Arquivo | dezembro, 2009

Saia da Baia 2010.

23 dez

Promessas de ano-novo são um sinônimo de fracasso premeditado. Perder peso, guardar dinheiro, entrar em forma, estudar, viajar, fazer trabalho voluntário, reduzir colesterol, organizar gavetas, mudar de emprego, namorado ou marido. Talvez o excesso de champanhe nos leve a crer que chegou o momento de por em prática tudo aquilo que empurramos com a barriga o ano inteiro e ainda não conseguimos tirar do papel. Pois o “ano-que-vem” chegou.

Coisa nenhuma muda enquanto subsistem os valores, crenças e temores de ontem. Ficamos, sim, um pouco incomodados com nossa resignação frente aos fatos, mas nada que abale seriamente nossas raízes firmemente estabelecidas na esteira dos acontecimentos. Enquanto não nos desapegamos daquilo que somos, dos papéis que exercemos ou das funções que ocupamos, tendemos a continuar exatamente onde estamos a despeito de nossos esforços.

A idéia de abhininvesa, como apresentada nos Yoga Sutras por Patanjali, presta-se muito bem para elucidar nosso eterno retorno ao ponto de partida. Causa de aflição, abhininvesa relaciona-se ao nosso apego à vida e medo da morte. A morte, contra a qual cada ser vivo trava uma feroz batalha desde seu nascimento até o fim derradeiro, está na raiz da vida e “(…) a impressão latente causada pela experiência da dor da morte é a mesma tanto no sábio quanto no ignorante” (Bangali Baba).

Situados em algum lugar entre “sábios” e “ignorantes”, transportamos astutamente nosso medo da morte para lugares onde podemos exercer alguma ascendência sobre ele, por exemplo, no trabalho, no âmbito familiar ou junto aos amigos. Uma vez emparedados pelas divisórias do escritório ou pelos muros de casa, porém, sentimos pânico só de pensar em olhar por cima da baia. O fim de um casamento duradouro, por exemplo, traz um sentimento de perda tão profundo quanto a morte de uma pessoa querida. E o que dizer sobre a reunião marcada no departamento pessoal para o fim do expediente? Sobram alegorias da morte em nossas vidas a alertar-nos periodicamente sobre os perigos da mudança.

O conceito de abhininvesa não aborda estritamente o fim da vida biológica, ainda que este seja sua matéria-prima, mas relaciona-se com a idéia de fim em geral. O medo atávico da morte acaba sustentando o continuísmo, a repetição e nosso eterno retorno à linha de largada. Nada muda significativamente enquanto não formos capazes de nos desapegar daquilo que somos.

Por outro lado, cada minúscula, precisa e corajosa incisão feita por nós em nossa própria índole refletirá profundamente em nossa conduta, em nossos costumes e na vida, promovendo mudanças exponenciais em tudo o que gravita ao nosso redor. Expectativas sobre o futuro perdem completamente o sentido neste contexto, colocando em nossas mãos a decisão sobre o que fazer amanhã.

Em 2010 prometa que não fará promessas: “seja a mudança que você quer ver no mundo” (Mahatma Gandhi).

Feliz Natal, Peru.

6 dez

O peru está tão associado ao Natal quanto o Papai Noel, e, em que se pese a semelhança física entre ambos (o que pode causar alguns sérios equívocos), um deles certamente não escolheu estar em nossa casa durante as festas de fim-de-ano.

Seres sencientes são aqueles que sentem, que percebem e recebem impressões. Com certeza podemos tomar esta definição do Houaiss e aplicá-la indistintamente a qualquer peru entre o céu e a terra, mas quantas ressalvas teríamos que adotar para empregar o mesmo conceito aos homens? Isto posto, é bom que se diga, não queremos que ninguém termine este fim-de-ano no lugar do peru, em cima de uma bandeja, assado ao ponto, cercado de rodelas de abacaxi e laranja. O homem, afinal, tem provado no decorrer da história, ainda que tardiamente e ao custo de muita tolice, alguma evolução ética e de respeito ao próximo. Já ao peru, coitado, criado intensivamente e morto precocemente, não foi dada esta alternativa.

Na natureza, o peru vive em média 10 anos, mas é criado intensivamente em escala industrial, engordado artificialmente e morto em, no máximo, 26 semanas. Em tão pouco tempo de vida, o peru não tem tempo hábil para se organizar e negociar salvaguardas do tipo “somente peru violento deve ir ao forno“ ou “peru aposentado, peru assado.” A prerrogativa de escolher, julgar e executar coube a nós, seres conscientes, e a responsabilidade final pelos nossos atos acabaram indo parar nas mãos do divino e no colo das gerações futuras.

Ser consciente não significa apenas ter percepção do que ocorre dentro de si próprio, mas também contar com algum grau de objetividade sobre o que se passa em torno de si. Se não dominamos nossa capacidade de perceber, pensar ou agir; se excluímos nossa fração de responsabilidade do todo, não somos merecedores da alcunha de seres conscientes e, consequentemente, não somos legítimos signatários do gênero humano.

Ser humano é uma condição única na natureza na qual a própria vida se reflete, tornando possível certa autonomia sobre os impulsos mais primitivos. Assim, exercitar a reflexão liberta-nos, à medida que não fazê-lo aprisiona-nos.

Em todos aqueles que andam sobre a terra ou movem-se no ar, em todas as criaturas vivas ou inanimadas, reconheça Brahma.” Gheranda Samhita.

Boas Festas,

Namaste,

Franca & João

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