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Aprender a Desenhar.

24 jul

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BKS Iyengar por Coni Hörler

O ser humano percorre o mais longo aprendizado dentre todas as espécies até conseguir movimentar-se de maneira autônoma. O que parece ser uma desvantagem competitiva esconde uma chave evolutiva: O homo sapiens é uma página em branco, onde será desenhado parte de seu sistema nervoso, adaptando o indivíduo às condições do meio e do momento.

Do movimento reflexo realizado pelo recém-nascido até o gesto consciente executado com precisão, há um longo caminho.  A diferenciação entre o grosseiro e o sutil demanda aprendizado. Se ensinado, o sistema nervoso passa a distinguir o movimento voluntário exigido para o desempenho de determinada atividade motora, daquele componente supérfluo proveniente do hábito ou imaturidade, podendo inibí-lo.

Neste processo, caso um segmento do corpo seja negligenciado, a área no cérebro relativa a sua atividade também se retrai, podendo mesmo deixar de existir.  Por outro lado, se para suprir uma deficiência ou atender a uma necessidade certos movimentos passam a ser exigidos, os neurônios necessários à sua execução irão estabelecer novas conexões.

O neurologista Wilder Penfield já havia mostrado que a área do corpo representada no cérebro é proporcional à freqüência e precisão com que é requisitada. Assim, enriquecer o vocabulário gestual aumenta a representação cortical referente à área trabalhada.  Por outro lado, movimentos que ocorrem ao mesmo tempo tendem a estabelecer uma forte correlação nervosa, o que torna sua diferenciação mais difícil à medida que o tempo passa.

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Representação do corpo em função da área cortical. Movimento voluntário. Penfield.

Séries intermináveis de exercícios repetitivos tendem a consolidar movimentos parasitários e construir uma barreira ao aprendizado. Gestos compulsivos, resistidos e automáticos não contribuem para o desenvolvimento motor porque exigem aumento na quantidade de estímulos nervosos e não qualidade, tornando o corpo emburrecido com o tempo, pois inapto a mudanças. Em termos neuromusculares, a repetição é inimiga da consciência.

São os movimentos sutis e lentos que abrem espaço para a reflexão entre a vontade e a ação. Quando a atenção recai sobre o gesto, em seus mais ínfimos detalhes, cria-se espaço para que mudanças possam ser incorporadas ao movimento, enriquecendo-o.

A espontaneidade , a imprevisibilidade e o erro fazem parte do aprendizado motor e ajudam a desenvolver uma inteligência que irá preparar o corpo para as mudanças mais radicais, dentre todas, aquelas impostas pelo tempo.

Estrelas do Dia.

31 maio

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Escultura de Elisabet Stienstra

Ao olhar para o Sol não enxergamos as estrelas no céu.  Quando andamos, não nos damos conta da textura do solo.  Ao carregar algo pesado, não atinamos para o peso de nossas roupas. Fechamos intuitivamente os olhos para aumentar a acuidade sobre os outros sentidos. Sensibilidade e estímulo são grandezas inversas. Para aumentar a sensibilidade é preciso reduzir os estímulos.

Tornar evidente aquilo que é sutil requer quietude. Mas somos movimento. Nada há em nós que remeta à imobilidade. E assim, fechamos intuitivamente os olhos sempre que precisamos aumentar a acuidade sobre outro sentido. Para por um fim à nossa impermanência crônica é preciso aprender a silenciar corpo e mente.

Quando nos deitamos, abrimos caminho para a percepção de movimentos mais sutis.  Observamos imediatamente a queda da freqüência cardíaca e a respiração torna-se mais lenta. Na busca pela passividade ficam evidentes os pontos de tensão que persistem à entrega e ao relaxamento.

Rachel Hull em Supta Badakonasana

Rachel Hull em Supta Badakonasana

Manter a atitude mental correta é tão importante quanto difícil. Neste momento, em que o corpo inerte expõe suas dificuldades, perceber a diferença entre tensão e relaxamento, destreza e imperícia, facilidade e bloqueio, exige concentração. Não cabem aqui devaneios, cuja única propriedade é a de nos afastar do momento presente.

“Relaxamento não é negação, não é passividade. O oposto de ação não é inação, mas presença”. Mabel Todd

Neste contexto, a realização de posturas de Yoga de maneira a reduzir os esforços inerentes à sua execução, ou restaurativas, tende a manifestar a tensão  de estruturas incapazes de relaxamento passivo.

Eric Petersen

Ilustração Eric Petersen

O desenvolvimento de posturas restaurativas é atribuído ao mestre indiano B.K. S. Iyengar que, a partir de equipamentos simples, acostumou-se a adaptar as posturas para que pudessem ser executadas por mais pessoas.

Tradicionalmente exigente e de realização complexa, os ásana – posturas de Yoga – dependem de vigor e saúde do praticante para sua execução, o que nem sempre está disponíveis no momento certo.

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Postura Balasana com suporte.

Ao incorporar o uso de blocos, mantas e cintos às posturas, tornou-se possível modular o ‘input’ sensorial no momento do exercício, enfatizando, inibindo ou bloqueando o movimento de diversas maneiras, propiciando sempre o desenvolvimento de uma nova consciência sobre o corpo e sobre si mesmo, mais aguda e elaborada.

“Posturas restaurativas são experiências tão sutis que é fácil esquecer-se do quanto podem ser poderosas. “  Judith Lassater