Arquivo | julho, 2009

No Stress

11 jul

Quando os médicos falam em “depressão” não querem necessariamente dizer desânimo, angústia ou abatimento – sentimentos pelos quais todos nós passamos por vezes ou outra. A depressão clínica é um estado de tristeza ou excitação crônica que reduz profundamente a qualidade de vida de quem padece de seus sintomas e, se não tratada adequadamente, pode levar ao suicídio. Associando antidepressivos e psicoterapia, médicos buscam melhorar o ânimo e a disposição de seus pacientes. Por sua vez, a prática freqüente de Yoga pode atingir objetivos mais ambiciosos e não apenas aplacar os sintomas da depressão, pois coloca a pessoa em contato com a vida, conectando-a com uma fonte própria de tranqüilidade e quietude que lhe é inata.

Recentemente, médicos têm centrado esforços em tratar a depressão a partir das alterações bioquímicas do cérebro, especialmente usando drogas para elevar a atividade de neurotransmissores como a seratonina. Este é o mecanismo de ação dos medicamentos mais prescritos, também chamados de Inibidores Específicos da Recaptação da Serotonina (ou SSRIs – Selective Serotonin Reuptake Inhibitors) como Prozac, Paxil e Zoloft. Mas existem muitos outros caminhos – incluindo exercícios aeróbicos e Yoga – que elevam os níveis de seratonina e aumentam a atividade dos neurotransmissores.

Enquanto existem muitas pessoas no mundo do Yoga que têm um ponto-de-vista negativo sobre medicação antidepressiva, é certo que em alguns casos estes medicamentos são necessários e podem até salvar vidas. Mesmo apresentando fortes efeitos colaterais, algumas pessoas com depressão profunda e recorrente parecem apresentar melhoras substanciais quando fazem uso destes medicamentos. Outros podem beneficiar-se do uso de anti-depressivos por um curto período de tempo, enquanto começam a praticar exercícios, fazer dietas ou praticar Yoga, ganhando um tempo precioso antes que o uso do medicamento seja descontinuado.

Pessoas com depressão leve ou moderada não devem buscar nos SSRIs um atalho para a solução de seus problemas. Para estas pessoas, em adição à prática de Yoga, o chá de erva de São João (Hypericum perforatum) e o incremento de ômega 3 em suas dietas têm apresentado eficácia comprovada no tratamento da depressão. Essas medidas, se associadas a antidepressivos prescritos, auxiliam no tratamento de depressão severa.

Existe muito improviso no que tange à indicação e prescrição de antidepressivos e as pessoas acabam fazendo – e tomando – coisas que não fariam caso esses medicamentos fossem destinados à diabetes ou doenças do coração. Talvez isso faça parte da noção que problemas de cunho psicológico devam ser superados com um “sacode a poeira e dá a volta por cima”. Essa abordagem, obviamente, raramente funciona e os resultados costumam gerar traumas adicionais. Em se tratando de depressão, a terapia com remédios deveria ser considerada uma alternativa e os tratamentos alternativos uma terapia.

Personalizando a prescrição Yoguica.

De acordo com a tradição do Yoga, podem existir dois tipos de depressão. Uma reside sob a dominância de “tamas”, conceito associado à inércia. As pessoas que se enquadram neste perfil se sentem letárgicas e sem esperança. Uma pessoa com depressão tamásica, por assim dizer, apresenta-se fisicamente com os ombros e peitos contraídos e respira com dificuldade.

O tipo mais comum de depressão, entretanto, enquadra-se sob a dominância de “rajas”, o conceito associado à atividade e ação. Estas pessoas apresentam-se irritadas com freqüência, são competitivas e podem parecer agitadas. Em posturas recuperativas (como savasana ou ardha-padmasana), suas pálpebras e dedos apresentam movimentos espasmódicos sutis. Algumas pessoas reportam sentir dificuldade em relaxar ou respirar durante os exercícios respiratórios (pranayamas); um sintoma sistematicamente ligado à ansiedade.

