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Onde está Mabel Todd?

14 set

MET

Mabel Elsworth Todd

A professora de oratória Mabel E. Todd (1880 – 1956) percebeu que a dificuldade enfrentada por seus clientes em se expressar estava intimamente relacionada a questões emocionais, posturais e motoras. O olhar acurado desta novaiorquina de Siracusa a levou muito além: através de uma linguagem simples, que se esforçava para descrever fenômenos ainda hoje complexos, publicou seu único livro: “The Thinking Body” (1937).

Nunca editado em língua portuguesa, “The Thinking Body” inova ao trazer já à época a indissociável relação entre corpo e mente. Ler Mabel Todd hoje significa buscar em suas linhas o que ainda há para ser descoberto sob a argúcia de sua percepção.

Segue a tradução do capítulo de abertura: “A Função e a Forma da Dinâmica Humana”.

Vivendo, o corpo carrega seu significado e relata sua própria história, em pé, sentado, andando, acordado ou dormindo. Ele escancara a vida na cara do filósofo e nas pernas do bailarino. Um mundo casual enfatiza o rosto. A memória gosta de trazer à tona o corpo todo. Não é a cara de nossos pais que vem à tona em nossas lembranças, mas seus corpos em suas cadeiras, comendo, costurando, fumando, fazendo suas atividades costumeiras. Nós nos lembramos de cada um como um corpo em ação.

O comportamento é raramente racional; ele é habitualmente emocional. Nós podemos dizer palavras sábias como resultado da razão, mas o ser como um todo reage ao sentimento. Para cada pensamento sustentado por um sentimento há a alteração de um músculo. Os padrões musculares primários tem sido a herança biológica do homem, o corpo do homem como um todo grava sua conduta emocional.

O explorador e o pioneiro ficam em pé; o capataz e o magnata recuam. Hamlet anda, Shylock estende sua mão, Carmem apoiando-se sobre um pé, com mãos nos quadris e com olhos sobre o ombro, exige.  As posturas na tradição dramática cristalizam a teoria de seus atores, ensinam o desenho de seus corpos e o jovem estuda os retratos das qualidades épicas no movimento. A culpa, a astúcia, a perspicácia, a mesquinhez, o êxtase e a sedução aparecem em certos arranjos de braços, mãos, pescoço, cabeça e ombros. Assim, o conteúdo dos tempos é apreendido pela inteligência, mas interpretado e levado a cabo pelo movimento. A personalidade entra na estrutura – pela negação ou afirmação de uma pessoa. Esse é um aspecto da evolução da vida.

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Exercícios no estúdio de Mabel Todd em Boston

A auto-expressão está nos equipamentos mentais e emocionais, temperamento, personalidades, experiências e preconceitos, influenciando e controlando a relação das partes do corpo com o todo. Esse equipamento inclui a unidade motora para o movimento – a ação neuromuscular sobre os ossos. Músculos que agem automaticamente. Quando agem, movem os ossos. A posição dos ossos no homem desempenha um papel fundamental em seu senso de controle e posição no mundo. Como ele posiciona os ossos determina seu grau de auto-controle; eles são continuamente alinhados e desalinhados ao ritmo do movimento. Mecânica, física e fisiologicamente, o corpo humano é compelido a lutar por um estado de equilíbrio.

A abordagem fisiológica do estudo da dinâmica do corpo está baseada no fato de que o sistema neuromuscular é a unidade que determina o movimento organizado. Mecanicamente, unidades separadas do corpo estão se movimentando através do tempo e do espaço. A unidade neuromuscular é a unidade motriz do movimento. Fisiologicamente vários estímulos preparam os músculos para sua resposta. O estímulo, quer seja interno ou externo, deve ser correlacionado. Isso envolve fatores psicológicos que afetam a resposta.

Para cada estímulo existe uma resposta motora. O número de partes envolvidas na resposta motora está condicionado pelo comportamento, inserção social, assim como pela sua compleição física. O indivíduo é uma totalidade e não pode ser segregado em intelecto, corpo ou fatores sociais. Tudo está correlacionado.

A correlação entre os estímulos viscerais, psíquicos e periféricos sublinham a resposta muscular e envolvem completamente o homem. O corpo, animado como um todo, vem a ser um instrumento sensitivo que responde aos estímulos com uma sabedoria muito além daquela atribuída pelos homens à consciência ou razão.

Nós agora percebemos que para a economia física do indivíduo, muitos sistemas devem estar trabalhando em uníssono e equilíbrio. Nós percebemos que a função precede a estrutura, o pensamento precede a mente, o verbo precede o substantivo, algo só é experimentado após a coisa toda ter sido feito. Tudo se move, e no caminho do movimento, a vida é objetivada.

