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Atlas Anatômico de um Zumbi

24 ago

Zumbis à procura de cérebros no filme “The Return of the Living Death” (1985)

“Penso, logo existo”. O que surpreende na conhecida afirmação de René Descartes, publicada em 1637, é que a razão pela qual existimos não é o corpo, mas a mente.  Assim, Descartes cavou uma vala entre o corpo e a mente que permanece aberta até hoje em nossas reflexões sobre como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos.  A noção cartesiana de que existe algo dentro de nós, que pensa e independe do corpo, sedimenta a idéia de consciência separada do corpo que dispomos hoje.

O homem e seu espírito -illustração de  Folon (Le Livre de Sante- v.9 -1967) 900

A reflexão contemporânea não foi muito além de colocar o “cérebro” no lugar da “coisa pensante” cartesiana. Entendemos nossa dinâmica com o meio a partir de que algo existe a priori em nosso sistema nervoso e é colocado “para fora” através do corpo.


Enquanto aguarda um corpo, o cérebro de Morbius é mantido vivo em episódio de Doctor Who.

Não há, porém, como a consciência ser puramente um fenômeno neural e ter no cérebro a sua única morada. Graças à subjetividade sensório-motora, uma pessoa imediatamente percebe-se em contato direto, efetivo e íntimo com seus movimentos e reconhece ininterruptamente as condições gerais de seu próprio organismo.  O corpo, dentro de sua dinâmica, informa-nos a respeito do mundo e serve de estrutura espacial para a formação da experiência consciente a partir de um ponto-de-vista único e vantajoso: “eu”.

Uma vez que a experiência da consciência é estruturada pela dinâmica do corpo em sua interação sensorial com o meio, a consciência não pode ser algo que acontece exclusivamente em nosso cérebro, mas algo que existe pelo engajamento do corpo no mundo.  É óbvio que devido à nossa organização física não podemos enxergar sequer o que está atrás de nossas próprias costas, quanto mais olhar para os confins do universo em busca de nossas origens ou procurar dentro do átomo o elemento primordial da matéria. Mas sendo a experiência da consciência uma função determinada pela relação do corpo com o ambiente, o corpo é condição de inteligibilidade do mundo, ou seja, o ponto-de-partida de nossas expedições rumo ao desconhecido.

A distribuição dos elétrons de um átomo de Vanadium no plano cartesiano determina a forma como vemos a nuvem de elétrons em torno do núcleo.

Mudanças significativas em nossos sistemas vitais, órgãos e processos produzem mudanças correspondentes em nossa experiência, que podem ou não envolver o cérebro e o sistema nervoso. O mau funcionamento da tireóide, um desequilíbrio hormonal, uma descarga de adrenalina, promovem grandes mudanças em nossas emoções, afetando nossa experiência. Não devemos assim inflacionar a responsabilidade do cérebro e do sistema nervoso no estabelecimento de nossas emoções sob o risco de subestimar ou negligenciar o poder causal do corpo como um todo. Por último, na ausência de qualquer um de nossos sistemas vitais, órgãos ou processos metabólicos, o corpo, como um todo, é destruído. É neste preciso momento em que a consciência cessa. Assim a existência da consciência exige um corpo “inteiro” para existir.

Postura Urdhva Dhanurasa em corpo que sofreu processo de plastinação na exibição  Body Words III de Gunther von Hagens.

Pensamos na consciência como algo que acontece dentro da gente, como a digestão, quando deveríamos entender a consciência como algo que fazemos, como uma dança compartilhada com todos e com tudo o que existe. E se a consciência depende de um corpo inteiro para existir, ela está sujeita às mesmas leis da física do sistema que a contém, como gravidade, o peso, a aceleração, etc, e todas as limitações físicas que este sistema encerra em si, como  seu estado saúde, restrições físicas e motoras.

Primeira série Ashtanga Vinyasana Yoga

O lugar da consciência é a dinâmica da vida como um todo. Aliás, apenas quando nós levamos em consideração esta perspectiva holística é que a contribuição do cérebro e do sistema nervoso faz sentido. Vida mental é, antes de qualquer coisa, vida e, para tanto, é essencialmente corpo em dinâmica com o meio. Não é possível entender um sem o outro.

