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O Movimento Fundamental.

3 jun


A mão da Sra. Wilhem Roentgen: a primeira imagem de raio-X. 1895.

“E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, no meio da qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular  pairava, preto e frouxo, o anel que o avô lhe legara, um objeto duro desta terra, com o qual os homens adornam o seu corpo destinado a desfazer-se por  baixo dele, para que fique novamente livre e se possa enfiar em outra mão que o use durante algum tempo.” Thomas Mann.  A Montanha Mágica.

Existe um movimento fundamental, que subsiste alheio à nossa vontade, biotipo ou condição física.  Algo rude, construído pelas interações da carne com os ossos, descrito mecanicamente pelas alavancas que atuam soberanas e independentes do sistema nervoso.  Algo essencial, que se mantém livre de qualquer influência psicológica, cultural ou histórica, identificando-nos enquanto espécie.

Desenho de William Cheselden (1688 -1752)

Desenhado nas superfícies articulares há um movimento puro, destituído de qualquer ruído; um gesto imaculado pronto para realizar sua existência no espaço.  Despojado de qualquer perturbação, este movimento guarda as circunstâncias primeiras que irão determinar nossa percepção e conseqüente compreensão de mundo.

Henry Gray.  Anatomy of the Human Body.  1918.

É a partir de nossa intervenção no espaço que a experiência perceptiva ganha vida e o mundo se torna inteligível. “O corpo é, em primeiro lugar, o meio de toda percepção” (Husserl) e irá fornecer a matéria-prima para o desenvolvimento da consciência.

“Percepção não é algo que nos acontece, mas algo que fazemos. O mundo está disponível através do movimento e da interação. A experiência da percepção adquire conteúdo graças à posse de habilidades corporais. O que percebemos está determinado pelo que fazemos, ou o pelo que sabemos como fazer.” Alva Noé

T2W/3D-FFE, Matrix 240, TR/TE 30/14 ms.

Destrinchar os vetores espaciais que trespassam a carne do corpo, despindo o movimento de seu conteúdo pessoal e social, revela a condição primeira do ser humano: aquela que determina a maneira como percebemos o mundo tal como o conhecemos.

Ralph Hutchings, Visuals Unlimited/Science Photo Library

Olhar para dentro significa, portanto, olhar para fora. Identificar as estruturas que determinam a maneira como percebemos e entendemos o mundo é, portanto, reconhecer os limites a priori de toda nossa experiência: a maior liberdade que podemos almejar enquanto seres humanos.

A criação de Adão (detalhe). Michelangelo. 1508-1512.

“Emancipação, liberdade, felicidade pura e imaculada esperam por você, mas você deve escolher embarcar em uma viagem interior para descobrir isso tudo.” B.K.S. Iyengar

Caminho de Volta.

6 maio

‘I walk alone’ de Gottfried Helnwein (2003)

Todos nós temos um potencial latente, não desenvolvido por completo, acumulado à custa do esgotamento de sistemas mais econômicos e confortáveis. De maneira congênita, apoiamos nosso desenvolvimento sobre estruturas mais convenientes, repetindo padrões de movimento à exaustão.

Com sulcos profundos cavados no caminho da ação, tendemos a incorrer na vala já aberta dos enganos, a despeito da riqueza de movimentos disponível. Nossa conduta motora está dominada por atividades reflexas inconscientes, reforçadas e consolidadas pelo tempo.


Protuberâncias e sulcos na cabeça do úmero evidenciam-se com o tempo em função das tensões exercidas pelos tendões que cruzam a articulação.

Muitas vezes, um movimento não é deturpado durante sua realização, mas em sua concepção. Por não participar de nossa narrativa motora, determinado movimento simplesmente não é concebido e, portanto, a chance de realizá-lo inexiste.

Assim, o desenvolvimento do potencial motor passa, necessariamente, pelo aumento de seu repertório.

Atividades físicas que exploram a riqueza e a diversidade de movimentos não são, em si, garantia de alteração na maneira como respondemos aos desafios propostos, tampouco de mudança nos padrões adquiridos. Sem a nossa intervenção deliberada, percorreremos sempre o mesmo atalho, ainda que de maneiras diferentes e de acordo com a natureza da atividade física proposta.

Trilhar um caminho realmente diferente e sem obstruções requer disciplina para abrir uma picada em meio a padrões consolidados e enfrentar percursos frequentemente mais longos e tortuosos.

Liberdade com disciplina é liberdade de fato. (BKS Iyengar).

O desenvolvimento motor inicia-se pela estabilização da cabeça, do tronco e, por último, dos membros, seguindo uma direção cervico-caudal. A aprendizagem de movimentos coordenados, entretanto, segue o caminho inverso, propagando-se das extremidades do corpo em direção à cabeça.

Desde nosso desenvolvimento embrionário, a posição da cabeça influi no movimento total do corpo. Virar a cabeça para o lado e olhar um objeto leva imediatamente o pescoço, os ombros e o tronco na mesma direção. Quando agarramos o objeto, são os dedos das mãos que irão recrutar cotovelos, ombros e tronco para movimentá-lo. O caminho de ida é diferente do caminho de volta.

Aos 6 meses de vida os movimentos descontrolados dão lugar a um controle progressivo da cabeça, dos membros e do tronco.

O movimento irradiado a partir das extremidades do corpo, onde estruturas delicadas contam com grande mobilidade e precisão, interfere na organização de estruturas mais fortes, responsáveis pela manutenção postural, por exemplo.


Ameya Gokhal 2008. BKS Iyengar ajustando praticante de yoga. 

Dispositivos complexos como as mãos e os pés reorganizam o movimento global do corpo ao conectarem-se a unidades de transição como os ombros, quadris e escápulas, promovendo mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o espaço. A propagação de um movimento voluntário para outro não é causal e segue um padrão específico dos grupos musculares (Charles Sherrington).