A Árvore de Andry.

16 jul

Nuncio Paci

Ilustração Nuncio Paci

“tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado de pathos. O conceito está ligado a padecer, pois o que é passivo de um acontecimento padece deste mesmo. Portanto, não existe pathos senão no movimento, na imperfeição.” Descartes

A adversidade nunca foi um obstáculo ao corpo; o tempo, sim. Pois é preciso tempo para que as estruturas mais rígidas do corpo cedam, as mais delicadas enrijeçam, as mais sutis evidenciem-se. É preciso tempo suficiente para entender que o corpo não é expressão instantânea de nossa vontade, mas resultante de forças sobre as quais temos pouca ou nenhuma ascendência.  É da natureza do corpo humano sua adaptação e mudança, pois nada é inerte afora a morte, o rigor mortis.

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Frontispício do livro Orthopaedia, de Nicolas Andry, para quem os desvios posturais tinham causas ósseas.

No caminho em direção à adaptação, adotamos posturas potencialmente prejudiciais e movimentos arriscados que podem nos expor a lesões recorrentes. O percurso que seguimos em não raras vezes flerta com a dor sem tocá-la e é dispendioso energeticamente sem exaurir nossas forças. O motivo por que escolhemos um caminho tão inconveniente não pode ser explicado em termos antálgicos ou energéticos, pois há aspectos que prevalecem sobre estas dimensões.

O equilíbrio reúne as forças dispersas no curso da ação e as converte em um eixo, um vetor através do qual o movimento se expressa. Para ser eficiente, essa resultante deve privilegiar a estrutura que lhe dá vida, afora isso é dispendiosa energeticamente, e tão mais dispendiosa será quanto mais afastar-se da estrutura que a sustenta. Equilíbrio implica, portanto, na escolha de uma postura em convergência com a estrutura que a mantém.

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Foto arco romano

Os estímulos que interferem nesse eixo econômico e indolor originam-se, porém, de fontes adjacentes não relacionadas diretamente à imediata manifestação somática, mas de raízes histórico-emocionais. Os centros que modulam os estímulos sensoriais, o tônus postural e a coordenação motora são estruturalmente reflexos de nossa evolução enquanto espécie e funcionalmente alvo de nossa experiência vivida, interferindo sistematicamente em nosso modo de ser no mundo.

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Relação topográfica cortical e cerebelar, por Netter.  CCAS*, e.g., expõe disfunções posturais e emocionais em lesões cerebelares.

Temos assim, na expressão do corpo, algo completamente singular e que foge de sua uniformidade morfológica, pois é conseqüência do acaso. Serão as circunstâncias, as experiências vividas, que transformarão o corpo em sujeito.

A força que advém desta afirmação traduz-se na dificuldade em se quebrar padrões posturais nocivos ou dissociar movimentos dolorosos.  Devemos assumir, portanto, que o ruído que molda o movimento exibe, em grande medida, a identidade do ser. Em última instância, ao mudar o curso da ação propõe-se não apenas uma nova postura, mas uma nova maneira de estar no mundo.

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Postura de Yoga Adhomoukha Svanasana adaptada. A correção de um padrão postural depende da apresentação de um novo paradigma– Clínica Ortopedia e Traumatologia FCS Univap

Para recuperar os parâmetros sobre os quais o movimento se desenvolve e restabelecer o equilíbrio, não basta reabilitar a capacidade perdida, é preciso buscar um novo modelo que torne o existente imediatamente obsoleto, carregando per si o gene da mudança.

Para tanto há de se apelar à inteligência e instruir o indivíduo em torno de uma proposta afirmativa ao invés de lhe negar o realizado.

“ a vontade de poder não é nem um ser, nem um devir, é um pathos”.  Nietzche

Novos Horários. Nova Proposta.

3 jun

Segundas e quartas, das 7:30 às 9:00. Dois novos horários e uma nova proposta.

Diferente das aulas regulares, nestas turmas o aluno realiza uma série de yoga específica, com aproximadamente 1:30 hora de duração.

Durante estas aulas, são realizados os ajustes posturais necessários e propostas novas posturas de yoga, de acordo com a necessidade e desenvolvimento de cada aluno.

O aluno poderá chegar ao estúdio em qualquer momento durante a aula para realizar sua série.

Esperamos assim atender aos interessados que, devido a vários fatores, não podem ingressar nas turmas regulares e, ao mesmo tempo, respeitar uma premissa de yogacharya B.K.S. Iyengar para quem “todos tem corpos diferentes, diferentes fraquezas e forças. O Yoga é para todos.”