Natal em Auschwitz

7 dez

A não ser por uma fina camada de pele que nos dá forma no espaço, somos rigorosamente iguais, não importa de onde viemos ou o que fazemos. Logo abaixo da pele, a maneira como se constituem tecidos e fluídos do corpo é rigorosamente a mesma em todos nós. Tamanha é a semelhança que podemos inferir com tranqüilidade o conhecimento extraído de um único corpo, dissecado sobre a mesa fria de inox, para toda a humanidade estendida sobre a face da Terra. Uma camada de células epiteliais apenas dá forma ao que chamamos de “eu” e por derivação imprópria, distingue-nos do “outro”. Tomar a forma pelo conteúdo e imaginar-se especial dentre seus pares é parte de um equívoco congênito, condição da qual um deve procurar libertar-se.

Trata-se sempre da mesma coluna axial que abriga um sistema nervoso e sustenta uma estrutura radial, as costelas, onde se prendem as diversas unidades de manutenção da vida. Somos nós peixes, anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos, estruturalmente iguais e com algumas adaptações arquitetônicas para atender às exigências do habitat onde vivemos. Cada qual mestre em sua ordem e plenamente consciente de seu meio, compartilhamos todos o mesmo anseio pela vida e igual imperativo de liberdade, sem a qual a vida não se realiza.

evolution

Les stades du developpment de l’embryon, illus. J. Alessandrini

São sempre os mesmos átomos, organizados e reorganizados ao fim de cada momento, de cada ciclo, da vida. Somos nós minério. Não há necessidade de mística superior que exemplifique aquilo que a tabela periódica esgota. É preciso, sim, muita honestidade para tirar os olhos do céu e encontrar sob nossos pés o mesmo carbono, nitrogênio, enxofre, fósforo, oxigênio e hidrogênio que nos constitui. Compreender, de uma vez por todas, que somos iguais e participamos do mesmo conjunto de elementos é a epifania possível – e não é pouco-, tudo o mais é ilusão, é ‘maya’.

A fixação privilegiada no próprio “eu”, das representações e dos sentimentos pessoais a ponto de perder, em maior ou menor grau, a relação com o mundo exterior explica a apatia frente à dor alheia, o autismo de quem encontra na auto-satisfação o motivo para viver, a estupidez diante do colapso da vida.

“(…) no seu comportamento em relação aos animais todos os homens são nazistas. A presunção de que o homem pode fazer com outras espécies o que delas quiser exemplifica as teorias racistas mais extremistas”. Isaac Bashevis Singer

A indiferença perante a vivisseção animal para consumo (*) torna o homem insensível em absoluto e não há porque cobrar-lhe compaixão. A miopia diante da barbárie torna o homem completamente cego e não há porque exigir-lhe discernimento. A violência incapacita o homem para viver em harmonia com o meio, extirpa-lhe a humanidade e o torna órfão do mundo em que vive. Afasta-o do Yoga no sentido mais amplo do termo.

O Natal é a época do ano em que mais se mata animais. Comemorar a vida, o nascimento, com a morte é o auge da ignomínia humana.

A Gravidade da Alma

1 fev

Não há espaço vago dentro do corpo e mudanças em sua superfície, até mesmo as mais sutis, levam a uma reorganização de tudo aquilo que se abriga sob a pele, nos mais diversos níveis. Do deslocamento de algumas camadas de células epidérmicas a alterações no espaço ocupado por um órgão, somos bastante sensíveis às forças que incidem sobre nós. A partir dos estímulos que recebemos da vida, começamos a esboçar o espaço que ocupamos no mundo.

A pele delimita uma área no espaço que chamamos de “eu” e estabelece um diálogo privilegiado com a vida fora do corpo. Essa conexão entre o lado de dentro e o de fora determina a maneira como nos inserimos e participamos do mundo. Retiramos assim da realidade externa a matéria-prima que nos dará forma e conteúdo.

Tocamos com as mãos um objeto qualquer e passamos imediatamente a obter informações sobre a temperatura, a textura e a localização do objeto em relação a nós. A pressão dos dedos sobre a superfície leva a alterações na pele que estimulam terminações nervosas a nos prestar informações sobre nossa força, nossa capacidade de mover ou parar objetos, nossa capacidade de exercer influência e sermos influenciados pelo mundo externo. Tateando, sentimos se nossas interações são amistosas ou não e, aos poucos, construímos nossa identidade, descobrimos nossos limites e estabelecemos nossos papéis sociais.

