Arquivo | Teoria RSS feed for this section

Coreografia da Pedra

1 out

Capa da revista A1, por Dave Mckean

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento. Não há carne nem alma;

Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe,

Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível,

Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso,

Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo,

Não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável,  resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Kazuo Ohno – The Written Face

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.

Atlas Anatômico de um Zumbi

24 ago

Zumbis à procura de cérebros no filme “The Return of the Living Death” (1985)

“Penso, logo existo”. O que surpreende na conhecida afirmação de René Descartes, publicada em 1637, é que a razão pela qual existimos não é o corpo, mas a mente.  Assim, Descartes cavou uma vala entre o corpo e a mente que permanece aberta até hoje em nossas reflexões sobre como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos.  A noção cartesiana de que existe algo dentro de nós, que pensa e independe do corpo, sedimenta a idéia de consciência separada do corpo que dispomos hoje.

O homem e seu espírito -illustração de  Folon (Le Livre de Sante- v.9 -1967) 900

A reflexão contemporânea não foi muito além de colocar o “cérebro” no lugar da “coisa pensante” cartesiana. Entendemos nossa dinâmica com o meio a partir de que algo existe a priori em nosso sistema nervoso e é colocado “para fora” através do corpo.


Enquanto aguarda um corpo, o cérebro de Morbius é mantido vivo em episódio de Doctor Who.

Não há, porém, como a consciência ser puramente um fenômeno neural e ter no cérebro a sua única morada. Graças à subjetividade sensório-motora, uma pessoa imediatamente percebe-se em contato direto, efetivo e íntimo com seus movimentos e reconhece ininterruptamente as condições gerais de seu próprio organismo.  O corpo, dentro de sua dinâmica, informa-nos a respeito do mundo e serve de estrutura espacial para a formação da experiência consciente a partir de um ponto-de-vista único e vantajoso: “eu”.

Uma vez que a experiência da consciência é estruturada pela dinâmica do corpo em sua interação sensorial com o meio, a consciência não pode ser algo que acontece exclusivamente em nosso cérebro, mas algo que existe pelo engajamento do corpo no mundo.  É óbvio que devido à nossa organização física não podemos enxergar sequer o que está atrás de nossas próprias costas, quanto mais olhar para os confins do universo em busca de nossas origens ou procurar dentro do átomo o elemento primordial da matéria. Mas sendo a experiência da consciência uma função determinada pela relação do corpo com o ambiente, o corpo é condição de inteligibilidade do mundo, ou seja, o ponto-de-partida de nossas expedições rumo ao desconhecido.

A distribuição dos elétrons de um átomo de Vanadium no plano cartesiano determina a forma como vemos a nuvem de elétrons em torno do núcleo.

Mudanças significativas em nossos sistemas vitais, órgãos e processos produzem mudanças correspondentes em nossa experiência, que podem ou não envolver o cérebro e o sistema nervoso. O mau funcionamento da tireóide, um desequilíbrio hormonal, uma descarga de adrenalina, promovem grandes mudanças em nossas emoções, afetando nossa experiência. Não devemos assim inflacionar a responsabilidade do cérebro e do sistema nervoso no estabelecimento de nossas emoções sob o risco de subestimar ou negligenciar o poder causal do corpo como um todo. Por último, na ausência de qualquer um de nossos sistemas vitais, órgãos ou processos metabólicos, o corpo, como um todo, é destruído. É neste preciso momento em que a consciência cessa. Assim a existência da consciência exige um corpo “inteiro” para existir.

Postura Urdhva Dhanurasa em corpo que sofreu processo de plastinação na exibição  Body Words III de Gunther von Hagens.

Pensamos na consciência como algo que acontece dentro da gente, como a digestão, quando deveríamos entender a consciência como algo que fazemos, como uma dança compartilhada com todos e com tudo o que existe. E se a consciência depende de um corpo inteiro para existir, ela está sujeita às mesmas leis da física do sistema que a contém, como gravidade, o peso, a aceleração, etc, e todas as limitações físicas que este sistema encerra em si, como  seu estado saúde, restrições físicas e motoras.

Primeira série Ashtanga Vinyasana Yoga

O lugar da consciência é a dinâmica da vida como um todo. Aliás, apenas quando nós levamos em consideração esta perspectiva holística é que a contribuição do cérebro e do sistema nervoso faz sentido. Vida mental é, antes de qualquer coisa, vida e, para tanto, é essencialmente corpo em dinâmica com o meio. Não é possível entender um sem o outro.

_Eu não sei respirar.

