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A Janela do Porão.

28 jan

Foto de Danielle Tunstall. Sem título.

“Cinco janelas na alma se abrem

Do início ao fim os Céus distorcem,

E levam você à grande burla

De que enxerga com e não através delas

De que nasceu numa noite e irá perecer na escuridão

Enquanto a alma descansa em um imenso clarão”

The Everlasting Gospel de William Blake

Abaixo da pele, os estímulos sensoriais são difusos, sua localização ambígua, a intensidade fraca. Sob a derme mergulhamos em uma região de muitas sombras e pouca luz.

O interior do corpo é parcialmente velado à percepção porque os receptores sensoriais encontrados dentro de nós são inferiores em número e variedade aos localizados na superfície. O repertório de respostas obtido de nossos órgãos, portanto, é mais limitado. Assim, somos capazes de discriminar com precisão milimétrica a distância entre dois pontos com os dedos das mãos, mas dificilmente distinguimos uma cólica renal de uma lombalgia.

Escrita em Braille

Podemos sentir o pulso sanguíneo irrigando os tecidos, o movimento visceral, a pressão intracraniana. A introspecção mostra que a escuridão dentro de nosso corpo não é absoluta, mas essa ausculta demanda concentração e treino. O organismo não se revela de imediato e, em regra, somos incapazes de distinguir órgãos, tecidos ou sistemas.

“Diferenças culturais demonstram que certos níveis de apatia visceral podem estar associados à insensibilidade ocidental, podendo ser superados através de um esforço sistemático nessa direção. A consciência e o controle sobre o próprio corpo exibidos por yogis treinados em muito supera o que se considerava possível no ocidente”. Drew Leder

É irônico que o corpo, a base de toda experiência, a origem da referência espacial, o centro das coordenadas, escape à nossa apreensão imediata. Permanecemos invisíveis a nós mesmos até o momento em que os sentidos colidam com as superfícies, entrem em choque com a luz, sofram o impacto de sons, aromas e sabores. Construiremos, no ato da concussão, nossa imagem de fora para dentro.  Serão as interações com o meio que irão configurar o espaço do ser vivente.

Desta maneira, o corpo se faz conhecer do visível, do palpável, das camadas mais superficiais, ricamente enervadas, às mais profundas. Antes de tudo, são os dados colhidos em resposta às nossas ações que irão construir o conhecimento que temos a respeito de nós mesmos.

Não por acaso Nietzche chama o corpo de “Herrschaftsgebilde”, ou criação da vontade dominante (apud Schilder).  Como expressão de nossa vontade, mudamos continuamente nossa forma no espaço. O espaço, em resposta, irá revelar quem somos.

Preparatório para Eka Pada Rajakapotasana II

O fim abrupto no fluxo das sensações exaspera-nos.  A consciência sobre nós mesmos provém da continuidade desse curso. Buscamos no movimento, no contato, na impressão, o real significado das coisas.  O real significado de quem somos.

“Nós continuamente ampliamos a moldura da mente a partir da tela do corpo. É como se, ao alongar, criássemos uma tela maior para nossa pintura”. BKS Iyengar

Fogo no Circo

7 nov

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”

O espelho, Machado de Assis, 1882.

Nascemos plenos, coesos, indissociáveis. O corpo é a materialização de nossas emoções, o adensamento da sensibilidade em torno do tubo neural, a expressão da vontade no espaço, a confirmação, a cada instante, de nossa herança genética e social.  O corpo realiza nossa existência no mundo.

Somos unos, forma e conteúdo, até sermos apresentados à maior de todas as ficções: o espelho.

Reconhecer a própria imagem no espelho exige a construção de um clone, um alheio que se evade ao apagar das luzes.  A criação da imagem corporal edificada de fora para dentro irá inseminar a farsa do sujeito separado do próprio corpo.

O sujeito atrás do espelho apresenta nossa incrível capacidade de manipulação. O corpo se torna passivo de controle e submissão, uma propriedade à disposição.