A partir das forças que incidem sobre nosso corpo, e que têm na gravidade seu principal vetor, nossos músculos e ossos abrem espaço e arquitetam este abrigo, o corpo.

No decorrer desta construção, a excessiva rigidez do corpo surge como resposta instintiva às agressões do meio. Acuado, um animal rapidamente mobiliza a musculatura estriada (voluntária) para se defender ou atacar. Com o tempo, tornamo-nos tão hábeis em tonificar, enrijecer, fortalecer e compactar que a simples menção ao relaxamento nos traz ansiedade. Em permanente estado de vigília, não conseguimos mais descansar. Sentimos o medo da entrega.

Do outro lado deste espectro, a indolência abate-se sobre o corpo fraco, levado à exaustão pelo excesso de estímulos ou pela carência de respostas do meio. Com todas as necessidades satisfeitas, hibernamos apáticos. Na ausência de respostas às nossas questões, desistimos de perguntar. Na falta ou na fartura, enraízam-se o desânimo apriori, a ociosidade, a desistência premeditada, a inação e, por fim, a pulsão por solidão como forma de assegurar um espaço mínimo à existência do corpo.

Assim, conquistar o espaço do corpo significa tomar consciência das forças que determinam nossa natureza e das respostas que oferecemos ao mundo de modo a nos mantermos afastados de uma vida mórbida e alienada.

A rigidez garante a sustentação do corpo, como eixo capaz de possibilitar ao nosso organismo existir. A flexibilidade estrutural permite o movimento na busca pela sobrevivência. É o equilíbrio entre força e flexibilidade que tornará possível uma vida saudável e consciente.

As forças que resistem às pressões externas não devem impor limites à expressão do corpo, mas prover sustentação e equilíbrio para uma manifestação plena e livre de condicionamentos. Ceder, por sua vez, não significa abrir mão do próprio espaço, mas outorgar ao outro o nosso reconhecimento a seu direito de existência contígua, no mesmo plano em que se encontram todos e tudo aquilo que podemos tatear com nossos sentidos.

Em equilíbrio as forças se anulam e no lugar onde havia oscilações e desvios, passa a vigorar a estabilidade. Só então podemos observar com discernimento e liberdade, o movimento da vida .

Uma Pedra no Caminho.

26 out

Mais de 200 articulações evoluíram no mínimo 100mil anos e adaptaram-se das savanas africanas às montanhas do Himalaia, do calor do equador ao gelo dos pólos e colonizaram o mundo, tudo isso para terminarmos presos a uma baia de escritório, movimentando-nos do trabalho para a garagem, da garagem para casa, de casa para a garagem e de volta para o trabalho. Ainda vivos, submetemos com naturalidade nosso corpo à rotina de um moribundo terminal. Obviamente adoecemos.

A dor eclode em nossas vidas como um incômodo obstáculo interposto em nossa história que deve ser rapidamente suplantado a fim de podermos continuar fazendo o que queremos da maneira que escolhemos.

A dor, como a pedra de Drummond, nos obriga a parar e observar – duas coisas que estamos desabituados a fazer. “No meio do caminho tinha uma pedra”. Mais fácil é chutar a bendita e continuar andando, afinal, se há algo que conseguimos fazer com maestria é chutar. Resolvemos com demora e dificuldade nossos problemas, mas procrastinamos com a habilidade de um craque.

Não vemos a dor como resultado de um processo; mais acostumados estamos a entendê-la como um acidente de percurso. Tentamos retardá-la, sublimá-la, desqualificá-la e subjugá-la de todas as maneiras que encontramos. Topamos qualquer parada: de remédios a terapias miraculosas. Pagamos alto e exigimos resultados imediatos. Não nos importamos em submeter nosso corpo às penas previstas nas contra-indicações das bulas, desde que não precisemos mudar uma linha em nosso diário.

Atados à baia, ficamos doentes, doentes ficamos improdutivos e improdutivos tornamo-nos desqualificados para o trabalho. Sinuca de bico. Melhor é empurrar tudo para baixo do tapete. E quando não houver mais tapete, já no consultório médico, somos solicitados a parar as já estagnadas articulações: Pare o que você está fazendo e usufrua do fantástico mundo dos analgésicos, anti-inflamatórios e miorrelaxantes. Saída mais rápida, simples e conveniente não há. Difícil é encarar as coisas de frente e sair da zona de conforto.

