Tag Archives: Iyengar

Estrelas do Dia.

31 maio

Elisabet-Stienstra-Sculpture- 2001

Escultura de Elisabet Stienstra

Ao olhar para o Sol não enxergamos as estrelas no céu.  Quando andamos, não nos damos conta da textura do solo.  Ao carregar algo pesado, não atinamos para o peso de nossas roupas. Fechamos intuitivamente os olhos para aumentar a acuidade sobre os outros sentidos. Sensibilidade e estímulo são grandezas inversas. Para aumentar a sensibilidade é preciso reduzir os estímulos.

Tornar evidente aquilo que é sutil requer quietude. Mas somos movimento. Nada há em nós que remeta à imobilidade. E assim, fechamos intuitivamente os olhos sempre que precisamos aumentar a acuidade sobre outro sentido. Para por um fim à nossa impermanência crônica é preciso aprender a silenciar corpo e mente.

Quando nos deitamos, abrimos caminho para a percepção de movimentos mais sutis.  Observamos imediatamente a queda da freqüência cardíaca e a respiração torna-se mais lenta. Na busca pela passividade ficam evidentes os pontos de tensão que persistem à entrega e ao relaxamento.

Rachel Hull em Supta Badakonasana

Rachel Hull em Supta Badakonasana

Manter a atitude mental correta é tão importante quanto difícil. Neste momento, em que o corpo inerte expõe suas dificuldades, perceber a diferença entre tensão e relaxamento, destreza e imperícia, facilidade e bloqueio, exige concentração. Não cabem aqui devaneios, cuja única propriedade é a de nos afastar do momento presente.

“Relaxamento não é negação, não é passividade. O oposto de ação não é inação, mas presença”. Mabel Todd

Neste contexto, a realização de posturas de Yoga de maneira a reduzir os esforços inerentes à sua execução, ou restaurativas, tende a manifestar a tensão  de estruturas incapazes de relaxamento passivo.

Eric Petersen

Ilustração Eric Petersen

O desenvolvimento de posturas restaurativas é atribuído ao mestre indiano B.K. S. Iyengar que, a partir de equipamentos simples, acostumou-se a adaptar as posturas para que pudessem ser executadas por mais pessoas.

Tradicionalmente exigente e de realização complexa, os ásana – posturas de Yoga – dependem de vigor e saúde do praticante para sua execução, o que nem sempre está disponíveis no momento certo.

balasana

Postura Balasana com suporte.

Ao incorporar o uso de blocos, mantas e cintos às posturas, tornou-se possível modular o ‘input’ sensorial no momento do exercício, enfatizando, inibindo ou bloqueando o movimento de diversas maneiras, propiciando sempre o desenvolvimento de uma nova consciência sobre o corpo e sobre si mesmo, mais aguda e elaborada.

“Posturas restaurativas são experiências tão sutis que é fácil esquecer-se do quanto podem ser poderosas. “  Judith Lassater

Caminho de Volta.

6 maio

‘I walk alone’ de Gottfried Helnwein (2003)

Todos nós temos um potencial latente, não desenvolvido por completo, acumulado à custa do esgotamento de sistemas mais econômicos e confortáveis. De maneira congênita, apoiamos nosso desenvolvimento sobre estruturas mais convenientes, repetindo padrões de movimento à exaustão.

Com sulcos profundos cavados no caminho da ação, tendemos a incorrer na vala já aberta dos enganos, a despeito da riqueza de movimentos disponível. Nossa conduta motora está dominada por atividades reflexas inconscientes, reforçadas e consolidadas pelo tempo.


Protuberâncias e sulcos na cabeça do úmero evidenciam-se com o tempo em função das tensões exercidas pelos tendões que cruzam a articulação.

Muitas vezes, um movimento não é deturpado durante sua realização, mas em sua concepção. Por não participar de nossa narrativa motora, determinado movimento simplesmente não é concebido e, portanto, a chance de realizá-lo inexiste.

Assim, o desenvolvimento do potencial motor passa, necessariamente, pelo aumento de seu repertório.

Atividades físicas que exploram a riqueza e a diversidade de movimentos não são, em si, garantia de alteração na maneira como respondemos aos desafios propostos, tampouco de mudança nos padrões adquiridos. Sem a nossa intervenção deliberada, percorreremos sempre o mesmo atalho, ainda que de maneiras diferentes e de acordo com a natureza da atividade física proposta.

Trilhar um caminho realmente diferente e sem obstruções requer disciplina para abrir uma picada em meio a padrões consolidados e enfrentar percursos frequentemente mais longos e tortuosos.

Liberdade com disciplina é liberdade de fato. (BKS Iyengar).