16 maio

La jaunisse, illus. A. Dahan (Le Livre de Sante, v.6, 1967)

A pele estabelece a primeira fronteira entre nós e o mundo. Da distinção entre o corpo e seu entorno surge aquilo que passaremos a chamar de “eu”.  Assim, os órgãos do sentido farão a ponte que atualiza, redefine e forja as representações que fazemos do meio, fornecendo a matéria-prima para a memória, o raciocínio e o pensamento.

O input sensorial, porém, não se limita apenas aos receptores que se encontram nos órgãos sensoriais. Quimioreceptores monitoram continuamente a concentração de oxigênio no sangue e determinam alterações na freqüência e profundidade da respiração. Proprioceptores encontrados nos fusos musculares, tendões e articulações discriminam a posição e o movimento articular.  Barorreceptores presentes no arco aórtico distinguem a pressão arterial pela distensão vascular.  Os neurônios entéricos mantêm a coordenação das funções digestivas em harmonia com os comandos recebidos do sistema nervoso central.  Mesmos que os dados destes e de muitos outros receptores nunca venham à tona e se tornem conscientes, não há como nos imaginarmos independente deles. Não ter controle sobre processos inconscientes, enfim, não implica em afirmar que estes processos não influem na consciência. Podemos afirmar com tranqüilidade que tato, olfato, audição, paladar e visão representam uma fração das informações que irão alimentar nossas representações, corroborando ou invalidando aquilo que, na maioria das vezes, já percebemos ou sabemos por outras vias.

A idéia de alteridade em relação ao mundo, portanto, não é tão explícita quanto a apresentada pela nossa compleição física.  A pele não é uma trincheira cavada entre o corpo e o mundo, mas um contorno difuso, uma maneira de nos organizarmos nos espaço. Interagimos profundamente, subcutaneamente, com o meio, sofrendo e promovendo mudanças, sentindo dor, bem-estar, tensão, desconforto, etc., e reagindo aos estímulos recebidos.  É, por fim, a integração de informações provenientes de diversos canais que irão costurar os segmentos e órgãos do corpo em um indivíduo unificado.

A precisão das informações sobre o estado interno do organismo é um componente crítico para a preservação da saúde e relaciona-se diretamente com o equilíbrio geral do organismo (homeostase).  Assim como deixamos de enxergar ao apagar das luzes, ruídos nos sinais que vêm de dentro do corpo levam-nos a desenvolver uma experiência alterada em relação a nós mesmos.  Sentir dores sem lesão associada ou potencial, ter medo sem estar sob ameaça ou sentir falta de ar sem comprometimento respiratório apontam para o colapso da experiência subjetiva. Perder os parâmetros sobre os quais aprendemos a nos entender leva à manifestação de sintomas enviesados que, em não raras vezes, geram prognósticos equivocados.

 Building Blocks of Nervous Systems, illus. Paul Slick 

Não há praticamente como interferir de maneira deliberada em processos não-conscientes e refazer o caminho entre instâncias cognitivas e nosso estado interno, mas podemos decupar parte daquilo que fazemos de maneira reflexa no intuito limpar os ruídos que interferem em nossa relação com o próprio corpo e aprimorar nossa consciência corporal em sentido amplo.

Neste contexto, a respiração é um ato privilegiado onde a ação voluntária e a metabólica (involuntária) coexistem. A congruência entre o automático e o somático no sistema respiratório apresenta um ambiente propício para melhorar a interpretação dos impulsos que vêm de dentro do corpo.

Não é possível dissociar respiração e postura. A eficiência da primeira depende do equilíbrio da última.

As práticas de Yoga e Pilates incorporam sistematicamente em seus exercícios o controle sobre a ventilação pulmonar, restringindo, sincronizando e modificando padrões autômatos. Aprendemos, através da interferência nos processos reflexos, a aprimorar os sentidos sobre a condição fisiológica de todo o corpo.

Chamadas de Pranayama, as práticas de controle respiratório têm objetivos específicos mas, em princípio, todas demandam atenção e disciplina. “Pranayama é uma arte e depende de técnicas para fazer com que os órgãos do sistema respiratório movam-se intencionalmente, ritimadamente e intensamente”  (B.K.S. Yengar).

Árvores que Andam

6 fev

Para ser bem executada, uma postura de Yoga exige que nosso corpo esteja profundamente alicerçado em seus apoios. Pés no chão, mãos unidas, cabeça apoiada, ombros amparados e, depois de tudo isso, se ainda sobrar alguma ponta solta, haverá quem encontre um modo de amarrá-la.