Culturas que guardam bons hábitos posturais geralmente envolvem grande variedade e diversidade de movimentos em seu cotidiano: Sentam-se no chão, correm, carregam peso de variadas formas e andam muito. As mulheres Xhosa de Transkei (leste da África do Sul), por exemplo, saem de casa bem cedo e vão para o trabalho dançando pelos campos.

Se a dor é um sinal, o resultado de um processo como dissemos, não deve ser entendida como causa de sofrimento, mas forte aliada pela busca de uma solução, ainda que esta solução nos pareça tão impraticável quanto dançar pelas ruas nas manhãs de segunda-feira.

Conquistar a capacidade de observar a dor, sem se deixar governar por ela, é encontrar a suma liberdade. Freqüentemente trocamos os grilhões da dor pela dos remédios, das ideologias, das terapias e até, de forma enviesada, dos exercícios físicos. Frente à dor é preciso serenidade não ansiedade. É preciso observação e não identificação.

Caminho para Rtambhara.

12 out

Lugar de difícil acesso, fora dos mapas e conhecido por poucos. Impossível de ser abarcado por palavras, mas cuja existência é certa. Rtambhara oferece uma visão privilegiada a todos que lá chegaram e é o destino mais procurado por aqueles que se propõe a entender melhor suas próprias origens. De todos que lá estiveram nunca ninguém jamais esqueceu Rtambhara.

Chegando em Rtambhara tudo passa a ser compreendido. Não se trata de saberes comuns, da tradição e da inferência, não mais os saberes cognitivos da lógica e da dedução, mas um conhecimento que nasce naturalmente, como resultado do completo e absoluto estado de lucidez. Como descrito nos Yoga Sutras de Patanjali, em Rtambhara o saber intuitivo contém a verdade.

Podemos dizer com razoável segurança que os Yoga Sutras são uma compilação sobre um conhecimento que já era amplamente difundido no Oriente no momento de seu aparecimento e cujos conceitos podem ser observados em diversas tradições filosóficas como no Budismo, Taoismo ou Sufismo por exemplo. Datado do segundo século DC, os Sutras são o fio condutor que levam ao Yoga ou, resumidamente, à comunhão. Assim os Yoga Sutras delineam as práticas que devem ser realizadas, os obstáculos que serão encontrados, os resultados que serão obtidos por todos aqueles que se prontificam a seguir o caminho do Yoga. Ou seja, um verdadeiro mapa para quem busca encontrar-se consigo mesmo.

Este mapa versa sobre as condutas morais (yamas), individuais (nyamas), atividades físicas (ásanas) e técnicas respiratórios (pranayamas) que pavimentam o caminho para a autonomia dos sentidos (pratyahara), concentração (dharana), meditação (dhyana) e dissolução (samadhi). Notadamente, não há hierarquia entre estes pontos: à medida que um destes pontos (angas) se desenvolve, os outros também ganham peso. Entretanto apenas alguns destes pontos podem ser aprendidos.

Distante daquilo que se convencionou chamar de “aprendizagem” do lado de cá dos Urais, aprender significa vivenciar, experimentar, pois “uma imagem evocada por palavras, dissociada da experiência, é fantasia” (Yoga Sutra I.9). Você pode conhecer o significado de ahimsa, por exemplo, após ter lido muito e discorrer horas sobre o conceito de não-violência, citando Gandhi e tudo mais. Porém, se você não é capaz de por este yama em prática ou sequer entender a importância deste yama para a sua vida e a vida dos demais, não pode afirmar que o aprendeu.

Ásanas (posturas física) e pranayamas (práticas respiratórias) resumem o que há para ser ensinado e aprendido dentro do Yoga. A prática diligente de ásanas e pranayamas criam as condições para que os outros angas comecem a ganhar corpo e venham a se tornar valores importantes na vida do yogue. Nossa mente, ainda que inconstante e vaga, pode facilmente engajar-se na prática do ásana enquanto o corpo se move para ganhar alinhamento e estabilidade. Assim, alinha-se o corpo para centrar a mente e a mente, serena, está pronta para seu caminho em direção a Rtambhara.

