Arquivo | junho, 2010

A Leveza da Tradição

21 jun

por Yogindra Das

A prática do Ashtanga Vinyasa Yoga é realizada com base em séries fixas de asanas (posturas físicas), em que evoluímos gradativamente de postura em postura à medida em que nos aprofundamos na prática. Um asana é ligado ao outro pelo vinyasa, ou seja, pela sincronização entre o movimento e a respiração desenvolvida, enquanto realinhamos nosso corpo para avançarmos para o asana seguinte.

É muito importante entendermos que a série de ashtanga deve ser praticada tal como ensinada por seu fundador, Sri K. Pattabhi Jois, ou seja, não se admite modificações segundo a vontade do praticante, pois sua construção obedece a critérios bem definidos em textos antigos pesquisados por Jois, em que uma postura relaciona-se com aquela que a antecede e com aquela que a segue, a fim de possibilitar a fruição dos inúmeros benefícios físicos e mentais que a prática bem conduzida pode proporcionar.

Portanto, o Ashtanga, assim como o Yoga em si, obedece ao parampara, ou seja, o conhecimento é transmitido de mestre para discípulo tal como o recebeu de seu próprio mestre, não admitindo interpretações ou modificações, mantendo-se, dessa forma, portanto, a pureza dos seus ensinamentos.

Infelizmente o que percebemos hoje é que esse método de ensino vem se perdendo resultando na descaracterização do Yoga como uma filosofia e, principalmente, uma espiritualidade.

A primeira séria de Ashtanga é chamada de Yoga Chiktsa, pois, sua finalidade é terapêutica. Daí a enorme importância dessa série, a qual deve ser bem estabelecida pelo praticante, a fim de que ele se habilite a avançar para as séries seguintes. Isso porque a primeira série toma um corpo bruto e o transforma no que chamamos de “corpo de diamante”, tal qual um ourives cuidadosamente transforme uma pedra bruta em preciosa. E quando dizemos corpo, referimo-nos também à mente, com seus entraves, tendências e pré-conceitos, que, com a prática diligente, serão destruídos para que surja uma nova mente, uma nova concepção de vida.

Na primeira série, portanto o esforço desenvolvido na sua execução nos confere tônus muscular, principalmente nos braços, ombros, abdômen, e força mental, já que desenvolvemos habilidades tais como perseverança, paciência, determinação, coragem e autoconfiança. É na primeira série que desenvolvemos o complexo corpo-mente, necessário para que possamos avançar para a série seguinte, na qual a força adquirida é fundamental para proteger o corpo das lesões, que podem resultar de uma prática mal executada ou feita às pressas. Por essa razão é que se diz que ainda que estejamos praticando a segunda ou terceira séries, nunca devemos abandonar a prática da primeira, pois ela é o nosso fundamento, a nossa base.

E é durante o aprendizado da primeira série que nos pegamos muitas vezes reclamando da falta de força física, a qual não decorre apenas da falta de tônus muscular, mas principalmente das inúmeras toxinas que ‘grudam’ em nosso corpo e em nossa mente. Toxinas no sentido mais amplo da palavra, que ingerimos através dos alimentos, por imagens, sons e odores, enfim, tudo aquilo que consumimos sem nos darmos conta disso. Tais toxinas permanecem em nosso corpo, principalmente em nossas articulações, impedindo-nos de soltar, alinhar e equilibrar o corpo. Grudam também em nossas mentes, quando achamos que não somos capazes de realizar algo, seja porque nos achamos velhos ou jovens demais, ou porque acreditamos que não nascemos para isso ou para aquilo, enfim desculpas para deixarmos de realizar tudo que podemos em nossas vidas.

Portanto, o esforço desenvolvido na primeira série, que nos leva a suar bastante e nos conduz a uma intensa concentração, é que nos livras das toxinas e purifica nosso corpo e nossa mente. Mas isso não acontece de um dia para o outro, é preciso paciência e sabedoria para entender que cada passo que damos é definitivo. E à medida que sentimos o corpo mais limpo, nossos hábitos gradativamente mudam, visando justamente manter a pureza conquistada com a prática. É dessa forma que muitos praticantes começam a se alimentar melhor e abandonam hábitos destrutivos.

Enfim, a primeira série é uma enorme porta aberta para todos que esperam, mais que a satisfação dos sentidos, uma felicidade baseada na profundidade da alma, realizando dessa forma em suas vidas o grande objetivo do Yoga.

Comendo Animais

13 jun

Jonathan Safran Foer é um dos escritores norte-americanos mais festejados da atualidade. Seu estilo controverso e não convencional suscita constantemente respostas antagônicas e polarizadas em seus leitores. Logo em seu primeiro livro “Tudo se Ilumina” lançado em 2002 foi aclamado pela crítica especializada e pelo público em geral, vencendo o Guardian First Book Award e ganhando uma adaptação para o cinema em filme homônimo de Liev Schreiber.

Em sua primeira empreitada não ficcional, Safran Foer explora o que significa comer carne. Tão apaixonante e bem escrito quanto suas novelas, “Eating Animals” é uma trabalho levado a cabo com grande amor e dedicação.

“Alimentar meu filho não é como me alimentar: é mais importante. Importa mais porque alimento é importante (a saúde dele importa, o prazer que ele sente em comer importa), e porque as histórias que são servidas com a comida importam.”

Apesar de não ser um romance, sua leitura flui tão facilmente quanto a de uma novela. Safran Foer escreve com paixão e, mesmo sendo vegetariano, representa com isenção argumentos de todos os lados da questão, abordando aspectos econômicos, ambientais, de saúde e bem estar animal, além de debruçar-se sobre o ser humano atrás do animal. O livro não enaltece o estilo de vida vegetariano, mas pede pelo fim do modo de produção industrial na qual um ser senciente é submetido e brutalmente assassinado como se fosse matéria-prima inerte e desprovida de sentidos. Com a habilidade de grande escritor que é, Foer se coloca no meio de toda a controvérsia, sangue e pedaços de carne que acabam indo parar em nossa mesa.

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