A implicação das extremidades do corpo no aumento do repertório somático  possibilita a aprendizagem de movimentos antes desconhecidos. Só então uma a atividade física que explore a riqueza de movimentos poderá promover a mudanças de fato.

A Janela do Porão.

28 jan

Foto de Danielle Tunstall. Sem título.

“Cinco janelas na alma se abrem

Do início ao fim os Céus distorcem,

E levam você à grande burla

De que enxerga com e não através delas

De que nasceu numa noite e irá perecer na escuridão

Enquanto a alma descansa em um imenso clarão”

The Everlasting Gospel de William Blake

Abaixo da pele, os estímulos sensoriais são difusos, sua localização ambígua, a intensidade fraca. Sob a derme mergulhamos em uma região de muitas sombras e pouca luz.

O interior do corpo é parcialmente velado à percepção porque os receptores sensoriais encontrados dentro de nós são inferiores em número e variedade aos localizados na superfície. O repertório de respostas obtido de nossos órgãos, portanto, é mais limitado. Assim, somos capazes de discriminar com precisão milimétrica a distância entre dois pontos com os dedos das mãos, mas dificilmente distinguimos uma cólica renal de uma lombalgia.

Escrita em Braille

Podemos sentir o pulso sanguíneo irrigando os tecidos, o movimento visceral, a pressão intracraniana. A introspecção mostra que a escuridão dentro de nosso corpo não é absoluta, mas essa ausculta demanda concentração e treino. O organismo não se revela de imediato e, em regra, somos incapazes de distinguir órgãos, tecidos ou sistemas.

“Diferenças culturais demonstram que certos níveis de apatia visceral podem estar associados à insensibilidade ocidental, podendo ser superados através de um esforço sistemático nessa direção. A consciência e o controle sobre o próprio corpo exibidos por yogis treinados em muito supera o que se considerava possível no ocidente”. Drew Leder

É irônico que o corpo, a base de toda experiência, a origem da referência espacial, o centro das coordenadas, escape à nossa apreensão imediata. Permanecemos invisíveis a nós mesmos até o momento em que os sentidos colidam com as superfícies, entrem em choque com a luz, sofram o impacto de sons, aromas e sabores. Construiremos, no ato da concussão, nossa imagem de fora para dentro.  Serão as interações com o meio que irão configurar o espaço do ser vivente.

Desta maneira, o corpo se faz conhecer do visível, do palpável, das camadas mais superficiais, ricamente enervadas, às mais profundas. Antes de tudo, são os dados colhidos em resposta às nossas ações que irão construir o conhecimento que temos a respeito de nós mesmos.

Não por acaso Nietzche chama o corpo de “Herrschaftsgebilde”, ou criação da vontade dominante (apud Schilder).  Como expressão de nossa vontade, mudamos continuamente nossa forma no espaço. O espaço, em resposta, irá revelar quem somos.

Preparatório para Eka Pada Rajakapotasana II

O fim abrupto no fluxo das sensações exaspera-nos.  A consciência sobre nós mesmos provém da continuidade desse curso. Buscamos no movimento, no contato, na impressão, o real significado das coisas.  O real significado de quem somos.

“Nós continuamente ampliamos a moldura da mente a partir da tela do corpo. É como se, ao alongar, criássemos uma tela maior para nossa pintura”. BKS Iyengar

Fogo no Circo

7 nov

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”

O espelho, Machado de Assis, 1882.

Nascemos plenos, coesos, indissociáveis. O corpo é a materialização de nossas emoções, o adensamento da sensibilidade em torno do tubo neural, a expressão da vontade no espaço, a confirmação, a cada instante, de nossa herança genética e social.  O corpo realiza nossa existência no mundo.

Somos unos, forma e conteúdo, até sermos apresentados à maior de todas as ficções: o espelho.

Reconhecer a própria imagem no espelho exige a construção de um clone, um alheio que se evade ao apagar das luzes.  A criação da imagem corporal edificada de fora para dentro irá inseminar a farsa do sujeito separado do próprio corpo.

O sujeito atrás do espelho apresenta nossa incrível capacidade de manipulação. O corpo se torna passivo de controle e submissão, uma propriedade à disposição.

A imagem refletida do corpo irá coexistir com outras partes do mesmo quebra-cabeça e compor a idéia de totalidade fora de mim.  Tomar a cópia pelo original, porém, exige certo viés psicótico.

Nossa procura pela harmonia das formas, pela pureza das composições, pela ordem das coisas, pela homogeneidade, encontra apenas no delírio da abstração seu possível habitat. A busca pelo ideal sobrepõe imagem ao real e reduz-nos a meros fantasmas de nós mesmos. Ganhamos, assim, o salvo-conduto para ingressar no picadeiro.

Cenas do filme Olympia de Leni Riefenstahl (1938)

A realidade não se encontra na estabilidade fictícia do equilíbrio, mas no caos da multiplicidade.

“Quanto mais maneiras possuímos de fazer o que sabemos, maior a liberdade de escolha. E quanto maior a liberdade de escolha, maior será a capacidade humana. “  Moshe Feldenkrais.

Tudo aquilo que se encontra ancorado no tempo e no espaço tem no corpo seu ponto de referência.  Longe de ser um ponto fixo, porém, o corpo integra e decompõe, irrompe e desaparece, interpenetra, participa da realidade e oferece uma perspectiva pluridimencional  da vida, muito diferente do espetáculo  despojado oferecido pelo espelho diante de nossos olhos.

Reintegrar corpo e mente significa abandonar o corpo enquanto posse, desistir do espetáculo, optar pela intangibilidade do real ao simulacro do ideal. Buscar a ética na raiz da estética.