Agende uma aula aqui.

O Movimento Fundamental.

3 jun


A mão da Sra. Wilhem Roentgen: a primeira imagem de raio-X. 1895.

“E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, no meio da qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular  pairava, preto e frouxo, o anel que o avô lhe legara, um objeto duro desta terra, com o qual os homens adornam o seu corpo destinado a desfazer-se por  baixo dele, para que fique novamente livre e se possa enfiar em outra mão que o use durante algum tempo.” Thomas Mann.  A Montanha Mágica.

Existe um movimento fundamental, que subsiste alheio à nossa vontade, biotipo ou condição física.  Algo rude, construído pelas interações da carne com os ossos, descrito mecanicamente pelas alavancas que atuam soberanas e independentes do sistema nervoso.  Algo essencial, que se mantém livre de qualquer influência psicológica, cultural ou histórica, identificando-nos enquanto espécie.

Desenho de William Cheselden (1688 -1752)

Desenhado nas superfícies articulares há um movimento puro, destituído de qualquer ruído; um gesto imaculado pronto para realizar sua existência no espaço.  Despojado de qualquer perturbação, este movimento guarda as circunstâncias primeiras que irão determinar nossa percepção e conseqüente compreensão de mundo.

Henry Gray.  Anatomy of the Human Body.  1918.

É a partir de nossa intervenção no espaço que a experiência perceptiva ganha vida e o mundo se torna inteligível. “O corpo é, em primeiro lugar, o meio de toda percepção” (Husserl) e irá fornecer a matéria-prima para o desenvolvimento da consciência.

“Percepção não é algo que nos acontece, mas algo que fazemos. O mundo está disponível através do movimento e da interação. A experiência da percepção adquire conteúdo graças à posse de habilidades corporais. O que percebemos está determinado pelo que fazemos, ou o pelo que sabemos como fazer.” Alva Noé

T2W/3D-FFE, Matrix 240, TR/TE 30/14 ms.

Destrinchar os vetores espaciais que trespassam a carne do corpo, despindo o movimento de seu conteúdo pessoal e social, revela a condição primeira do ser humano: aquela que determina a maneira como percebemos o mundo tal como o conhecemos.

Ralph Hutchings, Visuals Unlimited/Science Photo Library

Olhar para dentro significa, portanto, olhar para fora. Identificar as estruturas que determinam a maneira como percebemos e entendemos o mundo é, portanto, reconhecer os limites a priori de toda nossa experiência: a maior liberdade que podemos almejar enquanto seres humanos.

A criação de Adão (detalhe). Michelangelo. 1508-1512.

“Emancipação, liberdade, felicidade pura e imaculada esperam por você, mas você deve escolher embarcar em uma viagem interior para descobrir isso tudo.” B.K.S. Iyengar

Ashtanga Yoga em Caraguatatuba.

15 maio

É com grande prazer que convido a todos para participarem do nosso workshop de ashtanga em Caraguatatuba, a ser ministrado por mim, com o inestimável apoio da nossa amiga Lye Otani, que nos cedeu sua casa para realizarmos nossas práticas e nos hospedarmos.

A idéia central desse workshop é passarmos um tempo juntos, praticando Ashtanga Yoga, cozinhando juntos e nos conhecendo melhor.

O workshop ocorrerá nos dia 07, 08 e 09 de junho, com a seguinte programação.

07 de junho (quinta)

08:00 – aula mysore

11:00 – aula técnica

18:00 – aula do Bhagavad Gita

08 de junho (sexta)

7:30 – aula mysore

10:00 – princípios do Ashtanga Vinyasa Yoga

18:00 – aula do Bhagavad Gita

09 de junho (sábado)

7:30 – aula mysore

10:00 – perguntas e respostas

Sairemos de São José na quinta bem cedo para chegarmos direto para a prática. Portanto peço que cada um dos participantes leve alguma preparação para compartilharmos no nosso café da manhã. Se possível vamos lotar os carros para dividirmos o valor do combustível.

Amigos e familiares, ainda que marinheiros de primeira viagem no ashtanga, são bem vindos. Convide-os.

O valor do workshop para os três dias é de R$ 120,00, ou R$ 40,00 por dia, para aqueles que não puderem ficar todos os dias.

Como já disse, iremos nos hospedar na casa da Lye, que acolhe bem 10 pessoas. Portanto, não deixem a inscrição para última hora.

Nossas refeições em casa serão compartilhadas e rateados os custos. Comecem a separar as receitas dos quitutes!

Bem, é isso aí pessoal. Espero contar com a presença de todos.

