a outras atividades em nosso cotidiano.

Estamos em constante movimento e pulsamos como pulsa nosso coração, nossa respiração e tudo aquilo que entendemos por movimento resume-se em essência a instantâneos conectados em linha que oferecem a idéia de tempo e movimento. A prática de atividades como Yoga e Pilates têm o poder de nos mostrar em detalhes cada um destes fragmentos de movimento e reconduzir cada estímulo ao seu devido lugar.

“Tempo é o desenrolar do meu corpo no espaço”. Ivaldo Bertazzo

O Mantra de Pilates

29 set

“Contraia o abdome”! A frase que soa feito um mantra nas aulas de Pilates pode ser muito mal interpretada. A força na musculatura abdominal é fundamental nos treinos de musculação, seções de fisioterapia e em várias atividades físicas para estabilizar a espinha. Acionados corretamente, os abdominais irão aumentar a integração do core, sustentar a espinha e dar liberdade de movimento ao corpo. O significado de “contraia o abdome” difere de frases como “sugue o abdome” ou “afunde o abdome” tão ouvidas em aulas de localizada e em outros cenários fitness. Em Pilates procura-se criar força e equilíbrio para estabilizar o movimento. Esse alicerce é criado requisitando músculos do assoalho pélvico e musculatura profunda do abdome, integrando-os eficientemente ao corpo todo.

Pilates coloca ênfase no trabalho da musculatura profunda do abdome, como o transverso e os músculos do assoalho pélvico. Esses músculos podem ser fracos mesmo em praticantes vorazes de abdominais, que focam na musculatura superficial do abdome, como o famoso reto-abdominal, intensificando o desequilíbrio no corpo.

Imagens como “puxe seu umbigo em direção à espinha” ou “finja que você levou um soco no estômago” são freqüentemente usadas para encorajar uma contração profunda da musculatura abdominal. Essas instruções costumam ser mal interpretadas, pois colocam ênfase na região da cintura e podem aumentar o desequilíbrio da flexão do tronco sobre a região pélvica. A mecânica do movimento não está em estabilizar o core a partir do umbigo, mas em engajar os músculos do assoalho pélvico para um movimento estável.

O trabalho da musculatura do assoalho pélvico não é indicado apenas para mulheres em trabalho de parto. O envolvimento desta musculatura é crítica para estabilidade dos movimentos de qualquer pessoa. O praticante deve sentir que seu assoalho pélvico está sendo puxado para cima e para o centro. Pode-se imaginar que os ísquios estejam sendo puxados ao mesmo tempo. Esse exercício é similar aos propostos por Kegel, a diferença está na intensidade. Em Kegels uma pessoa está totalmente focada no assoalho pélvico e puxá-lo para cima pode ser mais intenso e o tempo de permanência pode ser maior do que em exercícios que envolvem o corpo todo.

Depois de engajar corretamente o assoalho pélvico, a contração deve começar imediatamente acima do osso púbico, no baixo abdome. Deste ponto, a contração sobe em direção às costelas, alongando o abdomem e aproximando o umbigo da espinha. Este movimento não é tão óbvio e seqüencial quanto parece, mas a consciência “base-topo” é a melhor maneira de realizar o movimento correto. Isso envolve a musculatura lateral do abdome, da crista-ilíaca em direção às costelas flutuantes.

A contração abdominal é geralmente executada com uma espinha neutra. Isso significa que a prática não deve levar a flexões, rotações ou hiper-extensões indesejadas da coluna. Como nos exercícios abdominais, é essencial manter as costas alongadas à medida que os músculos da frente são requisitados. A prática de Pilates exige flexões e rotações da lombar, mas estas ações atendem a propósitos específicos. A intenção inicial deve ser sempre preservar a curva natural das costas.

“Se eu contraio o abdome como eu respiro”? É uma pergunta bastante freqüente. Normalmente usamos uma pequena parte de nossa capacidade respiratória e tendemos a mobilizar a parte da frente do abdome para realizá-la. Em Pilates usa-se a respiração para expandir as laterais e as costas. Realizar o movimento com essa consciência aumenta muito o espaço para respirar e ajuda a abrir e alongar o corpo.

Em Pilates, assim como em outros sistemas, a contração abdominal pode ser usada como uma ferramenta de treinamento. Músculos abdominais fortes organizam melhor qualquer movimento, atlético ou cotidiano. Isso não quer dizer que sua musculatura abdominal deve ser acionada o tempo todo. A idéia é que os músculos do core tornem-se mais fortes e ágeis para responder com eficiência “quando” forem solicitados. Você não precisa andar com a musculatura do abdome contraída o dia todo.

A contração dos músculos abdominais é uma pequena parte do desenvolvimento da força e dos movimentos em Pilates. Deve-se olhar para o corpo, para a respiração e a ampliação da consciência corporal para usufruir de todos os benefícios do sistema.