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Fora dos Trilhos

4 mar
Transformation, 2011 Ville Andersson
Transformation. Ville Andersson.

O maior peso que somos capazes de carregar é igual ao peso suportado pelo nosso ponto mais fraco. Na tentativa continua e diligente de nos esquivarmos deste ponto, nascem desequilíbrios posturais importantes.

Roubar dos pontos mais suscetíveis o trabalho árduo para entregá-lo aos segmentos mais fortes e estáveis do corpo é uma coisa que fazemos o tempo todo no intuito de superar nossas dificuldades.

Pode-se buscar corrigir este déficit fortalecendo isoladamente os locais comprometidos. É possível até mesmo recrutar algumas poucas fibras de um único músculo através de estímulos elétricos. Não basta, porém, fortalecer o elo mais fraco, é preciso reintegrá-lo à corrente.

Desenvolver partes específicas do corpo é tão dispendioso quanto ineficiente. Na prática, não é possível conceber um corpo capaz de mover-se no espaço pela ação exclusiva de apenas um de seus segmentos. As interações mais distantes são tão relevantes quanto as afinidades mais próximas e diretas. O corpo desintegrado pode apresentar força e mobilidade, mas não expressa coerência.

Quando levantamos um peso, recrutamos muito mais que os músculos diretamente relacionados à tarefa. As estruturas que controlam, estabilizam e mantém o equilíbrio do corpo como um todo são solicitadas. O controle integrado da postura determina a performance funcional.

“Os ganhos de força podem ser conquistados sem mudanças estruturais no músculo, mas não sem adaptações neurais” (Roger Enoka). A força não é uma característica do músculo, mas do sistema nervoso como um todo e, portanto, todo o corpo deve ser objetivado no exercício do movimento.

Nos estúdios e academias de ginástica, os limites impostos ao corpo pelas máquinas, equipamentos e aparelhos têm lugar privilegiado na reabilitação do corpo enfermo, mas ao cercearem a amplitude e os planos de movimento, impedem a transferência dos ganhos conquistados para além dos parâmetros trabalhados. Há pouca equivalência entre o ambiente “in vitro” que circunscreve o movimento nestas condições e a imprevisibilidade da vida diária ou da prática esportiva.

Ao buscar a precisão do gesto dentro das infinitas possibilidades do movimento acabam sendo deixados de fora o erro, o desequilíbrio e a imprevisibilidade – variáveis que devem ser incorporados ao exercício na qualidade de instabilidade e assim aproximá-lo do real.

Quando o caminho que trilhamos deixa de ser regular e previsível, o automatismo é abandonado e o cortex motor assume a responsabilidade pela manutenção da marcha, abrindo espaço para o aumento do repertório gestual.

Com o aumento das possibilidades para a correção de eventuais desequilíbrios, abre-se caminho para mudanças nas bases sobre as quais o movimento está construído: a postura. O desequilíbrio, nestas condições, muito mais do que evitado, deve ser buscado.

Livros legais: Neuromechanics of Human Movement – 4th EditionTherapeutic Exercise: Foundations and Techniques 5th editionPrinciples of Neural Science –  5th edition.

Onde está Mabel Todd?

14 set

MET

Mabel Elsworth Todd

A professora de oratória Mabel E. Todd (1880 – 1956) percebeu que a dificuldade enfrentada por seus clientes em se expressar estava intimamente relacionada a questões emocionais, posturais e motoras. O olhar acurado desta novaiorquina de Siracusa a levou muito além: através de uma linguagem simples, que se esforçava para descrever fenômenos ainda hoje complexos, publicou seu único livro: “The Thinking Body” (1937).

Nunca editado em língua portuguesa, “The Thinking Body” inova ao trazer já à época a indissociável relação entre corpo e mente. Ler Mabel Todd hoje significa buscar em suas linhas o que ainda há para ser descoberto sob a argúcia de sua percepção.

Segue a tradução do capítulo de abertura: “A Função e a Forma da Dinâmica Humana”.