B.K.S. Iyengar diz, “se alguém lhe ensinar a meditar, desconfie” e também afirma “yoga sem meditação é uma árvore sem frutos”. A aparente incoerência faz sentido quando entendemos que ásanas e pranayamas criam as condições para que se possa manter a concentração e o foco na meditação e começar a trilhar um caminho que é único no universo, pessoal e intransferível.

Ter comprometimento e disciplina para continuar andando em direção a Rtambhara faz parte da prática do yogue. Caminha-se nesta direção naturalmente, mesmo desconhecendo o mapa, sem acesso aos pontos de referência e alienado de indicadores, pois o yogue intui, ásana pós ásana, ser este seu caminho.

Talvez seja este o motivo que leva tanta gente a afirmar – com razão – que yogues são pouco afeitos à teoria e dedicam-se em demasia à prática. Quem escolheu este caminho, afinal, sabe que a trilha faz parte da aventura.

Ilumine-se

3 ago

“Practice, practice and practice”. Essas palavras, com o inigualável sotaque indiano, saem com algumas variações da boca dos mais influentes professores de Yoga no mundo em resposta às questões mais caras a nós, ocidentais. Para estes verdadeiros yogues, avessos à pregação e aliados do silêncio, a distância que separa perguntas e respostas não é maior que um tapetinho de Yoga. A filosofia, para estes homens, não é uma teoria que pode ser expressa em palavras, mas algo a ser vivenciado.

É através das palavras e da lógica do discurso que interagimos com o mundo. E mesmo quando conversamos com os nossos próprios botões, o fazemos com palavras. A dificuldade em construir a ponte entre a prática de Yoga e sua filosofia reside no fato de termos a teoria como um fim em si mesmo e, em não raras vezes, completamente dissociada da experiência.

Para tentar entender o que a prática de Yoga realizada em alguns dos mais conceituados – e lotados – estúdios dos EUA têm a ver com a filosofia ancestral da Índia, o jornalista Nick Rosen empreende uma jornada em direção à pátria do Yoga. No documentário atualmente em cartaz nos EUA “Enlighten Up!”, o cético jornalista passa a freqüentar as aulas de alguns dos mais renomados professores de Yoga dos EUA em busca de respostas. Sharon Gannon, Dharma Mittra, Rodney Yee e Baron Baptiste, dentre outros, parecem aumentar ainda mais suas dúvidas e sedimentar seu ceticismo. É Norman Allen, por fim, quem sugere a Nick que viaje à Índia. Assista ao trailler:

Na Índia, Nick percebe que sua jornada é mais longa do que imaginava. Em resposta às dúvidas que leva na bagagem ouve de Sri Pattabhi Jois, criador do ashtanga yoga um sonoro: “pratique, pratique, pratique, pratique e pratique”. Nick viaja até a cidade de Puna, sul da Índia, para encontrar-se com B.K.S. Iyengar, que o recebe na biblioteca de sua escola. Iyengar diz que mesmo tendo sido ele ensinado por um grande filósofo (Krishnamacharya) aprendeu Yoga em um plano estritamente físico e que a filosofia veio tardiamente em sua vida. Em outras palavras, pratique!

Somos “citta” – estamos em constante movimento. Em movimento não há pontos de referência, mas pontos de vista que mudam ao sabor do vento e nos enredam em um mar de afirmações que trespassam passado, futuro e presente. Esse movimento é sem dúvida a matéria-prima de nossos maiores questionamentos e origem de muito sofrimento.

Palavras ponderadas costumam nascer da boca de gurus, religiosos, escritores e professores em consolo às experiências mais adversas pelas quais passamos na terra, mas palavras também dançam ao sabor do vento e podem não ser muito eficazes em satisfazer a nossa errática e instintiva busca por mais conhecimento.

Praticar Yoga é buscar a imobilidade de “citta” para que possamos distinguir com mais clareza o imperativo do dispensável, o essencial do supérfluo, o necessário do inútil. Permanecer no ásana – postura de Yoga – é aprender a acender uma vela em um lugar sem vento para que possamos usufruir com mais eficiência da luz da chama. Calar a mente para poder desfrutar de maior discernimento.

Se por um lado o ocidente desmistificou o discurso, recriou o sagrado através da construção de hipóteses em busca de respostas. Construímos um mundo de palavras e o discurso ganhou autonomia tal que passamos a prescindir da experiência para avançarmos rumo ao desconhecido, assim a verborragia desmensurada assumiu, em diversos pontos na história, o papel da realidade para desmoronar em seguida feito um castelo de cartas, obrigando-nos a começar de um “novo ponto de vista”.