Quando um membro ou qualquer segmento do corpo está apoiado sobre uma superfície, sua ação colide com o apoio e volta em direção à origem.  Em seu retorno, a força aplicada aumenta a compressão articular e estimula os sensores (proprioceptores), o que aprimora a sincronicidade da contração muscular e melhora a estabilidade postural.  Quando o movimento das mãos é interditado por uma parede, por exemplo, toda a cadeia muscular dos braços e costas é imediatamente recrutada e passa a se exercitar ao mesmo tempo.

Interiorizada, a força nem sempre é conduzida por canais apropriados e requer nossa intervenção. A manipulação deliberada e consciente das linhas de força que cortam o corpo durante a interceptação do movimento tem o poder de alterar profundamente uma postura, refazendo os caminhos pelos quais passam habitualmente essas linhas.

Ao realizar uma ação interna, manejamos os vetores de força com o propósito de promover o equilíbrio articular, diminuir as forças de cisalhamento sobre os ossos e aprumar as cargas axiais, redefinindo o alinhamento postural.

Assim, durante a execução de uma postura de Yoga, o movimento ganha vida na absoluta imobilidade do corpo.

Para mover livremente os segmentos do corpo no espaço, ao contrário, imobilizamos o tronco e acionamos isoladamente o segmento desejado. Ao levantar um halter, sentados em uma cadeira, acessamos a articulação do cotovelo sem mobilizar significativamente o ombro, as escápulas ou as costas, por exemplo. Este movimento aumenta as forças de distração (separação articular) no cotovelo e recruta o bíceps do braço para manter a articulação unida. Essa estratégia é fundamental quando uma articulação está comprometida e deve ser preservada enquanto outras partes do corpo precisam ser exercitadas.

No cotidiano, porém, as habilidades biomotoras de vários segmentos do corpo são continuamente combinadas para a execução de determinado movimento e dificilmente podem ser esgotadas em termos de extensão, flexão ou rotação de um único membro. A combinação de exercícios que misturam imobilidade e mobilidade segmentar aproxima-se das atividades funcionais cotidianas e ampliam as possibilidades de tratamento e reabilitação.

Nas rotinas de Pilates, essa mistura é levada adiante com o propósito de estabilizar a musculatura profunda do cilindro abdominal e integrar as cadeias musculares envolvidas na preparação para o movimento. O transverso do abdome, o multifidio, o assoalho pélvico, o diafragma e o oblíquo quando trabalham afinados, liberam os músculos motores para trabalhar livre e eficientemente. O intervalo entre a preparação e a ação é crucial para a saúde articular, destacadamente da espinha.

Na rotina diária, durante o treinamento físico ou nas sessões de terapia, não basta evidenciar a conexão entre os segmentos com o todo ou tentar descobrir quais músculos são demasiadamente fracos ou exageradamente tensos, mas considerar a conexão do impacto da estrutura (forma e anatomia), da função (forças e coordenação motora) e mente (consciência). Esta orquestra é regida pelo sistema nervoso e diretamente influenciada pelas emoções.

Natal em Auschwitz

7 dez

A não ser por uma fina camada de pele que nos dá forma no espaço, somos rigorosamente iguais, não importa de onde viemos ou o que fazemos. Logo abaixo da pele, a maneira como se constituem tecidos e fluídos do corpo é rigorosamente a mesma em todos nós. Tamanha é a semelhança que podemos inferir com tranqüilidade o conhecimento extraído de um único corpo, dissecado sobre a mesa fria de inox, para toda a humanidade estendida sobre a face da Terra. Uma camada de células epiteliais apenas dá forma ao que chamamos de “eu” e por derivação imprópria, distingue-nos do “outro”. Tomar a forma pelo conteúdo e imaginar-se especial dentre seus pares é parte de um equívoco congênito, condição da qual um deve procurar libertar-se.

Trata-se sempre da mesma coluna axial que abriga um sistema nervoso e sustenta uma estrutura radial, as costelas, onde se prendem as diversas unidades de manutenção da vida. Somos nós peixes, anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos, estruturalmente iguais e com algumas adaptações arquitetônicas para atender às exigências do habitat onde vivemos. Cada qual mestre em sua ordem e plenamente consciente de seu meio, compartilhamos todos o mesmo anseio pela vida e igual imperativo de liberdade, sem a qual a vida não se realiza.

evolution

Les stades du developpment de l’embryon, illus. J. Alessandrini

São sempre os mesmos átomos, organizados e reorganizados ao fim de cada momento, de cada ciclo, da vida. Somos nós minério. Não há necessidade de mística superior que exemplifique aquilo que a tabela periódica esgota. É preciso, sim, muita honestidade para tirar os olhos do céu e encontrar sob nossos pés o mesmo carbono, nitrogênio, enxofre, fósforo, oxigênio e hidrogênio que nos constitui. Compreender, de uma vez por todas, que somos iguais e participamos do mesmo conjunto de elementos é a epifania possível – e não é pouco-, tudo o mais é ilusão, é ‘maya’.