A imagem refletida do corpo irá coexistir com outras partes do mesmo quebra-cabeça e compor a idéia de totalidade fora de mim.  Tomar a cópia pelo original, porém, exige certo viés psicótico.

Nossa procura pela harmonia das formas, pela pureza das composições, pela ordem das coisas, pela homogeneidade, encontra apenas no delírio da abstração seu possível habitat. A busca pelo ideal sobrepõe imagem ao real e reduz-nos a meros fantasmas de nós mesmos. Ganhamos, assim, o salvo-conduto para ingressar no picadeiro.

Cenas do filme Olympia de Leni Riefenstahl (1938)

A realidade não se encontra na estabilidade fictícia do equilíbrio, mas no caos da multiplicidade.

“Quanto mais maneiras possuímos de fazer o que sabemos, maior a liberdade de escolha. E quanto maior a liberdade de escolha, maior será a capacidade humana. “  Moshe Feldenkrais.

Tudo aquilo que se encontra ancorado no tempo e no espaço tem no corpo seu ponto de referência.  Longe de ser um ponto fixo, porém, o corpo integra e decompõe, irrompe e desaparece, interpenetra, participa da realidade e oferece uma perspectiva pluridimencional  da vida, muito diferente do espetáculo  despojado oferecido pelo espelho diante de nossos olhos.

Reintegrar corpo e mente significa abandonar o corpo enquanto posse, desistir do espetáculo, optar pela intangibilidade do real ao simulacro do ideal. Buscar a ética na raiz da estética.

Coreografia da Pedra

1 out

Capa da revista A1, por Dave Mckean

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento. Não há carne nem alma;

Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe,

Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível,

Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso,

Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo,

Não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável,  resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Kazuo Ohno – The Written Face

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.

Atlas Anatômico de um Zumbi

24 ago

Zumbis à procura de cérebros no filme “The Return of the Living Death” (1985)

“Penso, logo existo”. O que surpreende na conhecida afirmação de René Descartes, publicada em 1637, é que a razão pela qual existimos não é o corpo, mas a mente.  Assim, Descartes cavou uma vala entre o corpo e a mente que permanece aberta até hoje em nossas reflexões sobre como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos.  A noção cartesiana de que existe algo dentro de nós, que pensa e independe do corpo, sedimenta a idéia de consciência separada do corpo que dispomos hoje.

O homem e seu espírito -illustração de  Folon (Le Livre de Sante- v.9 -1967) 900

A reflexão contemporânea não foi muito além de colocar o “cérebro” no lugar da “coisa pensante” cartesiana. Entendemos nossa dinâmica com o meio a partir de que algo existe a priori em nosso sistema nervoso e é colocado “para fora” através do corpo.


Enquanto aguarda um corpo, o cérebro de Morbius é mantido vivo em episódio de Doctor Who.

Não há, porém, como a consciência ser puramente um fenômeno neural e ter no cérebro a sua única morada. Graças à subjetividade sensório-motora, uma pessoa imediatamente percebe-se em contato direto, efetivo e íntimo com seus movimentos e reconhece ininterruptamente as condições gerais de seu próprio organismo.  O corpo, dentro de sua dinâmica, informa-nos a respeito do mundo e serve de estrutura espacial para a formação da experiência consciente a partir de um ponto-de-vista único e vantajoso: “eu”.

Uma vez que a experiência da consciência é estruturada pela dinâmica do corpo em sua interação sensorial com o meio, a consciência não pode ser algo que acontece exclusivamente em nosso cérebro, mas algo que existe pelo engajamento do corpo no mundo.  É óbvio que devido à nossa organização física não podemos enxergar sequer o que está atrás de nossas próprias costas, quanto mais olhar para os confins do universo em busca de nossas origens ou procurar dentro do átomo o elemento primordial da matéria. Mas sendo a experiência da consciência uma função determinada pela relação do corpo com o ambiente, o corpo é condição de inteligibilidade do mundo, ou seja, o ponto-de-partida de nossas expedições rumo ao desconhecido.