Qualquer dúvida entrem em contato: ashtangayogasjcampos@ig.com.br

Yogindra Das

Caminho de Volta.

6 maio

‘I walk alone’ de Gottfried Helnwein (2003)

Todos nós temos um potencial latente, não desenvolvido por completo, acumulado à custa do esgotamento de sistemas mais econômicos e confortáveis. De maneira congênita, apoiamos nosso desenvolvimento sobre estruturas mais convenientes, repetindo padrões de movimento à exaustão.

Com sulcos profundos cavados no caminho da ação, tendemos a incorrer na vala já aberta dos enganos, a despeito da riqueza de movimentos disponível. Nossa conduta motora está dominada por atividades reflexas inconscientes, reforçadas e consolidadas pelo tempo.


Protuberâncias e sulcos na cabeça do úmero evidenciam-se com o tempo em função das tensões exercidas pelos tendões que cruzam a articulação.

Muitas vezes, um movimento não é deturpado durante sua realização, mas em sua concepção. Por não participar de nossa narrativa motora, determinado movimento simplesmente não é concebido e, portanto, a chance de realizá-lo inexiste.

Assim, o desenvolvimento do potencial motor passa, necessariamente, pelo aumento de seu repertório.

Atividades físicas que exploram a riqueza e a diversidade de movimentos não são, em si, garantia de alteração na maneira como respondemos aos desafios propostos, tampouco de mudança nos padrões adquiridos. Sem a nossa intervenção deliberada, percorreremos sempre o mesmo atalho, ainda que de maneiras diferentes e de acordo com a natureza da atividade física proposta.

Trilhar um caminho realmente diferente e sem obstruções requer disciplina para abrir uma picada em meio a padrões consolidados e enfrentar percursos frequentemente mais longos e tortuosos.

Liberdade com disciplina é liberdade de fato. (BKS Iyengar).

O desenvolvimento motor inicia-se pela estabilização da cabeça, do tronco e, por último, dos membros, seguindo uma direção cervico-caudal. A aprendizagem de movimentos coordenados, entretanto, segue o caminho inverso, propagando-se das extremidades do corpo em direção à cabeça.

Desde nosso desenvolvimento embrionário, a posição da cabeça influi no movimento total do corpo. Virar a cabeça para o lado e olhar um objeto leva imediatamente o pescoço, os ombros e o tronco na mesma direção. Quando agarramos o objeto, são os dedos das mãos que irão recrutar cotovelos, ombros e tronco para movimentá-lo. O caminho de ida é diferente do caminho de volta.

Aos 6 meses de vida os movimentos descontrolados dão lugar a um controle progressivo da cabeça, dos membros e do tronco.

O movimento irradiado a partir das extremidades do corpo, onde estruturas delicadas contam com grande mobilidade e precisão, interfere na organização de estruturas mais fortes, responsáveis pela manutenção postural, por exemplo.


Ameya Gokhal 2008. BKS Iyengar ajustando praticante de yoga. 

Dispositivos complexos como as mãos e os pés reorganizam o movimento global do corpo ao conectarem-se a unidades de transição como os ombros, quadris e escápulas, promovendo mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o espaço. A propagação de um movimento voluntário para outro não é causal e segue um padrão específico dos grupos musculares (Charles Sherrington).

A implicação das extremidades do corpo no aumento do repertório somático  possibilita a aprendizagem de movimentos antes desconhecidos. Só então uma a atividade física que explore a riqueza de movimentos poderá promover a mudanças de fato.

A Densidade da Carne.

25 mar

estampa de 2headsnakes

Imagens, sonhos, neurônios,

Desejos, paixões, amores, hormônios,

Crenças, virtudes, apatia, serotonina,

Humor, coragem, iniciativa, adrenalina.

Abstrato e concreto, mental e corpóreo, material e imaterial.  Nossa inesitante distinção entre o tangível e o etéreo parece brotar intuitivamente das coisas e sugere que não apenas temos claro domínio sobre tudo o que é físico, mas insinua que usufruímos de certa noção sobre a quinta-essência do mundo.

Chamamos de concreto tudo aquilo que guarda evidente relação com o corpo e pode ser percebido pelos sentidos.  O corpo é fonte de materialidade e confere ao mundo as dimensões de espaço e tempo, organizando as coisas para que possamos entender e aprender como tudo se relaciona.

“Entender é perceber, implicitamente, os efeitos do movimento na percepção, na estimulação dos sentidos. Um objeto torna-se maior e sabemos que nos aproximamos dele. Seu ruído diminui e entendemos que ele se afastou.” – Alva Noe.