De uma perspectiva Yóguica, pessoas que se enquadram dentro do conceito de tamas, devem concentrar a prática em atividades em que a respiração é fundamental, particularmente respirações profundas. Práticas vigorosas como o Surya Namaskar, equilíbrio-de-braços e outras posturas desafiadoras podem ter efeito terapêutico. O corpo e a mente estão tão ocupados com a prática que se torna difícil sair do controle e dispersar a mente. Neste caso, o alinhamento postural deve ser inicialmente relegado a um segundo plano e, desde que não se esteja fazendo nenhuma ação que possa levar a uma lesão, o melhor é focar a mente na respiração. Retroflexões, em particular, podem ser estimulantes e ajudar a enfrentar as caraterísticas de tamas, inicialmente com Setu Bandha Sarvangasa e posturas mais ativas, como Ustrasana e Urdhva Danurasana. Uma vez superadas as características de tamas através do Yoga, é possível relaxar mais profundamente. Pessoas que se enquadram no perfil tamásico não devem praticar relaxamento antes dos ásanas sob o risco de mergulhar em pensamentos não desejados.

Praticantes com depressão rajásica também tendem a responder positivamente à prática de Suryanamaskar e retroflexões, ainda que alguns considerem estes ásanas muito fortes. Práticas vigorosas têm a vantagem de ajudar os estudantes a queimar energia enquanto exigem concentração para não deixar a mente à deriva. Neste caso, uma prática intensa fornece as condições para que a pessoas que se enquadra neste perfil possa descansar com eficiência.

De fato, algumas pessoas têm tal tendência à divagação, ansiedade e pessimismo que o simples fato de fechar os olhos para relaxar em posturas recuperativas, como Savasana por exemplo, pode tornar-se contra-produtivo. Qualquer uma destas práticas pode, se necessário, ser executadas com os olhos abertos.

Dr. Timonthy McCall é editor médico da Yoga Journal Magazine.

O Nome da Dor

11 jul

De repente as posturas mais simples ficaram difíceis e seus músculos parecem discordar de você o tempo todo. Quem está começando a praticar Yoga ou quem tirou apenas alguns dias de folga durante as férias parece ter uma tarefa colossal à frente: encarar a dor.

Após algum tempo sem praticar Yoga, experimentamos dor e rigidez nas articulações e nos músculos exercitados. Atividades físicas incomuns ou atividades que não estamos acostumados causam dor nos músculos, mas o que seria esta dor e porque ela acontece?

A dor é uma proteção frente a possibilidade de uma lesão ou após a lesão já ter acontecido. Resumidamente, a dor estimula sua própria remoção. Ela pensa o tempo todo em como livrar-se de si mesma.

O caráter pessoal da dor e a habilidade para tolerá-la é algo muito subjetivo e, conseqüentemente, difícil de definir. Um pianista habilidoso, por exemplo, pode martelar as teclas de um piano por horas a fio, com seus braços dobrados e invertidos sem o menor sinal de desgaste, enquanto outras pessoas pediriam água em bem menos tempo.

Em suas “Investigações Filosóficas” o filósofo Ludwig Wittgenstein usa a “dor” para exemplificar o caráter público do entendimento e do significado. Para ele, a dor só pode ser conhecida a partir da introspecção. Não sabemos o que a dor significa para outras pessoas. Não é prudente acharmos que estamos falando sobre a mesma coisa. De alguma forma, entretanto, para poder comunicar o sentimento de dor ela deve fazer parte do jogo da linguagem pública.

A dificuldade em denominar a dor com precisão justifica a profusão de exames diagnósticos e métodos de avaliação à margem de nossos “ai ai” e “ui ui”. A partir de alguns exames é possível traçar um raio-x até de nosso caráter, obtendo aspectos emocionais e psíquicos que influem em nosso comportamento e personalidade. Um pequeno esforço para fechar o foco sobre esse assunto é categorizar as dores mais comuns decorrentes da prática de Yoga em virtude do tempo de seu aparecimento.

Uma dor temporária (dor aguda) pode persistir por várias horas imediatamente após um exercício extraordinário, enquanto uma dor residual (dor crônica), ou dor muscular de início tardio (DMIT) pode aparecer a seguir e durar por 2 a 4 dias.

Dor durante os exercícios (Dor Aguda)

Este tipo de dor muscular aguda que, como o nome indica, ocorre durante e imediatamente após o período de exercício, é considerado como associado à falta de um fluxo sanguíneo suficiente (isquemia) para os músculos ativos.

