Arquivo | fevereiro, 2010

Sobre Peixes e Homens.

28 fev

Sem um chão firme, atolamos. Afundamos até que o solo abaixo de nossos pés se compacte o bastante para impedir nossa viagem Terra adentro. Concentramos todo nosso peso na pequena área compreendida entre os calcanhares e os dedos dos pés. A partir desta parca base de apoio criamos um alicerce para erigir nosso corpo do chão com todos os seus segmentos e apetrechos. Assim descolamos da superfície em direção ao espaço.

Quando saltamos da água para a terra firme, há pouco mais de 380 milhões de anos atrás, o esqueleto, antes sustentado gentilmente pela água em toda sua extensão, passou a custear nossa empreitada contra a gravidade. Um grande número de músculos se desenvolveu para bancar essa excursão em direção à terra firme e conferir uma estrutura adequada para que os ossos pudessem dar conta do recado e continuar a exercer suas funções.

Nos mares e rios, enquanto desloca uma quantidade de água equivalente a sua densidade, um peixe não afunda nem bóia. Sobe à superfície ou mergulha coordenando seu deslocamento no eixo vertical através de um sistema intrincado de controle biofísico, gerenciado por um cérebro complexo e receptores de pressão extremamente sensíveis. Sair da água e desgarrar-se do chão não foi fácil e tivemos que rastejar muito no barro antes de começar a engatinhar em terra firme.

Não se tratava apenas de respirar ar ao invés de água. Deixar mares e rios para trás representou sobreviver à ausência da sustentação oferecida pela água, passar a suportar a força descendente da gravidade e adaptar-se à resistência ascendente do chão ao peso. Finas e delicadas barbatanas adensaram-se na forma de patas musculosas.

De quatro no chão, os músculos se entrecruzaram em toda a extensão do torso em várias camadas, sustentando e ligando a coluna vertebral entre a bacia e os ombros. Como uma ponte pênsil, o tronco foi erguido do chão entre as patas da frente e de trás, suspenso pelas linhas de força que interligam toda sua estrutura anatômica de forma global. Qualquer movimento, do mais amplo deslocamento ao gesto mais delicado, mobiliza todo o corpo de modo a equilibrar suas incursões no espaço. Pata anterior direita para frente, posterior esquerda para trás; enquanto a bacia apoia os ombros, os ombros equilibram a bacia e assim o corpo campeou sobre os mais diversos tipos de terreno, vegetação e clima.

Levou ainda algum tempo antes de conseguirmos tirar as patas anteriores do chão para derrubar nosso almoço das árvores ou esticar o braço pela janela do carro para pegar um lanche no drive thru. Aos trancos e barrancos, adquirimos a forma mais adequada para desempenhar as funções necessárias à nossa sobrevivência, sem abandonar completamente algumas características em desuso, carregando em nosso corpo toda a história que nos trouxe até aqui. E a história continua…

“Apesar de nossa evolução como bípedes, continuamos sendo quadrúpedes em toda nossa estrutura, como demonstram nossos gestos. (…) Sofremos as seqüelas dessa evolução ainda incompleta” (Marcel Bienfait).

Responder com liberdade às exigências do meio é um estatuto do corpo e uma premissa adaptativa sem a qual adoecemos. Contar com as condições para que as solicitações do meio possam ser solucionadas pelo corpo, promovendo as mudanças necessárias de modo eficaz, sem limitações e isento de dificuldades extraordinárias, é sinônimo de uma vida longa e sem sofrimento.

“Quando o homem levantou seu corpo do chão, assumindo a postura ereta, as desvantagens de se apoiar sobre uma base pequena foram enfrentadas por vários dispositivos e através de mudanças estruturais. Estas mudanças se mostraram insuficientes para resolver todos os problemas. Como consequência, o funcionamento do esqueleto como um mecanismo de proteção é frequentemente colocado em risco por ajustes mecânicos inadequados. A inteligência humana deve ser aplicada a este problema” (Mabel E. Todd).

Um coração tão grande quanto o mundo.