A fixação privilegiada no próprio “eu”, das representações e dos sentimentos pessoais a ponto de perder, em maior ou menor grau, a relação com o mundo exterior explica a apatia frente à dor alheia, o autismo de quem encontra na auto-satisfação o motivo para viver, a estupidez diante do colapso da vida.

“(…) no seu comportamento em relação aos animais todos os homens são nazistas. A presunção de que o homem pode fazer com outras espécies o que delas quiser exemplifica as teorias racistas mais extremistas”. Isaac Bashevis Singer

A indiferença perante a vivisseção animal para consumo (*) torna o homem insensível em absoluto e não há porque cobrar-lhe compaixão. A miopia diante da barbárie torna o homem completamente cego e não há porque exigir-lhe discernimento. A violência incapacita o homem para viver em harmonia com o meio, extirpa-lhe a humanidade e o torna órfão do mundo em que vive. Afasta-o do Yoga no sentido mais amplo do termo.

O Natal é a época do ano em que mais se mata animais. Comemorar a vida, o nascimento, com a morte é o auge da ignomínia humana.

A Deriva.

17 nov

Da cabeça até a bacia, toda a extensão das costas está coberta pela coluna vertebral, que assenta o peso do corpo, vértebra após vértebra, com carga crescente até articulação sacro-ilíaca. Não há conexão semelhante na parte anterior do corpo, onde músculos e tecidos conjuntivos suspendem segmentos intermitentes, do occipital ao ossos púbico. Se estruturas rígidas como as vértebras suportam as forças compressivas nas costas, são composições flexíveis como as dos músculos escaleno, intercostais e abdominais que suspendem os segmentos na frente do tronco, equilibrando o corpo.

Como cordames atados a um mastro de vela, os músculos do pescoço equilibram o crânio sobre a cervical. A grande mobilidade da cabeça no espaço não é dada pela articulação do crânio com o pescoço (a. occípito-atloidiana), mas pela coluna cervical e, indiretamente, pelo corpo como um todo.

A posição da cabeça em relação ao corpo resulta das curvas fisiológicas, das deformidades e forças que agem na coluna. Ao mesmo tempo, os músculos que começam na base do crânio e pescoço desempenham papel fundamental na determinação da postura global ao suspenderem a parte anterior do corpo, das primeiras costelas até a pelve. Assim, a posição da cabeça é, ao mesmo tempo, causa e efeito de nossa postura.

‘Sanduichados’ entre músculos retesados e ligamentos poderosos, as artérias que nutrem o cérebro (carótidas), as vias de drenagem venosa (jugulares) e o sistema nervoso guardam relação muito estreita com os elementos móveis da coluna cervical.

Preservar o espaço destinado a estes elementos livre de obstrução dentro do pescoço requer intervenção deliberada na postura, uma vez que a rigidez torácica e dos membros superiores aumenta as exigências sobre a cervical e acaba sacrificando estes espaços.

Dobrar o pescoço para trás (hiperextensão) sem envolver o tórax, sobrecarrega a musculatura anterior da cervical, colapsa as espinhas vertebrais e diminui o diâmetro do pescoço, como evidenciam as pregas na pele da nuca. Tontura, náusea e dispnéia ao olhar para cima são sinais claros de que algo não vai bem e requer mudança. O praticante com rigidez torácica deve priorizar a mobilidade na região peitoral antes de trabalhar a flexibilidade na região do pescoço.

Ao elevar o primeiro par de costelas e descer os ombros, aumentamos a profundidade da cintura escapular, harmonizando a curva cervical. Graças aos músculos intercostais, todo o conjunto das costelas sobe, facilitando a respiração.

Não se trata simplesmente de favorecer um peito projetado à frente, tipo militar, mas um peito aberto, que conceda amplo espaço às artérias que irrigam o cérebro e mantenha livre de qualquer obstrução o sistema nervoso dentro do canal raquidiano.

O yogue B.K.S. Iyengar chama a região entre os primeiros pares de costelas e a clavícula de ‘olhos do peito’. Quando a musculatura peitoral está enrijecida, os ombros vêem à frente, o osso esterno desce e os ‘olhos se fecham’. Toda a musculatura posterior do corpo entra em tensão permanente, da base da nuca aos calcanhares.