A estabilidade de “citta” deve ser buscada para almejar clareza. A chama da vela precisa parar de tremular ao vento para podermos enxergar. Então, antes de mais nada “pratique, pratique e pratique”.

O filme “Enlighten Up!” deve estrear no Brasil durante a 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro deste ano sob o título “Ilumine-se!”. O DVD sai em novembro próximo nos EUA e pode ser encomendado aqui.

O Bailarino e o Engenheiro

11 jul

Estar preparado para praticar Yoga não quer dizer que você deva ter um corpo esguio, estar apto a levar os pés atrás do pescoço ou conseguir permanecer horas de ponta-cabeça. Flexibilidade e força não são sequer pré-requisitos para a prática. A diferença fundamental entre o praticante determinado e o incapacitado é a atitude mental . Quando se diz que a prática de Yoga envolve o corpo e a mente tende-se a pensar em aspectos místicos, provenientes de uma cultura distante que residem além de nossa compreensão racional. Porém, o que fica evidente na prática de Yoga é a repetição de padrões de pensamento, comportamento e movimento que levam ao sucesso ou para um retumbante fracasso, dentro ou fora da sala de aula. O mat- tapetinho de Yoga – é um laboratório onde se reproduzem in vitro nossas experiências cotidianas e como reagimos a elas. E isso não depende de nenhuma energia transcendente ou de uma força maior que atua sobre cada um de nós.

Viagem ao olho do furacão.

Praticamos Yoga a partir dos ásanas – posturas de Yoga -, desvelando o próprio corpo em camadas, das mais superficiais às mais profundas. Inicialmente preocupamo-nos com o desenho da postura, com o seu ‘jeitão’ e com o que ela deve se parecer. Pernas muito ou pouco afastadas. Braços erguidos e a cabeça? Para onde eu olho? Assim, em uma primeira abordagem, a realização do ásana depende de um esboço, uma descrição. Estamos apenas na forma da postura e melhor seria chamá-la de ‘pose’. Muitos praticantes experientes permanecem nesta etapa do processo por toda a vida.

A partir da forma bruta do ásana, existem os pequenos ajustes, a sintonia fina, os detalhes que pouco a pouco aumentam o grau de complexidade do ásana tornado-o mais refinado, completo e seguro. Os chamados ‘alinhamentos’ são o ponto-de-partida do ásana na busca por maior estabilidade e permanência na postura. Esta etapa exige um rearranjo de forças e propõe mudanças na maneira como nos movimentamos nem sempre óbvias de serem atingidas.

A viagem continua. Agora, apenas olhos treinados e experientes são capazes de observar os movimentos mais sutis em nosso corpo. Devemos realizar ações que muitas vezes nos são incompreensíveis e que parecem pertencer ao âmbito da imaginação e irrealizáveis na prática. Movimentos indissociáveis devem ser desconectados. Ossos, músculos e pele devem mover-se com liberdade e independência, um exercício intelectual e motor nem sempre fácil de ser obtido por iniciantes e iniciados. Vencendo todo desconforto e cansaço, a inteligência busca incessantemente agremiar os sentidos e colocar em prática movimentos até então inconcebíveis. As “ações internas” como são chamadas, conectam inteligência e corpo de forma profunda e orgânica. Em uníssono, começamos a praticar Yoga.

Assim, pouco a pouco, caminhamos para dentro de nós mesmos, enfrentando todas as resistências motoras e psicológicas até que, por algum momento, tem-se silêncio e quietude. Há paz dentro desse oceano de estímulos, aflições e impulsos ao qual chamamos de “eu”. Freqüentemente, quando tomamos contato com este breve e preciso momento somos impelidos a abandonar o ásana imediatamente, às vezes abandonar a aula ou até mesmo a prática de Yoga em definitivo. O silêncio é o fim de todas as viagens e poucas coisas podem ser ao mesmo tempo tão angustiantes e reconfortantes quanto o silêncio. Tão saturados de estímulos que somos, perdemos a capacidade de nos locomover sem a escora de réguas e compassos, ainda que esta viagem seja em direção a nós mesmos: sentimos medo. Fugindo da dor e consolidando experiências agradáveis, condicionamos nosso corpo e mente a padrões repetitivos. Construímos assim nosso próprio cárcere, buscando torná-lo mais agradável e seguro a cada segundo de nossas vidas, em prejuízo da liberdade a qual temos direito por natureza. Paradoxalmente, temos as chaves das grades, ainda que atribuamos a função de carcereiro a um número sem fim de pessoas e situações distantes de nós. Praticar Yoga e permanecer calmo no olho do furacão requer prática diligente e inteligência.

