Saia da Baia 2010.

23 dez

Promessas de ano-novo são um sinônimo de fracasso premeditado. Perder peso, guardar dinheiro, entrar em forma, estudar, viajar, fazer trabalho voluntário, reduzir colesterol, organizar gavetas, mudar de emprego, namorado ou marido. Talvez o excesso de champanhe nos leve a crer que chegou o momento de por em prática tudo aquilo que empurramos com a barriga o ano inteiro e ainda não conseguimos tirar do papel. Pois o “ano-que-vem” chegou.

Coisa nenhuma muda enquanto subsistem os valores, crenças e temores de ontem. Ficamos, sim, um pouco incomodados com nossa resignação frente aos fatos, mas nada que abale seriamente nossas raízes firmemente estabelecidas na esteira dos acontecimentos. Enquanto não nos desapegamos daquilo que somos, dos papéis que exercemos ou das funções que ocupamos, tendemos a continuar exatamente onde estamos a despeito de nossos esforços.

A idéia de abhininvesa, como apresentada nos Yoga Sutras por Patanjali, presta-se muito bem para elucidar nosso eterno retorno ao ponto de partida. Causa de aflição, abhininvesa relaciona-se ao nosso apego à vida e medo da morte. A morte, contra a qual cada ser vivo trava uma feroz batalha desde seu nascimento até o fim derradeiro, está na raiz da vida e “(…) a impressão latente causada pela experiência da dor da morte é a mesma tanto no sábio quanto no ignorante” (Bangali Baba).

Situados em algum lugar entre “sábios” e “ignorantes”, transportamos astutamente nosso medo da morte para lugares onde podemos exercer alguma ascendência sobre ele, por exemplo, no trabalho, no âmbito familiar ou junto aos amigos. Uma vez emparedados pelas divisórias do escritório ou pelos muros de casa, porém, sentimos pânico só de pensar em olhar por cima da baia. O fim de um casamento duradouro, por exemplo, traz um sentimento de perda tão profundo quanto a morte de uma pessoa querida. E o que dizer sobre a reunião marcada no departamento pessoal para o fim do expediente? Sobram alegorias da morte em nossas vidas a alertar-nos periodicamente sobre os perigos da mudança.

O conceito de abhininvesa não aborda estritamente o fim da vida biológica, ainda que este seja sua matéria-prima, mas relaciona-se com a idéia de fim em geral. O medo atávico da morte acaba sustentando o continuísmo, a repetição e nosso eterno retorno à linha de largada. Nada muda significativamente enquanto não formos capazes de nos desapegar daquilo que somos.

Por outro lado, cada minúscula, precisa e corajosa incisão feita por nós em nossa própria índole refletirá profundamente em nossa conduta, em nossos costumes e na vida, promovendo mudanças exponenciais em tudo o que gravita ao nosso redor. Expectativas sobre o futuro perdem completamente o sentido neste contexto, colocando em nossas mãos a decisão sobre o que fazer amanhã.

Em 2010 prometa que não fará promessas: “seja a mudança que você quer ver no mundo” (Mahatma Gandhi).

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