Arquivo | abril, 2018

Se você não faz, nem imagina.

28 abr

mother Nature

fonte: Mother Natured

Apenas imaginar um movimento em toda sua amplitude, com detalhes, no espaço e no tempo, equivale em certa medida a realizá-lo na prática. Para o cérebro, imagem e realidade confundem-se e, a princípio, acabam ativando as mesmas regiões corticais.

No entanto, a riqueza de nossa experiência conta muito. Se realizamos um movimento várias vezes, buscando deixá-lo mais preciso e objetivo a cada repetição, aumentamos a área cerebral implicada em sua representação. Mais completa e detalhada será a imagem do movimento quanto mais intensa tiver sido nossa experiência anterior ao realizá-lo.

Imagem suscitada movimento 1

Movimento imaginado por atletas (high jumpers) x não atletas (controls)  para o mesmo gesto (Olsson, 2010).

Assim, a força da imagem aumenta nosso repertório perceptivo e, consequentemente, desenvolve a consciência sobre nós mesmos para além dos limites do corpo, em direção ao ambiente que nos rodeia.

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Uttitha Trikonasa, B.K.S. Iyengar

Não somos, portanto, uma folha em branco onde se registra passivamente tudo o que percebemos. A construção do conhecimento depende de uma intervenção ativa do corpo no espaço.

“ O mundo está disponível através do movimento e da interação. A experiência da percepção adquire conteúdo graças à posse de habilidades corporais. O que percebemos está determinado pelo que fazemos, ou o pelo que sabemos como fazer.” Alva Noe

Base é Tudo.

1 abr

base

As pegadas que deixamos para trás são únicas e sem precedentes,  marcas tão distintas quanto nossas digitais e que trazem em suas linhas a história de nossa batalha contra a força da gravidade. Levamos milhares de anos para equilibrar satisfatoriamente um corpo longilíneo e uma cabeça pesada sobre uma base de apoio tão pequena quanto nossos pés, e esta história está longe do fim.

“Apesar de nossa evolução como bípedes, continuamos sendo quadrúpedes em toda nossa estrutura, como demonstram nossos gestos. (…) Sofremos as seqüelas dessa evolução ainda incompleta” (Marcel Bienfait).

Nossas pegadas expressam mais que a busca para vencer terrenos desfavoráveis e superar obstáculos inesperados; evidenciam nossa procura para adequar o corpo, sua singularidade, ao ambiente que habitamos.  Assim, os pés desenvolveram uma estrutura única, onde resistência e mobilidade coexistem, levando ao aparecimento de uma arquitetura efêmera, que ressurge a cada passo, determinada pelas forças que interagem continuamente enquanto nos esforçamos para permanecer em pé.

Desta maneira, os pés negociam continuamente com a superfície que tocam, ora cedendo às irregularidades do terreno, por vezes corrigindo desequilíbrios posturais. As marcas deixadas pelos pés no solo expressam a eficiência dessa troca.

footprint

Quando impossibilitados de desempenhar suas funções plenamente, os pés irão delegá-las aos segmentos adjacentes, que podem não estar preparados para tais atribuições. Surgem então doenças que acometem os joelhões, quadris e coluna, e cuja a causa pode não se encontrar no segmento acometido.

Na prática de Yoga, as posturas em pé estabelecem o alicerce para o desenvolvimento do equilíbrio e da estabilidade, ao mesmo tempo que criam um repertório sobre o qual é possível evoluir com segurança em direção a posturas mais exigentes.

Posturas que experimentam a mobilidade intrínseca dos pés,  exploram o equilíbrio sobre um pé ou em ‘tandem’ são comuns na prática de Yoga e suscitam a instabilidade própria de cada postura, estimulando receptores nervosos de superfície e proprioceptivos que impactam no desenvolvimento global do corpo.

Apenas quando dispomos de uma base firme, podemos colocar o resto da casa em ordem, afinal não é possível construir algo duradouro sobre uma fundação débil.

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