A dor muscular aguda ocorre quando a tensão gerada no músculo é suficientemente intensa para gerar oclusão do fluxo sanguíneo para os músculos ativos (isquemia). Por causa da isquemia, os produtos da atividade metabólica, tipo ácido lático e potássio, não podem ser removidos e, dessa forma, acumulam-se até o ponto de estimularem os receptores dolorosos localizados nos músculos. Essa dor persiste até que seja reduzida a intensidade da contração ou que esta cesse totalmente restaurando o fluxo sanguíneo e fazendo com que os produtos metabólicos de desgaste possam ser removidos.

A queimação percebida durante a execução do exercício é relacionada à falta de oxigênio e conseqüente queda de pH, pois o acúmulo de íons de hidrogênio provoca acidose e estimula os receptores de dor, os quais sinalizam para a interrupção do exercício antes que ocorram lesões no tecido muscular. Mas este mecanismo é transitório pois a acidose é rapidamente revertida por um sistema de tamponamento que trabalha para manter o pH dentro dos limites fisiológicos.

A dor aguda, embora possa importunar, não constitui um grande problema, pois é de curta duração e desaparece quando se suspende o exercício. O problema mais sério é a dor muscular de início tardio (DMIT), que é a dor e mialgia que ocorrem num período de 24 a 48 horas após o término das sessões de exercícios, podendo ser estender por ainda mais tempo.

Dor muscular tardia (Dor Crônica)

A Dor Muscular Tardia (DMIT) está relacionada ao processo inflamatório caracterizado por micro-lesões do tecido muscular. Diversos fatores envolvidos no processo inflamatório estimulam os receptores de dor, provocando o incômodo verificado em decorrência das lesões, o que ainda poderá ser percebido nos dias seguintes. Deste modo vemos que a dor pode ser iniciada pela lesão, mas sua causa são os mecanismos inflamatórios; desta forma não há relação direta entre a sensação de dor e os danos teciduais.

Para o fisiologista Turíbio Leite, a dor do dia seguinte tem seu aspecto positivo – desde, é claro, que seja um quadro moderado de dor. A explicação: no processo de regeneração das microlesões, o músculo vai se remodelando como forma de se adaptar ao exercício, o que resulta em fortalecimento.

Sentir uma “dor gostosa” após o exercício é sinal de que seu corpo está reagindo e buscando melhorar sua performance. Mas diante de um quadro de dor mais forte ou prolongada, é recomendável reduzir a intensidade da prática para evitar uma lesão mais grave e procurar um especialista. Afinal, o que você quer é continuar se exercitando, não?

Dor na cabeça, no pescoço e fibras superiores do trapézio.

Muitas pessoas começam a praticar Yoga devido aos benefícios de sua prática no combate ao stress. Dores na cabeça, no pescoço e nas fibras superiores do trapézio são bastante comuns entre os iniciantes que costumam trazê-las para dentro da sala de aula. Sejam quais forem os motivos destas dores, uma coisa é certa, a dor é muito incômoda, pois trava o pescoço, deixa a região toda dolorida, gera dor de cabeça e nos dá a impressão que estamos carregando alguém sentado nos nossos ombros.

Cefaléia resultante de espasmo muscular: a tensão emocional causa muitas vezes o espasmo de vários músculos da cabeça, incluindo, principalmente, os músculos fixados ao couro cabeludo e os músculos do pescoço, com pontos de inserção occiptal (base do crânio), e acredita-se que essa seja uma das causas mais comuns de cefaléia. A dor do espasmo dos músculos da cabeça é supostamente referida às áreas sobrejacentes da cabeça e produz o mesmo tipo de cefaléia que as lesões intracranianas.

Como podemos prevenir a dor

No que diz respeito ao Yoga, o alongamento presente nos ásanas (posturas) tem forte peso profilático quando associado à prática muscular intensa, que também é do Yoga. O alongamento, a gradatividade nos exercícios físicos e a consciência corporal ajudam a blindar nosso corpo contra as dores, mas não o isenta.

O alongamento muscular deve ser realizado sem violência ou solavanco, pois isso poderia lesar ainda mais os tecidos conjuntivos. A montagem dos ásanas é progressivo e gradual na intensidade reduzindo a possibilidade de dor muscular excessiva, pois prepara o corpo para o passo seguinte.

A consciência corporal, por fim, é fundamental para mitigar a dor. Com já dissemos, a dor só pode ser conhecida a partir da introspecção e apreendida pela linguagem. Entretanto, se a mente não é íntima do corpo, não há inteligência que baste para ligar informação à dor, não há paz, aprendizagem, não há caminho visível para erradicação da dor.