17 fev

Com lançamento previsto para Março, o novo CD de Krishna Das “Heart As Wide As The World” traduz toda a devoção contida nos kirtans aos ouvidos ocidentais. Há alguns samples no site da Amazon (link abaixo). Destaque para o kirtan Narayana, que associa uma batida trance ao estilo cântico-respota sem deixar a peteca cair. Não é a primeira incursão de Krishna Das à música eletrônica, que preserva as raízes do canto devocional indiano sem ceder aos maneirismos disseminados por Goa e que costumam soar tão falsos quanto samba japonês.

Reservas na Amazon, no link abaixo.

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A Gravidade da Alma

1 fev

Não há espaço vago dentro do corpo e mudanças em sua superfície, até mesmo as mais sutis, levam a uma reorganização de tudo aquilo que se abriga sob a pele, nos mais diversos níveis. Do deslocamento de algumas camadas de células epidérmicas a alterações no espaço ocupado por um órgão, somos bastante sensíveis às forças que incidem sobre nós. A partir dos estímulos que recebemos da vida, começamos a esboçar o espaço que ocupamos no mundo.

A pele delimita uma área no espaço que chamamos de “eu” e estabelece um diálogo privilegiado com a vida fora do corpo. Essa conexão entre o lado de dentro e o de fora determina a maneira como nos inserimos e participamos do mundo. Retiramos assim da realidade externa a matéria-prima que nos dará forma e conteúdo.

Tocamos com as mãos um objeto qualquer e passamos imediatamente a obter informações sobre a temperatura, a textura e a localização do objeto em relação a nós. A pressão dos dedos sobre a superfície leva a alterações na pele que estimulam terminações nervosas a nos prestar informações sobre nossa força, nossa capacidade de mover ou parar objetos, nossa capacidade de exercer influência e sermos influenciados pelo mundo externo. Tateando, sentimos se nossas interações são amistosas ou não e, aos poucos, construímos nossa identidade, descobrimos nossos limites e estabelecemos nossos papéis sociais.

A partir das forças que incidem sobre nosso corpo, e que têm na gravidade seu principal vetor, nossos músculos e ossos abrem espaço e arquitetam este abrigo, o corpo.

No decorrer desta construção, a excessiva rigidez do corpo surge como resposta instintiva às agressões do meio. Acuado, um animal rapidamente mobiliza a musculatura estriada (voluntária) para se defender ou atacar. Com o tempo, tornamo-nos tão hábeis em tonificar, enrijecer, fortalecer e compactar que a simples menção ao relaxamento nos traz ansiedade. Em permanente estado de vigília, não conseguimos mais descansar. Sentimos o medo da entrega.

Do outro lado deste espectro, a indolência abate-se sobre o corpo fraco, levado à exaustão pelo excesso de estímulos ou pela carência de respostas do meio. Com todas as necessidades satisfeitas, hibernamos apáticos. Na ausência de respostas às nossas questões, desistimos de perguntar. Na falta ou na fartura, enraízam-se o desânimo apriori, a ociosidade, a desistência premeditada, a inação e, por fim, a pulsão por solidão como forma de assegurar um espaço mínimo à existência do corpo.

Assim, conquistar o espaço do corpo significa tomar consciência das forças que determinam nossa natureza e das respostas que oferecemos ao mundo de modo a nos mantermos afastados de uma vida mórbida e alienada.

A rigidez garante a sustentação do corpo, como eixo capaz de possibilitar ao nosso organismo existir. A flexibilidade estrutural permite o movimento na busca pela sobrevivência. É o equilíbrio entre força e flexibilidade que tornará possível uma vida saudável e consciente.

As forças que resistem às pressões externas não devem impor limites à expressão do corpo, mas prover sustentação e equilíbrio para uma manifestação plena e livre de condicionamentos. Ceder, por sua vez, não significa abrir mão do próprio espaço, mas outorgar ao outro o nosso reconhecimento a seu direito de existência contígua, no mesmo plano em que se encontram todos e tudo aquilo que podemos tatear com nossos sentidos.

Em equilíbrio as forças se anulam e no lugar onde havia oscilações e desvios, passa a vigorar a estabilidade. Só então podemos observar com discernimento e liberdade, o movimento da vida .

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