Barriga Tanquinho

13 jul
Uma grande parte do conhecimento científico relativo à
atuação precisa dos músculos abdominais é bastante recente e
data de meados dos anos 90 dos laboratórios de fisioterapia
australianos. Procurando esclarecer as causas subjacentes às
dores nas costas, pesquisadores de Mellbourne anexaram
eletroldos às secções medianas do corpo de voluntários
enquanto estes movimentavam freneticamente seus braços para
cima e para baixo como o robo alarmista de “Lost in Space”.

Detectou-se em participantes que apresentavam costas
saudáveis que os músculos abdominais profundos contraíam-se
milissegundos antes da elevação dos braços. O transverso do
abdomem, por exemplo, abraçava a lombar antes do início da
abdução dos braços. Em todos aqueles que apresentavam dores
nas costas, porém, a musculatura abdominal não era acionada
ou era acionada tardiamente, assim a espinha não estava
pronta para a tarefa proposta e consequentemente
arqueava-se. A conclusão foi imediata: aumentar a força
abdominal poderia amenizar as dores nas costas. De fato os
cientistas obtiveram êxito ao estabilizar a coluna isolando
e trabalhando a musculatura do entorno do abdomem de alguns
de seus pacientes.

Das mais altas esferas da medicina da reabilitação, o
conceito de trabalho abdominal vazou para dentro das
academias de ginástica e entrou na onda crescente da
indústria de fitness. Personal trainners começaram a
orientar seus clientes a sugar o umbigo durante as séries de
abdominais (crunches) ou a pressionar suas costas contra o
chão durante os sit-ups, afundando o estômago, enrolando e
desenrolando sua coluna segmento após segmento. Como
conseqüência do uso indiscriminado das séries de crunches,
tornou-se comum encontrar pessoas com o abdomem de tanquinho
e uma lombar arruinada. Depois de centenas de abdominais,
pessoas perdem horas tentando alongar seus músculos
abdominais hipertrofiados.

Baseado no número crescente de osteopatias dentro do
universo de pessoas com barriga tanquinho e abdomem sarado,
nasceu uma dissidência que questiona a importância dos
músculos abdominais na composição do core – cilindro de
estabilidade ao redor da coluna. Um artigo de 2008 publicado
na The British Journal of Sports Medicine afirma que as
descobertas obtidas nos estudos australianos poderiam estar
errados e alertava que a proposta não poderiam ser
generalizada e aplicada de forma indiscriminada nas
academias de ginástica.

Há consenso no meio acadêmico de que a idéia do core não
se resume apenas aos músculos abdominais, mas a um conjunto
de músculos e tecidos conjuntivos que circunda e segura sua
espinha no lugar. Se seu core está estável, sua espinha
permanece estável enquanto seu corpo gerencia a grande
quantidade de carga ao seu redor. Concentrar-se em apenas um
grupo muscular pode desequilibrar a espinha.

A crença de que uma forma esguia e enrijecida denota
saúde é equivocada. Um músculo saudável deve ser
flexível e resistente a mesmo tempo, não “duro”. A
prática de Yoga exige que o abdomem seja flexível o
suficiente para permitir uma respiração profunda e
resistente o bastante para estabilizar o corpo em
posturas invertidas e de equilíbrio como Vriksasana
(imagem abaixo) ou  Sirsasana. Posturas com torções ou
“parivrittis” ajudam a desenvolver a musculatura e atuam
no alongamento da musculatura abdominal.
 

A prática de Pilates lança mão da respiração para criar
resistência e ajudar seus praticantes a desenvolver a
contração abdominal e aumentar sua consciência sobre o core.
A coordenação entre o core e o diafragma (principal músculo
da respiração) associada à contração do assoalho pélvico ou
Períneo, ativa o músculo Transverso do Abdômen que é a
camada mais profunda dos músculos abdominais e também ativa
o Multífido, que é o músculo situado ao lado das vértebras,
formando o cilindro da estabilidade e tornando a coluna
estável e protegida para movimentos sujeitos à força,
impactos e torções.

Se os músculos do core estiverem ativados e fortes, a
musculatura mais superficial do abdômen, como o reto
abdominal e os oblíquos, fortalecem com maior facilidade,
pois recebem um suporte maior do core.

É evidente que o sedentarismo típico de nossa época,
associado a uma dieta alimentar desastrosa criou uma
epidemia de abdominais fracos e uma tendência de usar os
músculos das costas para compensar e estabilizar a
coluna de forma isolada. Quando os músculos abdominais
não são fortes o suficiente para fazer uma postura como
Urdva Prasarita Padasana (abaixo), por exemplo,
observa-se claramente o uso da musculatura da lombar
para tal empreitada. Trabalhar isoladamente a
musculatura abdominal, entretanto, irá apenas aumentar
os desequilíbrios.
 
 

Inadvertidamente a “barriga tanquinho” acabou tornando-se
o contra-ponto estético da flacidez abdominal decorrente do
sedentarismo moderno e, por tabela, um ícone da boa forma e
saúde perfeita. A cultura “barriguinha de fora” , porém,
guarda contra-indicações não tão visíveis quanto o umbigo

Uma resposta to “Barriga Tanquinho”

  1. vajrakaya 16 de julho de 2009 às 9:21 AM #

    Adorei o artigo, Franca!
    Se o pessoal com essa mentalidade de barriga tanquinho ver a barriga daqueles saddhus .. vão achar que são iogues preguiçosos!
    Barriga forte não é dura!!

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