Como a vida, “a prática [ de Yoga] não se limita a sensações prazerosas. Trata-se de percepção e a percepção nos leva a distinguir e entender a ambos, prazer e dor.” (B.K.S Iyengar). Na postura correta, não há dor, mas para chegarmos à postura correta precisamos enfrentar a dor. Neste ínterim, realizar ásanas com facilidade, sem nenhum esforço real, leva o praticante a viver dentro dos limites da mente. Não existe crescimento pessoal.

É imprescindível ter a dor como aliada; um termômetro que nos avisa da proximidade de nossos limites. A dor está ali para nos ensinar, porque a vida é repleta de dor. E a não ser que você viva em um mundo tão leviano quanto superficial, a dor deve estar tão presente em seu cotidiano quanto o prazer e deve ser encarada de modo apropriado. Afinal, “Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor” (Fernando Pessoa).

Andar “Isquiosito”.

11 jul

O quadril é projetado para frente, o meio das costas desaba para o chão, fechando o peito e arqueando os ombros e para equilibrar tudo isso lançamos nossa cabeça à frente. Esses aborrecidos ísquios-tibiais. Sua obstinada inflexibilidade é uma fonte de frustração para a maioria dos praticantes de Yoga, Pilates e alongamento, principalmente por terem ouvido falar que as posturas de flexão podem livrá-los de dores nas costas e atuar na melhora de sua postura global.

E mais: Ficou provado que músculos alongados atingem mais cedo o auge da força e usar a força mais cedo, no caso da musculatura, é funcionar melhor. E essa antecipação se torna viável porque as sessões de alongamento promovem uma multiplicação curiosa a dos sarcômeros. “Eles são as unidades contráteis das células musculares”, define Mauro Chagas, da UFMG. Imagine seus músculos: cada um deles é formado por células bem compridas, as fibras, que, por sua vez, possuem minúsculas estruturas alinhadas, os tais sarcômeros. Quanto mais dessas estruturas, mais cada fibra consegue se esticar. “E também mais tempo ela consegue ficar fazendo força”, resume Gustavo Tasca.

No entanto, esse é o tipo de benefício que só aparece se você mantiver uma rotina. Isto é, se fizer Yoga, Pilates, Tai Chi Chuan ou aulas específicas de alongamento com regularidade. “Não são aqueles alongamentos isolados, feitos antes ou depois da ginástica, que irão aumentar os seus sarcômeros”, desmistifica o fisiologista Júlio Serrão, professor de biomecânica da Universidade de São Paulo. É preciso fazer mais e sempre.

Os ísquios-tibiais são compostos por um grande grupo de quatro músculos atrás das coxas e trabalham constantemente para nos manter de pé, para andar e correr. Devido à difícil natureza de seu trabalho, a estrutura de seu tecido é conseqüentemente robusta. Uma abundância de tecidos conectivos fazem dos ísquios tibiais mais difíceis de alongar que outros músculos. Mas a estrutura de seus tecidos não explicam, por si só, tamanha rigidez e resistência.

Os ísquios-tibiais tem duas funções: Eles estendem nosso quadril e flexionam nosso joelho. Quando nós andamos ou corremos estes músculos se contraem poderosamente, propelindo nosso quadril à frente com tanta força que nos movemos. E quando nós dobramos o joelho para levar o pé que ficou atrás para frente, os ísquios tibiais contraem-se para dobrar o joelho. Desta forma literalmente viajamos sobre nossos pés.

De maneira geral, os ísquios-tibiais dependem do que fazem nossos próprios pés.

Aqui vai o paradoxo: Os ísquios-tibiais podem, ao mesmo tempo, flexionar ou extender os joelhos. Ainda que o propósito destes músculos seja dobrar os joelhos, quando o joelho entra em hiperextensão, esses músculos participam na extensão o joelho.

A rigidez de nossos ísquios-tibiais pode ser exacerbada dependendo da maneira como nos calçamos. Calçados com sistemas de amortecimento evitam que usemos nossos calcanhares de maneira apropriada quando andamos e tendem a projetar nosso quadril à frente quando estamos em pé. Isso sobrecarrega os ísquios-tibiais enquanto deixam os glúteos subdesenvolvidos como músculos posturais. Em comparação, sociedades com a cultura para andar descalços mostram uma significante diferença no desenvolvimento dos músculos relacionados à postura.