A distribuição dos elétrons de um átomo de Vanadium no plano cartesiano determina a forma como vemos a nuvem de elétrons em torno do núcleo.

Mudanças significativas em nossos sistemas vitais, órgãos e processos produzem mudanças correspondentes em nossa experiência, que podem ou não envolver o cérebro e o sistema nervoso. O mau funcionamento da tireóide, um desequilíbrio hormonal, uma descarga de adrenalina, promovem grandes mudanças em nossas emoções, afetando nossa experiência. Não devemos assim inflacionar a responsabilidade do cérebro e do sistema nervoso no estabelecimento de nossas emoções sob o risco de subestimar ou negligenciar o poder causal do corpo como um todo. Por último, na ausência de qualquer um de nossos sistemas vitais, órgãos ou processos metabólicos, o corpo, como um todo, é destruído. É neste preciso momento em que a consciência cessa. Assim a existência da consciência exige um corpo “inteiro” para existir.

Postura Urdhva Dhanurasa em corpo que sofreu processo de plastinação na exibição  Body Words III de Gunther von Hagens.

Pensamos na consciência como algo que acontece dentro da gente, como a digestão, quando deveríamos entender a consciência como algo que fazemos, como uma dança compartilhada com todos e com tudo o que existe. E se a consciência depende de um corpo inteiro para existir, ela está sujeita às mesmas leis da física do sistema que a contém, como gravidade, o peso, a aceleração, etc, e todas as limitações físicas que este sistema encerra em si, como  seu estado saúde, restrições físicas e motoras.

Primeira série Ashtanga Vinyasana Yoga

O lugar da consciência é a dinâmica da vida como um todo. Aliás, apenas quando nós levamos em consideração esta perspectiva holística é que a contribuição do cérebro e do sistema nervoso faz sentido. Vida mental é, antes de qualquer coisa, vida e, para tanto, é essencialmente corpo em dinâmica com o meio. Não é possível entender um sem o outro.

Natal em Auschwitz

7 dez

A não ser por uma fina camada de pele que nos dá forma no espaço, somos rigorosamente iguais, não importa de onde viemos ou o que fazemos. Logo abaixo da pele, a maneira como se constituem tecidos e fluídos do corpo é rigorosamente a mesma em todos nós. Tamanha é a semelhança que podemos inferir com tranqüilidade o conhecimento extraído de um único corpo, dissecado sobre a mesa fria de inox, para toda a humanidade estendida sobre a face da Terra. Uma camada de células epiteliais apenas dá forma ao que chamamos de “eu” e por derivação imprópria, distingue-nos do “outro”. Tomar a forma pelo conteúdo e imaginar-se especial dentre seus pares é parte de um equívoco congênito, condição da qual um deve procurar libertar-se.

Trata-se sempre da mesma coluna axial que abriga um sistema nervoso e sustenta uma estrutura radial, as costelas, onde se prendem as diversas unidades de manutenção da vida. Somos nós peixes, anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos, estruturalmente iguais e com algumas adaptações arquitetônicas para atender às exigências do habitat onde vivemos. Cada qual mestre em sua ordem e plenamente consciente de seu meio, compartilhamos todos o mesmo anseio pela vida e igual imperativo de liberdade, sem a qual a vida não se realiza.

evolution

Les stades du developpment de l’embryon, illus. J. Alessandrini

São sempre os mesmos átomos, organizados e reorganizados ao fim de cada momento, de cada ciclo, da vida. Somos nós minério. Não há necessidade de mística superior que exemplifique aquilo que a tabela periódica esgota. É preciso, sim, muita honestidade para tirar os olhos do céu e encontrar sob nossos pés o mesmo carbono, nitrogênio, enxofre, fósforo, oxigênio e hidrogênio que nos constitui. Compreender, de uma vez por todas, que somos iguais e participamos do mesmo conjunto de elementos é a epifania possível – e não é pouco-, tudo o mais é ilusão, é ‘maya’.

