Arquivo | outubro, 2009

Uma Pedra no Caminho.

26 out

Mais de 200 articulações evoluíram no mínimo 100mil anos e adaptaram-se das savanas africanas às montanhas do Himalaia, do calor do equador ao gelo dos pólos e colonizaram o mundo, tudo isso para terminarmos presos a uma baia de escritório, movimentando-nos do trabalho para a garagem, da garagem para casa, de casa para a garagem e de volta para o trabalho. Ainda vivos, submetemos com naturalidade nosso corpo à rotina de um moribundo terminal. Obviamente adoecemos.

A dor eclode em nossas vidas como um incômodo obstáculo interposto em nossa história que deve ser rapidamente suplantado a fim de podermos continuar fazendo o que queremos da maneira que escolhemos.

A dor, como a pedra de Drummond, nos obriga a parar e observar – duas coisas que estamos desabituados a fazer. “No meio do caminho tinha uma pedra”. Mais fácil é chutar a bendita e continuar andando, afinal, se há algo que conseguimos fazer com maestria é chutar. Resolvemos com demora e dificuldade nossos problemas, mas procrastinamos com a habilidade de um craque.

Não vemos a dor como resultado de um processo; mais acostumados estamos a entendê-la como um acidente de percurso. Tentamos retardá-la, sublimá-la, desqualificá-la e subjugá-la de todas as maneiras que encontramos. Topamos qualquer parada: de remédios a terapias miraculosas. Pagamos alto e exigimos resultados imediatos. Não nos importamos em submeter nosso corpo às penas previstas nas contra-indicações das bulas, desde que não precisemos mudar uma linha em nosso diário.

Atados à baia, ficamos doentes, doentes ficamos improdutivos e improdutivos tornamo-nos desqualificados para o trabalho. Sinuca de bico. Melhor é empurrar tudo para baixo do tapete. E quando não houver mais tapete, já no consultório médico, somos solicitados a parar as já estagnadas articulações: Pare o que você está fazendo e usufrua do fantástico mundo dos analgésicos, anti-inflamatórios e miorrelaxantes. Saída mais rápida, simples e conveniente não há. Difícil é encarar as coisas de frente e sair da zona de conforto.

Culturas que guardam bons hábitos posturais geralmente envolvem grande variedade e diversidade de movimentos em seu cotidiano: Sentam-se no chão, correm, carregam peso de variadas formas e andam muito. As mulheres Xhosa de Transkei (leste da África do Sul), por exemplo, saem de casa bem cedo e vão para o trabalho dançando pelos campos.

Se a dor é um sinal, o resultado de um processo como dissemos, não deve ser entendida como causa de sofrimento, mas forte aliada pela busca de uma solução, ainda que esta solução nos pareça tão impraticável quanto dançar pelas ruas nas manhãs de segunda-feira.

Conquistar a capacidade de observar a dor, sem se deixar governar por ela, é encontrar a suma liberdade. Freqüentemente trocamos os grilhões da dor pela dos remédios, das ideologias, das terapias e até, de forma enviesada, dos exercícios físicos. Frente à dor é preciso serenidade não ansiedade. É preciso observação e não identificação.

Caminho para Rtambhara.

12 out

Lugar de difícil acesso, fora dos mapas e conhecido por poucos. Impossível de ser abarcado por palavras, mas cuja existência é certa. Rtambhara oferece uma visão privilegiada a todos que lá chegaram e é o destino mais procurado por aqueles que se propõe a entender melhor suas próprias origens. De todos que lá estiveram nunca ninguém jamais esqueceu Rtambhara.

Chegando em Rtambhara tudo passa a ser compreendido. Não se trata de saberes comuns, da tradição e da inferência, não mais os saberes cognitivos da lógica e da dedução, mas um conhecimento que nasce naturalmente, como resultado do completo e absoluto estado de lucidez. Como descrito nos Yoga Sutras de Patanjali, em Rtambhara o saber intuitivo contém a verdade.

Podemos dizer com razoável segurança que os Yoga Sutras são uma compilação sobre um conhecimento que já era amplamente difundido no Oriente no momento de seu aparecimento e cujos conceitos podem ser observados em diversas tradições filosóficas como no Budismo, Taoismo ou Sufismo por exemplo. Datado do segundo século DC, os Sutras são o fio condutor que levam ao Yoga ou, resumidamente, à comunhão. Assim os Yoga Sutras delineam as práticas que devem ser realizadas, os obstáculos que serão encontrados, os resultados que serão obtidos por todos aqueles que se prontificam a seguir o caminho do Yoga. Ou seja, um verdadeiro mapa para quem busca encontrar-se consigo mesmo.

Este mapa versa sobre as condutas morais (yamas), individuais (nyamas), atividades físicas (ásanas) e técnicas respiratórios (pranayamas) que pavimentam o caminho para a autonomia dos sentidos (pratyahara), concentração (dharana), meditação (dhyana) e dissolução (samadhi). Notadamente, não há hierarquia entre estes pontos: à medida que um destes pontos (angas) se desenvolve, os outros também ganham peso. Entretanto apenas alguns destes pontos podem ser aprendidos.

Distante daquilo que se convencionou chamar de “aprendizagem” do lado de cá dos Urais, aprender significa vivenciar, experimentar, pois “uma imagem evocada por palavras, dissociada da experiência, é fantasia” (Yoga Sutra I.9). Você pode conhecer o significado de ahimsa, por exemplo, após ter lido muito e discorrer horas sobre o conceito de não-violência, citando Gandhi e tudo mais. Porém, se você não é capaz de por este yama em prática ou sequer entender a importância deste yama para a sua vida e a vida dos demais, não pode afirmar que o aprendeu.

Ásanas (posturas física) e pranayamas (práticas respiratórias) resumem o que há para ser ensinado e aprendido dentro do Yoga. A prática diligente de ásanas e pranayamas criam as condições para que os outros angas comecem a ganhar corpo e venham a se tornar valores importantes na vida do yogue. Nossa mente, ainda que inconstante e vaga, pode facilmente engajar-se na prática do ásana enquanto o corpo se move para ganhar alinhamento e estabilidade. Assim, alinha-se o corpo para centrar a mente e a mente, serena, está pronta para seu caminho em direção a Rtambhara.

B.K.S. Iyengar diz, “se alguém lhe ensinar a meditar, desconfie” e também afirma “yoga sem meditação é uma árvore sem frutos”. A aparente incoerência faz sentido quando entendemos que ásanas e pranayamas criam as condições para que se possa manter a concentração e o foco na meditação e começar a trilhar um caminho que é único no universo, pessoal e intransferível.

Ter comprometimento e disciplina para continuar andando em direção a Rtambhara faz parte da prática do yogue. Caminha-se nesta direção naturalmente, mesmo desconhecendo o mapa, sem acesso aos pontos de referência e alienado de indicadores, pois o yogue intui, ásana pós ásana, ser este seu caminho.

Talvez seja este o motivo que leva tanta gente a afirmar – com razão – que yogues são pouco afeitos à teoria e dedicam-se em demasia à prática. Quem escolheu este caminho, afinal, sabe que a trilha faz parte da aventura.

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