A mesma perspectiva que nos leva ao entendimento das coisas expõe impiedosamente nossas limitações físicas, nossa condição humana, nossa natureza, a relatividade de tudo aquilo que julgamos conhecer.  O abstrato surge, assim, para transcender o tempo e sobrepujar o espaço, circunstanciando o que não pode ser alcançado, descrevendo o que nos escapa ao olhar.  Tal como uma imensa metáfora, o abstrato nasce para transpor o corpo e, em não raras vezes, termina por negá-lo acintosamente.

A negação do corpo é recurso amplamente proposto pelas religiões a fim de dissimular a natureza efêmera do homem. foto: Steve Evans

A apropriação das coisas pelo corpo tende a desmistificar o mundo pois desvenda seu conteúdo mais íntimo, arrebatando significados e construindo conexões.  Desfrutar de fluência sobre o movimento aponta,  portanto, para o que há de concreto sob a nódoa do abstrato.

O mundo se revela ao observador através do movimento. Assim, a experiência perceptiva ganha vida graças ao domínio de “habilidades físicas”. O que percebemos, enfim, não é uma representação de mundo construída dentro de nosso cérebro, mas a resultante de nossa intervenção no espaço, algo que fazemos e que acontece em nosso corpo como um todo.  Nossa habilidade em perceber não é um processo decorrente exclusivamente de nosso equipamento sensório-motor, mas também por ele. O corpo em movimento é o quinto sentido.

“O corpo é o único instrumento concreto sobre o qual você pode concentrar-se. O corpo cria condições para a introspecção e meditação”  — B.K.S. Iyengar

A Janela do Porão.

28 jan

Foto de Danielle Tunstall. Sem título.

“Cinco janelas na alma se abrem

Do início ao fim os Céus distorcem,

E levam você à grande burla

De que enxerga com e não através delas

De que nasceu numa noite e irá perecer na escuridão

Enquanto a alma descansa em um imenso clarão”

The Everlasting Gospel de William Blake

Abaixo da pele, os estímulos sensoriais são difusos, sua localização ambígua, a intensidade fraca. Sob a derme mergulhamos em uma região de muitas sombras e pouca luz.

O interior do corpo é parcialmente velado à percepção porque os receptores sensoriais encontrados dentro de nós são inferiores em número e variedade aos localizados na superfície. O repertório de respostas obtido de nossos órgãos, portanto, é mais limitado. Assim, somos capazes de discriminar com precisão milimétrica a distância entre dois pontos com os dedos das mãos, mas dificilmente distinguimos uma cólica renal de uma lombalgia.

Escrita em Braille

Podemos sentir o pulso sanguíneo irrigando os tecidos, o movimento visceral, a pressão intracraniana. A introspecção mostra que a escuridão dentro de nosso corpo não é absoluta, mas essa ausculta demanda concentração e treino. O organismo não se revela de imediato e, em regra, somos incapazes de distinguir órgãos, tecidos ou sistemas.

“Diferenças culturais demonstram que certos níveis de apatia visceral podem estar associados à insensibilidade ocidental, podendo ser superados através de um esforço sistemático nessa direção. A consciência e o controle sobre o próprio corpo exibidos por yogis treinados em muito supera o que se considerava possível no ocidente”. Drew Leder

É irônico que o corpo, a base de toda experiência, a origem da referência espacial, o centro das coordenadas, escape à nossa apreensão imediata. Permanecemos invisíveis a nós mesmos até o momento em que os sentidos colidam com as superfícies, entrem em choque com a luz, sofram o impacto de sons, aromas e sabores. Construiremos, no ato da concussão, nossa imagem de fora para dentro.  Serão as interações com o meio que irão configurar o espaço do ser vivente.

Desta maneira, o corpo se faz conhecer do visível, do palpável, das camadas mais superficiais, ricamente enervadas, às mais profundas. Antes de tudo, são os dados colhidos em resposta às nossas ações que irão construir o conhecimento que temos a respeito de nós mesmos.

Não por acaso Nietzche chama o corpo de “Herrschaftsgebilde”, ou criação da vontade dominante (apud Schilder).  Como expressão de nossa vontade, mudamos continuamente nossa forma no espaço. O espaço, em resposta, irá revelar quem somos.

Preparatório para Eka Pada Rajakapotasana II

O fim abrupto no fluxo das sensações exaspera-nos.  A consciência sobre nós mesmos provém da continuidade desse curso. Buscamos no movimento, no contato, na impressão, o real significado das coisas.  O real significado de quem somos.

“Nós continuamente ampliamos a moldura da mente a partir da tela do corpo. É como se, ao alongar, criássemos uma tela maior para nossa pintura”. BKS Iyengar