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Postura, Posição e Pose.

19 jan

proper-sitting

Você se dirige à saída da sala, mas há um grupo de pessoas no caminho. Cogitar “deixar a sala”, “caminhar em direção à porta” ou “atravessar o grupo de pessoas” determina como você se move em direção à porta de saída. A maneira como você encara o problema produz uma experiência emocional que dispara sinais para a periferia do corpo, aos músculos, ao coração, aos vasos sanguíneos, às glândulas adrenais e supodoríparas, iniciando uma respostas autônoma para cada uma das três acepções, o que irá interferir de modo peculiar na execução do movimento.

Por outro lado, a experiência cognitiva da emoção só ocorre após certas mudanças fisiológicas terem tomado conta do corpo. O que sentimos deve-se à nossa interpretação sobre alterações na pressão arterial, freqüência respiratória e concentração de certos hormônios no sangue, por exemplo. Por estranho que pareça, também “ficamos tristes porque choramos, zangados porque temos fome e sentimos medo porque trememos” (William James).

É precisamente a experiência cognitiva da emoção – o sentido atribuído por nós aos sinais do corpo – e não a emoção em si – como o aumento da concentração de adrenalina no sangue -, que desencadeia muitas das respostas musculoesqueléticas levadas a cabo por nós (Eric Kandel).

Sem título

Modelo básico do sistema neural que controla as emoções (Kandel)

Situada entre sujeito e objeto, apreciando continua e sistematicamente as alterações do corpo, a consciência torna inteligível os sinais eletroquímicos provenientes da periferia e provoca respostas condizentes aos estímulos recebidos.  Surgem desta leitura contínua que fazemos de nós mesmos, os parâmetros que guiam o movimento: a postura.

Não é difícil observar o quanto a postura de uma pessoa cheia de energia e bem-estar difere daquela assumida pelo indivíduo deprimido. A partir daqui, desenha-se claramente a possibilidade de que mudanças posturais, desencadeadas por exercícios físicos, influenciem determinantemente instâncias cognitivas e emocionais do indivíduo (neocorticais), promovendo mudanças significativas em seu modo de ser e estar no mundo.

Para tanto é preciso olhar para além da progressão de carga ou resistência, do aumento de amplitude de movimento ou do desempenho cardiovascular para buscar resultados que se encontram fora da planilha de treinos.

“A alegria e a tristeza são o próprio desejo, enquanto ele é aumentado ou diminuído, estimulado ou inibido por causas exteriores” (Espinosa).

Sistema Muito Nervoso.

5 ago

Escultura de Isidro Ferrer.

A maneira como nos movemos depende diretamente de como nos sentimos. O que sentimos depende diretamente de como nos movemos.  A comunhão entre movimento e sensibilidade consagra a lógica que rege e define o sistema nervoso.

Acordados ou dormindo, em alerta ou fatigados, famintos ou saciados. Expressamos continuamente o que sentimos através de nossas emoções e ações. O sistema nervoso determina nossa maneira de sentir e agir, sendo igualmente moldado e estruturado por nossas demandas.

Ilustração Puño

Longe de imaginá-lo pronto e acabado, o corpo se desenvolve a partir de reflexos fundamentais que estão presentes desde a gestação e se modificam gradualmente até que alcancem o mais alto nível de controle cortical consciente. O organismo é, portanto, a própria resultante entre vetores inatos e extrínsecos, e conforma um ser único que usufruirá de uma perspectiva singular da realidade.

O corpo  expressa continuamente nossa maneira de estar no mundo, nossa identidade,  e não pode ser entendido como um objeto separado do sujeito.  Sendo expressão, melhor é entendê-lo como obra de arte, uma música, uma pintura, ou seja, algo que existe ao irradiar continuamente seu significado.

Agence Eureka

Somos um sujeito corpóreo. Não há fantasma sob nossa pele ou diferença ontológica entre mente e corpo. Existem, sim, duas maneiras de caracterizar o mesmo organismo: uma que aborda o corpo em relação ao mundo e outra que se refere ao corpo enquanto expressão da subjetividade.  Para entender o indivíduo, portanto, devemos perguntar como este corpo se relaciona com o mundo e como se relaciona com si mesmo.

Pablo Picasso, femme assise devant la fenetre. 1937

A análise do hiato entre corpo enquanto subjetividade e do organismo no mundo abre uma janela para contemplar a natureza do indivíduo.  Não se trata mais de observar sua essência causal, distinta do mundo, reflexo da vida, mas notar sua natureza interventora, que conecta perspectivas, une ângulos, constrói e reconstrói continuamente o mundo, criando a própria existência.

“Quando percebo, não penso o mundo, ele organiza-se diante de mim.” Merleau Ponty

A Densidade da Carne.

25 mar

estampa de 2headsnakes

Imagens, sonhos, neurônios,

Desejos, paixões, amores, hormônios,

Crenças, virtudes, apatia, serotonina,

Humor, coragem, iniciativa, adrenalina.

Abstrato e concreto, mental e corpóreo, material e imaterial.  Nossa inesitante distinção entre o tangível e o etéreo parece brotar intuitivamente das coisas e sugere que não apenas temos claro domínio sobre tudo o que é físico, mas insinua que usufruímos de certa noção sobre a quinta-essência do mundo.

Chamamos de concreto tudo aquilo que guarda evidente relação com o corpo e pode ser percebido pelos sentidos.  O corpo é fonte de materialidade e confere ao mundo as dimensões de espaço e tempo, organizando as coisas para que possamos entender e aprender como tudo se relaciona.

“Entender é perceber, implicitamente, os efeitos do movimento na percepção, na estimulação dos sentidos. Um objeto torna-se maior e sabemos que nos aproximamos dele. Seu ruído diminui e entendemos que ele se afastou.” – Alva Noe.

A mesma perspectiva que nos leva ao entendimento das coisas expõe impiedosamente nossas limitações físicas, nossa condição humana, nossa natureza, a relatividade de tudo aquilo que julgamos conhecer.  O abstrato surge, assim, para transcender o tempo e sobrepujar o espaço, circunstanciando o que não pode ser alcançado, descrevendo o que nos escapa ao olhar.  Tal como uma imensa metáfora, o abstrato nasce para transpor o corpo e, em não raras vezes, termina por negá-lo acintosamente.

A negação do corpo é recurso amplamente proposto pelas religiões a fim de dissimular a natureza efêmera do homem. foto: Steve Evans

A apropriação das coisas pelo corpo tende a desmistificar o mundo pois desvenda seu conteúdo mais íntimo, arrebatando significados e construindo conexões.  Desfrutar de fluência sobre o movimento aponta,  portanto, para o que há de concreto sob a nódoa do abstrato.

O mundo se revela ao observador através do movimento. Assim, a experiência perceptiva ganha vida graças ao domínio de “habilidades físicas”. O que percebemos, enfim, não é uma representação de mundo construída dentro de nosso cérebro, mas a resultante de nossa intervenção no espaço, algo que fazemos e que acontece em nosso corpo como um todo.  Nossa habilidade em perceber não é um processo decorrente exclusivamente de nosso equipamento sensório-motor, mas também por ele. O corpo em movimento é o quinto sentido.

“O corpo é o único instrumento concreto sobre o qual você pode concentrar-se. O corpo cria condições para a introspecção e meditação”  — B.K.S. Iyengar

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