O desenvolvimento motor inicia-se pela estabilização da cabeça, do tronco e, por último, dos membros, seguindo uma direção cervico-caudal. A aprendizagem de movimentos coordenados, entretanto, segue o caminho inverso, propagando-se das extremidades do corpo em direção à cabeça.

Desde nosso desenvolvimento embrionário, a posição da cabeça influi no movimento total do corpo. Virar a cabeça para o lado e olhar um objeto leva imediatamente o pescoço, os ombros e o tronco na mesma direção. Quando agarramos o objeto, são os dedos das mãos que irão recrutar cotovelos, ombros e tronco para movimentá-lo. O caminho de ida é diferente do caminho de volta.

Aos 6 meses de vida os movimentos descontrolados dão lugar a um controle progressivo da cabeça, dos membros e do tronco.

O movimento irradiado a partir das extremidades do corpo, onde estruturas delicadas contam com grande mobilidade e precisão, interfere na organização de estruturas mais fortes, responsáveis pela manutenção postural, por exemplo.


Ameya Gokhal 2008. BKS Iyengar ajustando praticante de yoga. 

Dispositivos complexos como as mãos e os pés reorganizam o movimento global do corpo ao conectarem-se a unidades de transição como os ombros, quadris e escápulas, promovendo mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o espaço. A propagação de um movimento voluntário para outro não é causal e segue um padrão específico dos grupos musculares (Charles Sherrington).

A implicação das extremidades do corpo no aumento do repertório somático  possibilita a aprendizagem de movimentos antes desconhecidos. Só então uma a atividade física que explore a riqueza de movimentos poderá promover a mudanças de fato.

A Janela do Porão.

28 jan

Foto de Danielle Tunstall. Sem título.

“Cinco janelas na alma se abrem

Do início ao fim os Céus distorcem,

E levam você à grande burla

De que enxerga com e não através delas

De que nasceu numa noite e irá perecer na escuridão

Enquanto a alma descansa em um imenso clarão”

The Everlasting Gospel de William Blake

Abaixo da pele, os estímulos sensoriais são difusos, sua localização ambígua, a intensidade fraca. Sob a derme mergulhamos em uma região de muitas sombras e pouca luz.

O interior do corpo é parcialmente velado à percepção porque os receptores sensoriais encontrados dentro de nós são inferiores em número e variedade aos localizados na superfície. O repertório de respostas obtido de nossos órgãos, portanto, é mais limitado. Assim, somos capazes de discriminar com precisão milimétrica a distância entre dois pontos com os dedos das mãos, mas dificilmente distinguimos uma cólica renal de uma lombalgia.

Escrita em Braille

Podemos sentir o pulso sanguíneo irrigando os tecidos, o movimento visceral, a pressão intracraniana. A introspecção mostra que a escuridão dentro de nosso corpo não é absoluta, mas essa ausculta demanda concentração e treino. O organismo não se revela de imediato e, em regra, somos incapazes de distinguir órgãos, tecidos ou sistemas.

“Diferenças culturais demonstram que certos níveis de apatia visceral podem estar associados à insensibilidade ocidental, podendo ser superados através de um esforço sistemático nessa direção. A consciência e o controle sobre o próprio corpo exibidos por yogis treinados em muito supera o que se considerava possível no ocidente”. Drew Leder

É irônico que o corpo, a base de toda experiência, a origem da referência espacial, o centro das coordenadas, escape à nossa apreensão imediata. Permanecemos invisíveis a nós mesmos até o momento em que os sentidos colidam com as superfícies, entrem em choque com a luz, sofram o impacto de sons, aromas e sabores. Construiremos, no ato da concussão, nossa imagem de fora para dentro.  Serão as interações com o meio que irão configurar o espaço do ser vivente.

Desta maneira, o corpo se faz conhecer do visível, do palpável, das camadas mais superficiais, ricamente enervadas, às mais profundas. Antes de tudo, são os dados colhidos em resposta às nossas ações que irão construir o conhecimento que temos a respeito de nós mesmos.

Não por acaso Nietzche chama o corpo de “Herrschaftsgebilde”, ou criação da vontade dominante (apud Schilder).  Como expressão de nossa vontade, mudamos continuamente nossa forma no espaço. O espaço, em resposta, irá revelar quem somos.

Preparatório para Eka Pada Rajakapotasana II

O fim abrupto no fluxo das sensações exaspera-nos.  A consciência sobre nós mesmos provém da continuidade desse curso. Buscamos no movimento, no contato, na impressão, o real significado das coisas.  O real significado de quem somos.

“Nós continuamente ampliamos a moldura da mente a partir da tela do corpo. É como se, ao alongar, criássemos uma tela maior para nossa pintura”. BKS Iyengar