Arquivo | abril, 2010

O Fantasma no Corpo.

10 abr

Faltava ainda separar a mente do corpo. E com a habilidade de um anatomista do renascimento em dissecar cadáveres, o homem desalojou a mente, essa substância constituída de puro pensamento, do corpo.

A substância pensante ganhou status de sujeito e logo passou a designar o próprio indivíduo. Era o uso que cada homem fazia dessa substância que o tornava reconhecido entre seus pares e, ao mesmo tempo, distinto dos demais. Se “penso logo existo” portanto “sou aquilo que penso” e a mente ocupou o lugar do espírito na antítese evangélica corpo-espírito.

O novo ponto-de-vista promoveu ganhos no campo da medicina que evidenciaram, no entanto, um corpo insurgente que enfileirava diante de médicos atônitos uma miríade de distúrbios, cujos sintomas não guardavam qualquer relação com aquele organismo dissecado sobre a maca. Dores agudas, transtornos sensoriais e motores, episódios de amnésia e sonambulismo não tinham sua origem estabelecida no corpo e estavam definitivamente fora do alcance dos bisturis. Sem saída, a mente foi novamente suturada ao corpo para dar sentido à dor, à histeria e à neurose. Assim, de modo enviesado, pelo caminho da anomalia e da doença, a mente reaproximou-se do corpo, ainda que persistisse a priori o profundo hiato entre ambos.

Assim, órfãos do próprio corpo, perdemos contato com nosso organismo. Não se trata de distinguir a dor lancinante decorrente das inflamações severas ou prever a ocorrência de surtos agudos de qualquer espécie, mas em reconhecer as mais sutis ameaças que um ambiente adverso pode representar à nossa saúde. Dissolver a insensibilidade amalgamada durante a vida e refazer as conexões perdidas confere maior discernimento sobre nossas interações com o mundo. Aprender a ouvir o corpo nos ensina sobre quais alimentos consumir, adverte-nos sobre a insalubridade de determinado lugar, repele o perigo e cultiva bem-estar. Enfim, unir o que não está separado – corpo e mente – estimula a longevidade porque dá voz ao impulso primeiro que rege cada uma de nossas células, a sobrevivência.

Saturar o corpo com estímulos através da realização de atividades físicas que explorem a riqueza de movimentos recria os canais de comunicação negligenciados e refaz a intimidade perdida. Desenvolver exercícios que ampliem o potencial do corpo não significa submetê-lo a um propósito estético-funcional, pois isso nada mais faz além de corporificar o ego e toda sua sintomatologia.

Impor ao corpo a vontade e a pulsão significa usufruir da grande adaptabilidade de nosso organismo para tentar encaixá-lo (to fit) na pessoa que almejamos ser. Ter o sujeito descrito em termos de medidas e índices não significa exatamente superar a dualidade corpo-mente, mas simplesmente instalar o corpo no processo de individuação antes ocupado pela “substância pensante”.

Exercícios físicos pródigos em estímulos neuromusculares expandem a consciência a todo o corpo e nos capacita a ouvir e refletir sobre os impulsos provenientes do corpo.

Fantasmas em nosso próprio corpo, observamos deslumbrados as emoções se formando no córtex orbital do cérebro ou a memória estimulando o lobo temporal medial nos exames de neuroimagem. O fascínio reside em reencontrarmos no corpo algo que nos havia sido seqüestrado por um discurso artificial e que excedeu em muito o campo do método para, aos poucos, nos desvelar aos pedaços.

Explorar os limites do corpo amplia as possibilidades do sujeito e não as reduz, pois evidencia a indistinção entre mente e corpo.

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