A fixação privilegiada no próprio “eu”, das representações e dos sentimentos pessoais a ponto de perder, em maior ou menor grau, a relação com o mundo exterior explica a apatia frente à dor alheia, o autismo de quem encontra na auto-satisfação o motivo para viver, a estupidez diante do colapso da vida.

“(…) no seu comportamento em relação aos animais todos os homens são nazistas. A presunção de que o homem pode fazer com outras espécies o que delas quiser exemplifica as teorias racistas mais extremistas”. Isaac Bashevis Singer

A indiferença perante a vivisseção animal para consumo (*) torna o homem insensível em absoluto e não há porque cobrar-lhe compaixão. A miopia diante da barbárie torna o homem completamente cego e não há porque exigir-lhe discernimento. A violência incapacita o homem para viver em harmonia com o meio, extirpa-lhe a humanidade e o torna órfão do mundo em que vive. Afasta-o do Yoga no sentido mais amplo do termo.

O Natal é a época do ano em que mais se mata animais. Comemorar a vida, o nascimento, com a morte é o auge da ignomínia humana.

A Gravidade da Alma

1 fev

Não há espaço vago dentro do corpo e mudanças em sua superfície, até mesmo as mais sutis, levam a uma reorganização de tudo aquilo que se abriga sob a pele, nos mais diversos níveis. Do deslocamento de algumas camadas de células epidérmicas a alterações no espaço ocupado por um órgão, somos bastante sensíveis às forças que incidem sobre nós. A partir dos estímulos que recebemos da vida, começamos a esboçar o espaço que ocupamos no mundo.

A pele delimita uma área no espaço que chamamos de “eu” e estabelece um diálogo privilegiado com a vida fora do corpo. Essa conexão entre o lado de dentro e o de fora determina a maneira como nos inserimos e participamos do mundo. Retiramos assim da realidade externa a matéria-prima que nos dará forma e conteúdo.

Tocamos com as mãos um objeto qualquer e passamos imediatamente a obter informações sobre a temperatura, a textura e a localização do objeto em relação a nós. A pressão dos dedos sobre a superfície leva a alterações na pele que estimulam terminações nervosas a nos prestar informações sobre nossa força, nossa capacidade de mover ou parar objetos, nossa capacidade de exercer influência e sermos influenciados pelo mundo externo. Tateando, sentimos se nossas interações são amistosas ou não e, aos poucos, construímos nossa identidade, descobrimos nossos limites e estabelecemos nossos papéis sociais.

A partir das forças que incidem sobre nosso corpo, e que têm na gravidade seu principal vetor, nossos músculos e ossos abrem espaço e arquitetam este abrigo, o corpo.

No decorrer desta construção, a excessiva rigidez do corpo surge como resposta instintiva às agressões do meio. Acuado, um animal rapidamente mobiliza a musculatura estriada (voluntária) para se defender ou atacar. Com o tempo, tornamo-nos tão hábeis em tonificar, enrijecer, fortalecer e compactar que a simples menção ao relaxamento nos traz ansiedade. Em permanente estado de vigília, não conseguimos mais descansar. Sentimos o medo da entrega.

Do outro lado deste espectro, a indolência abate-se sobre o corpo fraco, levado à exaustão pelo excesso de estímulos ou pela carência de respostas do meio. Com todas as necessidades satisfeitas, hibernamos apáticos. Na ausência de respostas às nossas questões, desistimos de perguntar. Na falta ou na fartura, enraízam-se o desânimo apriori, a ociosidade, a desistência premeditada, a inação e, por fim, a pulsão por solidão como forma de assegurar um espaço mínimo à existência do corpo.

Assim, conquistar o espaço do corpo significa tomar consciência das forças que determinam nossa natureza e das respostas que oferecemos ao mundo de modo a nos mantermos afastados de uma vida mórbida e alienada.