Tanto no método proposto por B.K.S. Iyengar quanto na prática de Ashtanga Vinyasana Yoga, os ajustes posturais são amplamente empregados para criar condições seguras e necessárias para a evolução dos exercícios.

Posturas de Yoga cujo apoio recai sobre a cabeça ou ombros evidenciam de maneira quase caricatural muitos dos desequilíbrios posturais do praticante, porém as correções e ajustes aqui são difíceis e delicados. De execução aparentemente fácil, posturas como Sirsasana ou Sarvangasana escondem significativo risco de contusão. Se o pescoço é como um mastro de vela, imagine virar o barco de quilha para cima e equilibrá-lo sobre o mastro: a relação de forças se inverte. O corpo das vértebras cervicais é cerca de 50% menor que as lombares e não foi projetado para receber o peso do corpo todo. Assim, mais do que equilíbrio e força, o praticante precisa ter plena consciência de seu corpo para obter um alinhamento preciso na postura.

‘Sem saber onde estamos, não sabemos como chegar’. A consciência corporal deve ser adquirida antes em posturas em pé, sobre as quais temos mais controle do corpo, e evoluir gradualmente. Blocos, cadeiras e cintos podem ser encontrados pelo caminho.

Os desequilíbrios e assimetrias ficam evidentes à medida que aumentamos as exigências sobre a estrutura do corpo, e devem ser observados e corrigidos a tempo de evitar lesões. Ter consciência do alinhamento preciso da cervical e da cabeça, do equilíbrio lateral e ântero-posterior do corpo, da posição dos ombros são pré-requisitos para realizar a postura Sirsasana com segurança, por exemplo.

Para afinar nossa percepção sobre o próprio corpo é preciso coragem para encarar nossas dificuldades de frente e trabalhar com disciplina e desapego na realização de mudanças estruturais. É preciso coragem para se olhar no espelho e buscar não aquilo que queremos ver, mas aquilo que se esconde atrás do olhar.

Asas para Voar

18 out

Todo o grande conjunto formado pelos braços, ombros e escápulas prende-se ao corpo através de uma estreita rota em forma de “s” chamada clavícula, que desembarca no alto do peito por uma pequena articulação, a esterno-clavicular. Podemos facilmente imaginar a imensa liberdade de movimento que esse desenho propõe.

Cintura escapular vista de cima

A conexão dos membros superiores ao corpo não está baseada na robustez de suas articulações ou na precisão dos encaixes, mas na força dos músculos que grudam os braços ao tronco. Nos vertebrados, o encaixe das patas anteriores é de uma timidez notável se comparado à vigorosa articulação do quadril que conecta as patas traseiras à bacia. A estabilidade dos membros superiores não depende, assim, da estrutura articular, mas da força dos músculos que, dispostos em camadas, cresce em complexidade dentre os vertebrados até que alguns de nós possam alçar vôo.

Além da grande mobilidade oferecida por este modelo, ele se presta a proteger os sistemas vitais envolvidos pela caixa torácica, distribuindo o impacto sofrido pelos braços por 10 pares de costelas dispostas em cone, de cima para baixo, como um grande amortecedor de mola.

Em movimento ou parado, sob tensão ou relaxado, a posição do sistema formado pelos braços, ombros e escápulas depende do equilíbrio dos músculos que atuam sobre ele. A resultante das forças não apenas determina a posição dos braços em relação ao tronco, mas adapta continuamente a posição do tórax e, consequentemente do corpo todo, às solicitações dos membros superiores, colaborando para definir nossa postura patente.

Quando os ombros vêem à frente, o peito se “fecha”, a curva lombar aumenta e o tórax é recuado para atrasar o centro de gravidade e diminuir o desequilíbrio. Para manter a horizontalidade do olhar, o pescoço se dobra e o queixo avança.

Quando os músculos das costas são mais curtos que os do peito, os ombros são puxados para trás. O desequilíbrio posterior leva o abdome para trás e o esterno é empurrado para frente, projetando as costelas.

Tais desequilíbrios podem ser congênitos ou funcionais e ter origem em fatores extrínsecos ao tronco. Independente da origem, a correção postural contribui muito para eliminar estas deformidades.

Uma das muitas sacadas do yogi B.K.S Iyengar foi encarar o osso esterno como um painel de controle apto a desencadear mudanças posturais em todo o corpo. O conjunto formado pelas escápulas, braços e clavículas tem no osso esterno sua âncora no esqueleto, “levante o esterno” passa a ser a senha para iniciar a reorganização do tórax no espaço e preparar o corpo para posturas mais equilibradas e saudáveis.