Vivendo, o corpo carrega seu significado e relata sua própria história, em pé, sentado, andando, acordado ou dormindo. Ele escancara a vida na cara do filósofo e nas pernas do bailarino. Um mundo casual enfatiza o rosto. A memória gosta de trazer à tona o corpo todo. Não é a cara de nossos pais que vem à tona em nossas lembranças, mas seus corpos em suas cadeiras, comendo, costurando, fumando, fazendo suas atividades costumeiras. Nós nos lembramos de cada um como um corpo em ação.

O comportamento é raramente racional; ele é habitualmente emocional. Nós podemos dizer palavras sábias como resultado da razão, mas o ser como um todo reage ao sentimento. Para cada pensamento sustentado por um sentimento há a alteração de um músculo. Os padrões musculares primários tem sido a herança biológica do homem, o corpo do homem como um todo grava sua conduta emocional.

O explorador e o pioneiro ficam em pé; o capataz e o magnata recuam. Hamlet anda, Shylock estende sua mão, Carmem apoiando-se sobre um pé, com mãos nos quadris e com olhos sobre o ombro, exige.  As posturas na tradição dramática cristalizam a teoria de seus atores, ensinam o desenho de seus corpos e o jovem estuda os retratos das qualidades épicas no movimento. A culpa, a astúcia, a perspicácia, a mesquinhez, o êxtase e a sedução aparecem em certos arranjos de braços, mãos, pescoço, cabeça e ombros. Assim, o conteúdo dos tempos é apreendido pela inteligência, mas interpretado e levado a cabo pelo movimento. A personalidade entra na estrutura – pela negação ou afirmação de uma pessoa. Esse é um aspecto da evolução da vida.

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Exercícios no estúdio de Mabel Todd em Boston

A auto-expressão está nos equipamentos mentais e emocionais, temperamento, personalidades, experiências e preconceitos, influenciando e controlando a relação das partes do corpo com o todo. Esse equipamento inclui a unidade motora para o movimento – a ação neuromuscular sobre os ossos. Músculos que agem automaticamente. Quando agem, movem os ossos. A posição dos ossos no homem desempenha um papel fundamental em seu senso de controle e posição no mundo. Como ele posiciona os ossos determina seu grau de auto-controle; eles são continuamente alinhados e desalinhados ao ritmo do movimento. Mecânica, física e fisiologicamente, o corpo humano é compelido a lutar por um estado de equilíbrio.

A abordagem fisiológica do estudo da dinâmica do corpo está baseada no fato de que o sistema neuromuscular é a unidade que determina o movimento organizado. Mecanicamente, unidades separadas do corpo estão se movimentando através do tempo e do espaço. A unidade neuromuscular é a unidade motriz do movimento. Fisiologicamente vários estímulos preparam os músculos para sua resposta. O estímulo, quer seja interno ou externo, deve ser correlacionado. Isso envolve fatores psicológicos que afetam a resposta.

Para cada estímulo existe uma resposta motora. O número de partes envolvidas na resposta motora está condicionado pelo comportamento, inserção social, assim como pela sua compleição física. O indivíduo é uma totalidade e não pode ser segregado em intelecto, corpo ou fatores sociais. Tudo está correlacionado.

A correlação entre os estímulos viscerais, psíquicos e periféricos sublinham a resposta muscular e envolvem completamente o homem. O corpo, animado como um todo, vem a ser um instrumento sensitivo que responde aos estímulos com uma sabedoria muito além daquela atribuída pelos homens à consciência ou razão.

Nós agora percebemos que para a economia física do indivíduo, muitos sistemas devem estar trabalhando em uníssono e equilíbrio. Nós percebemos que a função precede a estrutura, o pensamento precede a mente, o verbo precede o substantivo, algo só é experimentado após a coisa toda ter sido feito. Tudo se move, e no caminho do movimento, a vida é objetivada.

A Árvore de Andry.

16 jul

Nuncio Paci

Ilustração Nuncio Paci

“tudo o que se faz ou acontece de novo é geralmente chamado de pathos. O conceito está ligado a padecer, pois o que é passivo de um acontecimento padece deste mesmo. Portanto, não existe pathos senão no movimento, na imperfeição.” Descartes

A adversidade nunca foi um obstáculo ao corpo; o tempo, sim. Pois é preciso tempo para que as estruturas mais rígidas do corpo cedam, as mais delicadas enrijeçam, as mais sutis evidenciem-se. É preciso tempo suficiente para entender que o corpo não é expressão instantânea de nossa vontade, mas resultante de forças sobre as quais temos pouca ou nenhuma ascendência.  É da natureza do corpo humano sua adaptação e mudança, pois nada é inerte afora a morte, o rigor mortis.