A rigidez garante a sustentação do corpo, como eixo capaz de possibilitar ao nosso organismo existir. A flexibilidade estrutural permite o movimento na busca pela sobrevivência. É o equilíbrio entre força e flexibilidade que tornará possível uma vida saudável e consciente.

As forças que resistem às pressões externas não devem impor limites à expressão do corpo, mas prover sustentação e equilíbrio para uma manifestação plena e livre de condicionamentos. Ceder, por sua vez, não significa abrir mão do próprio espaço, mas outorgar ao outro o nosso reconhecimento a seu direito de existência contígua, no mesmo plano em que se encontram todos e tudo aquilo que podemos tatear com nossos sentidos.

Em equilíbrio as forças se anulam e no lugar onde havia oscilações e desvios, passa a vigorar a estabilidade. Só então podemos observar com discernimento e liberdade, o movimento da vida .

Uma Pedra no Caminho.

26 out

Mais de 200 articulações evoluíram no mínimo 100mil anos e adaptaram-se das savanas africanas às montanhas do Himalaia, do calor do equador ao gelo dos pólos e colonizaram o mundo, tudo isso para terminarmos presos a uma baia de escritório, movimentando-nos do trabalho para a garagem, da garagem para casa, de casa para a garagem e de volta para o trabalho. Ainda vivos, submetemos com naturalidade nosso corpo à rotina de um moribundo terminal. Obviamente adoecemos.

A dor eclode em nossas vidas como um incômodo obstáculo interposto em nossa história que deve ser rapidamente suplantado a fim de podermos continuar fazendo o que queremos da maneira que escolhemos.

A dor, como a pedra de Drummond, nos obriga a parar e observar – duas coisas que estamos desabituados a fazer. “No meio do caminho tinha uma pedra”. Mais fácil é chutar a bendita e continuar andando, afinal, se há algo que conseguimos fazer com maestria é chutar. Resolvemos com demora e dificuldade nossos problemas, mas procrastinamos com a habilidade de um craque.

Não vemos a dor como resultado de um processo; mais acostumados estamos a entendê-la como um acidente de percurso. Tentamos retardá-la, sublimá-la, desqualificá-la e subjugá-la de todas as maneiras que encontramos. Topamos qualquer parada: de remédios a terapias miraculosas. Pagamos alto e exigimos resultados imediatos. Não nos importamos em submeter nosso corpo às penas previstas nas contra-indicações das bulas, desde que não precisemos mudar uma linha em nosso diário.

Atados à baia, ficamos doentes, doentes ficamos improdutivos e improdutivos tornamo-nos desqualificados para o trabalho. Sinuca de bico. Melhor é empurrar tudo para baixo do tapete. E quando não houver mais tapete, já no consultório médico, somos solicitados a parar as já estagnadas articulações: Pare o que você está fazendo e usufrua do fantástico mundo dos analgésicos, anti-inflamatórios e miorrelaxantes. Saída mais rápida, simples e conveniente não há. Difícil é encarar as coisas de frente e sair da zona de conforto.

Culturas que guardam bons hábitos posturais geralmente envolvem grande variedade e diversidade de movimentos em seu cotidiano: Sentam-se no chão, correm, carregam peso de variadas formas e andam muito. As mulheres Xhosa de Transkei (leste da África do Sul), por exemplo, saem de casa bem cedo e vão para o trabalho dançando pelos campos.

Se a dor é um sinal, o resultado de um processo como dissemos, não deve ser entendida como causa de sofrimento, mas forte aliada pela busca de uma solução, ainda que esta solução nos pareça tão impraticável quanto dançar pelas ruas nas manhãs de segunda-feira.

Conquistar a capacidade de observar a dor, sem se deixar governar por ela, é encontrar a suma liberdade. Freqüentemente trocamos os grilhões da dor pela dos remédios, das ideologias, das terapias e até, de forma enviesada, dos exercícios físicos. Frente à dor é preciso serenidade não ansiedade. É preciso observação e não identificação.