Na postura Dandasana o osso esterno sobe ao mesmo tempo em que empurramos as mãos para baixo como se quiséssemos nos levantar do chão. Os músculos que se prendem às escápulas irão puxar as costelas para cima e alongar a coluna. Dandasana é a base para a maioria das posturas sentadas e o alongamento da coluna cria as condições para que flexões e rotações sejam praticadas de maneira equilibrada e segura.

Dandasana

Ao alinhar as costas é preciso muita atenção para não trazer a lombar à frente, situação evidenciada pela projeção anterior das costelas inferiores (8º a 10º par destacadamente). Esse blefe é muito comum para esconder restrições na mobilidade da pelve e tronco.

Uma postura de Yoga (ásana) é um momento privilegiado de observação e análise. Além de salientar eventuais desequilíbrios do corpo, o ásana expõe as soluções encontradas por nós para sobrepujar e, frequentemente, escamotear as dificuldades enfrentadas na prática de Yoga. Como um fotograma, o ásana aponta o ardil que os olhos não vêem e os sentidos não captam, mostrando os riscos assumidos pelo praticante para atingir determinados objetivos. Habituados que estamos a resultados imediatos, encarar as dificuldades de frente e reorganizar nossa postura consome mais tempo e disciplina do que estamos acostumados a investir.

Em não raras vezes, escolhemos a saída mais conveniente e, no exato momento em que os fins passam a justificar os meios, perdemos toda a riqueza de informações sobre nós mesmos oferecida pelo caminho do auto-conhecimento, pela prática sincera e pelo exercício consciente. Quando optamos pela ilusão do atalho, ironicamente, nos esforçando muito e não saímos do lugar.

A Árvore na Montanha

28 maio

Os dedos se fecham imediatamente após a palma da mão ser tocada. A ação primitiva será aperfeiçoada com o tempo; por hora, apenas alguns reflexos como gritar e sugar podem ser notados com clareza. Quando o mundo puder ser vislumbrado com mais nitidez, valerá o risco de engatinhar em direção ao desconhecido.

No começo, o movimento reage a estímulos de maneira mecânica, de forma reflexa, alheio à consciência e sem as nuances impostas pela volição. Mirando um alvo, os membros do corpo são propelidos no espaço por meio de movimentos rápidos e espasmódicos, fornecendo dados para que o mundo percebido ganhe a consistência do mundo real. As informações coletadas pelo movimento do corpo no espaço comprovam ou colocam em xeque os sinais recebidos pelos órgãos dos sentidos. A abstração dos sentidos, por fim, cede à concretude da vida. Desta maneira o corpo educa os sentidos e influencia a formação da consciência.

No caminho de volta, a precisão dos movimentos cresce na medida em que se desenvolve a consciência. O movimento antes desordenado e reflexo passa a ser modulado pelos estímulos que partem de instâncias superiores do cérebro e seguem em direção a toda parte do corpo. Sob a influência da mesma inteligência que ajudou a formar, os movimentos ficam mais elaborados e precisos.

Com o tempo, mesmo as ações mais complexas são otimizadas e se tornam habituais. A realização de um movimento passa pela escolha de alternativas energeticamente dispendiosas, lentas e potencialmente lesivas até consolidar um atalho rápido e econômico em direção à ação que irá tornar-se padrão. O equilíbrio do corpo existe neste contexto.

Um corpo parado e em equilíbrio alicerça-se sobre as articulações e na tensão muscular, estabelecendo uma base sólida a partir da qual nasce o movimento. Permanecer muito tempo em pé sem apresentar sinais de fatiga ou movimentar o corpo sem dissipar energia em excesso, por exemplo, requer equilíbrio.

A evolução do corpo pode ser capturada em snapshots ao focar sua adaptabilidade ao meio. Na postura da montanha (abaixo), por exemplo, o corpo equilibra-se dos pés à cabeça sobre as articulações e não exige tensão muscular maior que a já instalada. A postura é mantida predominantemente através de arcos reflexos curtos e elementares. Sentir fadiga e dor na manutenção de uma postura que deveria ser natural a partir dos 16 meses de vida denota evidente desequilíbrio.

Tadasana, a postura da montaha.

Quando uma perna é dobrada na postura da árvore, Vriksasana, há aumento do tônus muscular e os sentidos passam a ser solicitados para a realização da postura. A visão e o sistema vestibular irão ativar áreas de controle motor que, por sua vez, inundarão o corpo com impulsos nervosos de cima para baixo, da cabeça aos pés, modulando as contrações que começaram de baixo para cima, a partir do pé de apoio, melhorando a precisão das contrações e aprimorando os movimentos. Com a prática será possível manter esta postura por longos períodos de tempo, sem doses maciças de atenção, pois o corpo aprenderá o caminho para o equilíbrio.