Um ásana é como um peão, que encontra seu equilíbrio no movimento. Assim, a estabilidade não é sinônimo de imobilidade ou inatividade. Tampouco significa ranger os dentes para permanecer na postura. Se lutamos contra nosso corpo em uma postura é muito pouco provável que nos aproximemos da estabilidade almejada. Esta atitude mental não é correta e a busca pela estabilidade nestas condições é inócua. Quando a postura amadurece, não há necessidade de esforço algum. ‘Sthira sukham asanam’ – ásana é a estabilidade do corpo e imobilidade da mente.

O Bailarino e o Engenheiro.

Tanto o praticante mais flexível quanto aquele que mal chega com as próprias mãos nos joelhos dependem, a priori, de muita consciência para empreender tal viagem. Não se trata de desafiar os limites do corpo em busca de uma medalha de ouro ou burlar as leis da biomecânica para angariar aplausos no centro do picadeiro. Na prática de Yoga, lesões e traumas resultam de movimentos sem a correspondente predição da consciência.

Um praticante com grande força e mobilidade pode ter dificuldade para entender as sutilezas da prática de Yoga e mobilizar grandes e desnecessários esforços para realizar uma postura, executar movimentos supérfluos, e, ainda que aparentemente realize um ásana, estar tão longe dele quanto sempre esteve. O “bailarino” olha para o ásana e busca reproduzi-lo em seu corpo, atentando somente para o desenho da postura, sujeitando seu corpo ao aspecto formal do ásana, mobilizando forças e mimetizando a postura em seu corpo com maestria. Mas este não é o seu ásana, não é a sua viagem e, a não ser que a postura contribua para torná-lo mais próximo de si mesmo, isto também não é Yoga.

Em outro vértice do mesmo prisma, temos aquele que mal encontra espaço na inatividade de seu corpo para realizar sequer os movimentos mais simples de seu cotidiano, o que dirá sobre os exigentes movimentos requisitados pela prática de Yoga. Uma vez que tudo no mundo se apresenta como obstáculo, torna-se imperativo mudar o mundo. O “engenheiro” que reduz a vivência a uma fórmula, submete o bom senso à razão e abre um túnel ao invés de escalar a montanha, sentirá dificuldade em fazer o caminho inverso e deixar-se guiar pela luz difusa da experiência. Após a ingênua e ansiosa tentativa de sujeitar um ásana à voz da razão, um sonoro e frustrante “eu não consigo” tende a materializar-se. Conseguir o que? O que a razão almeja, afinal? Será que a prática de Yoga foi reduzida a um plano de objetivos e metas? Pode-se executar um ásana com proficiência ainda em seus estágios iniciais. Pode-se não realizá-lo em absoluto, ainda que nos encontremos em sua forma final. Para o Yogue a viagem é tão proveitosa (e necessária) quanto o destino. O prelado da inteligência nos induz a acreditar que podemos sujeitar o corpo à nossa vontade e conveniência, daí o sentimento de impotência e derrota que por vezes sentimos dentro e fora do mat. A inércia do corpo é a inércia da razão e não existe ferramental para tal empreitada que não seja o entendimento da profunda conexão entre mente e corpo, nós e o ambiente, eu e você. A prática diligente de Yoga nos prepara para aceitar o mundo tal qual ele se apresenta a nós e usufruir dele como nos apresentamos a ele, sem a intervenção de bisturis, serrotes ou retroescavadeiras.

Em comum, resultantes de sua própria história, a figura do bailarino e o engenheiro refletem os anseios que cada um tem em relação à vida e a maneira como articulam estes anseios para conseguir seus objetivos, quaisquer que seja eles. Ainda que o corpo resista a levantar-se do sofá e a mente relute em aquietar-se, há uma vontade instintiva, uma certa inteligência que levará a ambos para cima do mat, além das dificuldades e limitações em busca de silêncio e paz: uma centelha que arde sob todas as intempéries.