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Frontispício do livro Orthopaedia, de Nicolas Andry, para quem os desvios posturais tinham causas ósseas.

No caminho em direção à adaptação, adotamos posturas potencialmente prejudiciais e movimentos arriscados que podem nos expor a lesões recorrentes. O percurso que seguimos em não raras vezes flerta com a dor sem tocá-la e é dispendioso energeticamente sem exaurir nossas forças. O motivo por que escolhemos um caminho tão inconveniente não pode ser explicado em termos antálgicos ou energéticos, pois há aspectos que prevalecem sobre estas dimensões.

O equilíbrio reúne as forças dispersas no curso da ação e as converte em um eixo, um vetor através do qual o movimento se expressa. Para ser eficiente, essa resultante deve privilegiar a estrutura que lhe dá vida, afora isso é dispendiosa energeticamente, e tão mais dispendiosa será quanto mais afastar-se da estrutura que a sustenta. Equilíbrio implica, portanto, na escolha de uma postura em convergência com a estrutura que a mantém.

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Foto arco romano

Os estímulos que interferem nesse eixo econômico e indolor originam-se, porém, de fontes adjacentes não relacionadas diretamente à imediata manifestação somática, mas de raízes histórico-emocionais. Os centros que modulam os estímulos sensoriais, o tônus postural e a coordenação motora são estruturalmente reflexos de nossa evolução enquanto espécie e funcionalmente alvo de nossa experiência vivida, interferindo sistematicamente em nosso modo de ser no mundo.

Cortex

Relação topográfica cortical e cerebelar, por Netter.  CCAS*, e.g., expõe disfunções posturais e emocionais em lesões cerebelares.

Temos assim, na expressão do corpo, algo completamente singular e que foge de sua uniformidade morfológica, pois é conseqüência do acaso. Serão as circunstâncias, as experiências vividas, que transformarão o corpo em sujeito.

A força que advém desta afirmação traduz-se na dificuldade em se quebrar padrões posturais nocivos ou dissociar movimentos dolorosos.  Devemos assumir, portanto, que o ruído que molda o movimento exibe, em grande medida, a identidade do ser. Em última instância, ao mudar o curso da ação propõe-se não apenas uma nova postura, mas uma nova maneira de estar no mundo.

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Postura de Yoga Adhomoukha Svanasana adaptada. A correção de um padrão postural depende da apresentação de um novo paradigma– Clínica Ortopedia e Traumatologia FCS Univap

Para recuperar os parâmetros sobre os quais o movimento se desenvolve e restabelecer o equilíbrio, não basta reabilitar a capacidade perdida, é preciso buscar um novo modelo que torne o existente imediatamente obsoleto, carregando per si o gene da mudança.

Para tanto há de se apelar à inteligência e instruir o indivíduo em torno de uma proposta afirmativa ao invés de lhe negar o realizado.

“ a vontade de poder não é nem um ser, nem um devir, é um pathos”.  Nietzche

Pilates com Júnia Rodrigues

3 jul

Júnia (2)

Em Agosto, a profa. Junia Rodrigues passará a ministrar aulas de Pilates aqui no estúdio de Yoga e Pilates. Graduada em Educação Física pela Unicamp, Junia formou-se em Pilates pela Physicalmind Institute de Nova York, escola de Eva Gendry – senior teacher que trabalhou ao lado de Joseph Pilates durante 22 anos.

Dentro de uma abordagem global, que busca integrar corpo e mente à intensa prática de Pilates solo, as aulas com Junia acontecerão às terças e quintas das 8:00 às 9:00 no estúdio da R. Carlos Chagas, 122, Jardim Esplanada em São José dos Campos.

Aula inaugural no sábado, 03 de agosto, das 9:00 às 10:00 da manhã. Inscreva-se aqui.