Vriksasana, a postura da árvore.

Ao flexionar o corpo em Virabhadrasana III, além de toda atividade neuromuscular descrita, músculos que não têm função postural serão alistados para o exercício. Fibras musculares de alta tensão tetânica e de baixa resistência à fatiga serão mobilizadas na postura, o que a torna mais complexa que as anteriores. Ainda que a estabilidade em Virabhadrasana III pareça inicialmente algo precário e fora do alcance, o equilíbrio nesta postura é tão passível de ser atingido quanto em qualquer outra.

Virabhadrasana III, a postura dedicada ao herói Virabhadra.

Realocar forças deliberadamente e interferir conscientemente no corpo significa, do ponto de vista neuromuscular, uma prática de “descondicionamento” físico e mental, uma vez que estamos refazendo muito dos “atalhos” criados pelo corpo em direção à estabilidade. Revisitar antigos padrões motores abre uma nova perspectiva sobre o corpo, cultivando sua adaptabilidade e conferindo maior liberdade para responder aos desafios do meio, sempre em mudança.

“O ser humano é estável e deve ser para não ser destruído, dissolvido, desintegrado pelas forças colossais que o rodeiam. Por uma aparente contradição, ele mantém sua estabilidade somente se for capaz de modificar-se de acordo com os estímulos externos e ajustar a resposta ao estímulo. Em certo sentido, ele é estável porque é modificável; a instabilidade é a condição necessária para a estabilidade do organismo. “ Charles R. Richet, Physiologie. Paris, Alcan, 1893.

O Fantasma no Corpo.

10 abr

Faltava ainda separar a mente do corpo. E com a habilidade de um anatomista do renascimento em dissecar cadáveres, o homem desalojou a mente, essa substância constituída de puro pensamento, do corpo.

A substância pensante ganhou status de sujeito e logo passou a designar o próprio indivíduo. Era o uso que cada homem fazia dessa substância que o tornava reconhecido entre seus pares e, ao mesmo tempo, distinto dos demais. Se “penso logo existo” portanto “sou aquilo que penso” e a mente ocupou o lugar do espírito na antítese evangélica corpo-espírito.

O novo ponto-de-vista promoveu ganhos no campo da medicina que evidenciaram, no entanto, um corpo insurgente que enfileirava diante de médicos atônitos uma miríade de distúrbios, cujos sintomas não guardavam qualquer relação com aquele organismo dissecado sobre a maca. Dores agudas, transtornos sensoriais e motores, episódios de amnésia e sonambulismo não tinham sua origem estabelecida no corpo e estavam definitivamente fora do alcance dos bisturis. Sem saída, a mente foi novamente suturada ao corpo para dar sentido à dor, à histeria e à neurose. Assim, de modo enviesado, pelo caminho da anomalia e da doença, a mente reaproximou-se do corpo, ainda que persistisse a priori o profundo hiato entre ambos.

Assim, órfãos do próprio corpo, perdemos contato com nosso organismo. Não se trata de distinguir a dor lancinante decorrente das inflamações severas ou prever a ocorrência de surtos agudos de qualquer espécie, mas em reconhecer as mais sutis ameaças que um ambiente adverso pode representar à nossa saúde. Dissolver a insensibilidade amalgamada durante a vida e refazer as conexões perdidas confere maior discernimento sobre nossas interações com o mundo. Aprender a ouvir o corpo nos ensina sobre quais alimentos consumir, adverte-nos sobre a insalubridade de determinado lugar, repele o perigo e cultiva bem-estar. Enfim, unir o que não está separado – corpo e mente – estimula a longevidade porque dá voz ao impulso primeiro que rege cada uma de nossas células, a sobrevivência.

Saturar o corpo com estímulos através da realização de atividades físicas que explorem a riqueza de movimentos recria os canais de comunicação negligenciados e refaz a intimidade perdida. Desenvolver exercícios que ampliem o potencial do corpo não significa submetê-lo a um propósito estético-funcional, pois isso nada mais faz além de corporificar o ego e toda sua sintomatologia.

Impor ao corpo a vontade e a pulsão significa usufruir da grande adaptabilidade de nosso organismo para tentar encaixá-lo (to fit) na pessoa que almejamos ser. Ter o sujeito descrito em termos de medidas e índices não significa exatamente superar a dualidade corpo-mente, mas simplesmente instalar o corpo no processo de individuação antes ocupado pela “substância pensante”.

