Arquivo | dezembro, 2011

Feche os Olhos e Abra a Boca.

23 dez

Neste Natal vamos comemorar o nascimento de Sir Isaac Newton (25 de Dezembro de 1642) e ao invés de abater animais, vamos colher maçãs.

O sacrifício de animais em datas comemorativas tem origem nos antigos rituais religiosos, quando o bicho era morto para livrar os pecados de seu carrasco. Quer dizer, o animal servia de substituto e morria no lugar do pecador.

Ainda que este ardil tenha se perdido no tempo, seu aspecto mais cruel sobrevive na tradição judaico-cristã.

Separar os ideais de complacência da violência sacrifícial não é fácil e exige uma boa dose de hipocrisia.

Na ceia de Natal, engolimos um animal despojado de sua história, descontextualizado como ser vivo e reconstruído como alimento necessário à nossa sobrevivência. Esta farsa acompanha o prato principal e justifica a violência na busca pelo prazer individual.

Fechamos os olhos e abrimos a boca.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria”. Isaac Newton.

Morfina

9 dez

Lasser Skarbovik para The New Yorker

“A alegria é um sonho, a dor é real”
Arthur Schopenhauer.

Aprender passa pelo corpo. Mesmo os conceitos mais abstratos ou as deduções mais hipotéticas edificam-se a partir de pequenas peças de estímulos sensoriais e motores que nascem da interação do corpo no espaço.

Desta maneira, a inteligência não pode ser amputada da estrutura anatômica e morfológica que nos constitui, uma vez que é esta mesma estrutura a responsável pela maneira que percebemos o que percebemos.

Lasser Skarbovik para Smith Alumnaue Quarterly

Ainda que sejamos capazes de refletir de maneira livre e independente do mundo sensorial, manipulando habilmente signos ligados a uma realidade distante, não é possível separar em nenhum momento o constructo mental de nosso organismo. O corpo é a caixa de ressonância que confirma, molda ou nega o conhecimento adquirido.

Diferente, porém, das especulações imaginárias e suposições generalistas criadas pela inteligência, o corpo desgasta-se, perde agilidade, sente as intempéries do meio. O corpo sofre e a inteligência perde a lealdade de seu fiel interlocutor.

 Utskrift de Lasser Skarbovik  

Não se trata de envelhecimento. Tão pouco são fatores genéticos ou ambientais os responsáveis pela degradação do corpo e do conseqüente comprometimento cognitivo. É o sofrimento e mais precisamente, a fuga da dor que, antes de qualquer coisa, molda o corpo e interfere na maneira como percebemos a realidade.

Ao menor sinal de desconforto, deformamos, trapaceamos, sobrecarregamos estruturas em detrimento de outras, produzimos compensações e desequilíbrios. Estamos dispostos a tudo para fugir da dor e, frequentemente, pagamos um preço alto pelo nosso conforto.

Entendemos equivocadamente a dor como algo a ser extirpado a qualquer custo e não medimos esforços para atingir este objetivo. A dor é o mais soberbo e presunçoso indício de que estamos errados e isso nos irrita. Não estamos, afinal, habituados a aceitar os próprios erros com condescendência.

Free Drawing de Lasser Skarbovik 

A dor deve ser ouvida antes de contestada.  Suas árduas palavras buscam desobstruir vias da percepção e devolver a fluência ao movimento,   restituindo à inteligência a fidelidade do corpo.

A dor surge para por fim à dor.

O corpo entrevado não interage , não assimila, não aprende. O ser vivo requer liberdade de movimento para existir como tal.

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