Exercícios físicos pródigos em estímulos neuromusculares expandem a consciência a todo o corpo e nos capacita a ouvir e refletir sobre os impulsos provenientes do corpo.

Fantasmas em nosso próprio corpo, observamos deslumbrados as emoções se formando no córtex orbital do cérebro ou a memória estimulando o lobo temporal medial nos exames de neuroimagem. O fascínio reside em reencontrarmos no corpo algo que nos havia sido seqüestrado por um discurso artificial e que excedeu em muito o campo do método para, aos poucos, nos desvelar aos pedaços.

Explorar os limites do corpo amplia as possibilidades do sujeito e não as reduz, pois evidencia a indistinção entre mente e corpo.

Sobre Peixes e Homens.

28 fev

Sem um chão firme, atolamos. Afundamos até que o solo abaixo de nossos pés se compacte o bastante para impedir nossa viagem Terra adentro. Concentramos todo nosso peso na pequena área compreendida entre os calcanhares e os dedos dos pés. A partir desta parca base de apoio criamos um alicerce para erigir nosso corpo do chão com todos os seus segmentos e apetrechos. Assim descolamos da superfície em direção ao espaço.

Quando saltamos da água para a terra firme, há pouco mais de 380 milhões de anos atrás, o esqueleto, antes sustentado gentilmente pela água em toda sua extensão, passou a custear nossa empreitada contra a gravidade. Um grande número de músculos se desenvolveu para bancar essa excursão em direção à terra firme e conferir uma estrutura adequada para que os ossos pudessem dar conta do recado e continuar a exercer suas funções.

Nos mares e rios, enquanto desloca uma quantidade de água equivalente a sua densidade, um peixe não afunda nem bóia. Sobe à superfície ou mergulha coordenando seu deslocamento no eixo vertical através de um sistema intrincado de controle biofísico, gerenciado por um cérebro complexo e receptores de pressão extremamente sensíveis. Sair da água e desgarrar-se do chão não foi fácil e tivemos que rastejar muito no barro antes de começar a engatinhar em terra firme.

Não se tratava apenas de respirar ar ao invés de água. Deixar mares e rios para trás representou sobreviver à ausência da sustentação oferecida pela água, passar a suportar a força descendente da gravidade e adaptar-se à resistência ascendente do chão ao peso. Finas e delicadas barbatanas adensaram-se na forma de patas musculosas.

De quatro no chão, os músculos se entrecruzaram em toda a extensão do torso em várias camadas, sustentando e ligando a coluna vertebral entre a bacia e os ombros. Como uma ponte pênsil, o tronco foi erguido do chão entre as patas da frente e de trás, suspenso pelas linhas de força que interligam toda sua estrutura anatômica de forma global. Qualquer movimento, do mais amplo deslocamento ao gesto mais delicado, mobiliza todo o corpo de modo a equilibrar suas incursões no espaço. Pata anterior direita para frente, posterior esquerda para trás; enquanto a bacia apoia os ombros, os ombros equilibram a bacia e assim o corpo campeou sobre os mais diversos tipos de terreno, vegetação e clima.

Levou ainda algum tempo antes de conseguirmos tirar as patas anteriores do chão para derrubar nosso almoço das árvores ou esticar o braço pela janela do carro para pegar um lanche no drive thru. Aos trancos e barrancos, adquirimos a forma mais adequada para desempenhar as funções necessárias à nossa sobrevivência, sem abandonar completamente algumas características em desuso, carregando em nosso corpo toda a história que nos trouxe até aqui. E a história continua…

“Apesar de nossa evolução como bípedes, continuamos sendo quadrúpedes em toda nossa estrutura, como demonstram nossos gestos. (…) Sofremos as seqüelas dessa evolução ainda incompleta” (Marcel Bienfait).

Responder com liberdade às exigências do meio é um estatuto do corpo e uma premissa adaptativa sem a qual adoecemos. Contar com as condições para que as solicitações do meio possam ser solucionadas pelo corpo, promovendo as mudanças necessárias de modo eficaz, sem limitações e isento de dificuldades extraordinárias, é sinônimo de uma vida longa e sem sofrimento.

“Quando o homem levantou seu corpo do chão, assumindo a postura ereta, as desvantagens de se apoiar sobre uma base pequena foram enfrentadas por vários dispositivos e através de mudanças estruturais. Estas mudanças se mostraram insuficientes para resolver todos os problemas. Como consequência, o funcionamento do esqueleto como um mecanismo de proteção é frequentemente colocado em risco por ajustes mecânicos inadequados. A inteligência humana deve ser aplicada a este problema” (Mabel E. Todd).