Para alongar os ísquios-tibiais nada de pressa. Cada grupo muscular precisa ser exercitado de três a quatro vezes. “Mantenha a musculatura esticada por 30 segundos, mas sem forçar demais”, ensina Gustavo Tasca. “O incômodo precisa ser tolerável, aquela dorzinha gostosa”.

Os isquiotibiais encurtados demoram em atingir o pico da força no caso, apenas no grau 59. Provavelmente a musculatura está tão debilitada que não tem capacidade para executar o movimento no ponto certo.

Depois de ganhar comprimento e flexibilidade, os músculos chegam ao auge da força antes no grau 55. Isto é, durante o movimento de flexão do joelho, os músculos fazem mais força e por mais tempo. Significa que têm mais potência.

Dê download do texto completo, disponibilizado pela Yoga+Joyfull Living (em inglês) aqui.

Veja também: http://saude.abril.ig.com.br/edicoes/0261/corpo/conteudo_88060.shtml

O Bailarino e o Engenheiro

11 jul

Estar preparado para praticar Yoga não quer dizer que você deva ter um corpo esguio, estar apto a levar os pés atrás do pescoço ou conseguir permanecer horas de ponta-cabeça. Flexibilidade e força não são sequer pré-requisitos para a prática. A diferença fundamental entre o praticante determinado e o incapacitado é a atitude mental . Quando se diz que a prática de Yoga envolve o corpo e a mente tende-se a pensar em aspectos místicos, provenientes de uma cultura distante que residem além de nossa compreensão racional. Porém, o que fica evidente na prática de Yoga é a repetição de padrões de pensamento, comportamento e movimento que levam ao sucesso ou para um retumbante fracasso, dentro ou fora da sala de aula. O mat- tapetinho de Yoga – é um laboratório onde se reproduzem in vitro nossas experiências cotidianas e como reagimos a elas. E isso não depende de nenhuma energia transcendente ou de uma força maior que atua sobre cada um de nós.

Viagem ao olho do furacão.

Praticamos Yoga a partir dos ásanas – posturas de Yoga -, desvelando o próprio corpo em camadas, das mais superficiais às mais profundas. Inicialmente preocupamo-nos com o desenho da postura, com o seu ‘jeitão’ e com o que ela deve se parecer. Pernas muito ou pouco afastadas. Braços erguidos e a cabeça? Para onde eu olho? Assim, em uma primeira abordagem, a realização do ásana depende de um esboço, uma descrição. Estamos apenas na forma da postura e melhor seria chamá-la de ‘pose’. Muitos praticantes experientes permanecem nesta etapa do processo por toda a vida.

A partir da forma bruta do ásana, existem os pequenos ajustes, a sintonia fina, os detalhes que pouco a pouco aumentam o grau de complexidade do ásana tornado-o mais refinado, completo e seguro. Os chamados ‘alinhamentos’ são o ponto-de-partida do ásana na busca por maior estabilidade e permanência na postura. Esta etapa exige um rearranjo de forças e propõe mudanças na maneira como nos movimentamos nem sempre óbvias de serem atingidas.

A viagem continua. Agora, apenas olhos treinados e experientes são capazes de observar os movimentos mais sutis em nosso corpo. Devemos realizar ações que muitas vezes nos são incompreensíveis e que parecem pertencer ao âmbito da imaginação e irrealizáveis na prática. Movimentos indissociáveis devem ser desconectados. Ossos, músculos e pele devem mover-se com liberdade e independência, um exercício intelectual e motor nem sempre fácil de ser obtido por iniciantes e iniciados. Vencendo todo desconforto e cansaço, a inteligência busca incessantemente agremiar os sentidos e colocar em prática movimentos até então inconcebíveis. As “ações internas” como são chamadas, conectam inteligência e corpo de forma profunda e orgânica. Em uníssono, começamos a praticar Yoga.

Assim, pouco a pouco, caminhamos para dentro de nós mesmos, enfrentando todas as resistências motoras e psicológicas até que, por algum momento, tem-se silêncio e quietude. Há paz dentro desse oceano de estímulos, aflições e impulsos ao qual chamamos de “eu”. Freqüentemente, quando tomamos contato com este breve e preciso momento somos impelidos a abandonar o ásana imediatamente, às vezes abandonar a aula ou até mesmo a prática de Yoga em definitivo. O silêncio é o fim de todas as viagens e poucas coisas podem ser ao mesmo tempo tão angustiantes e reconfortantes quanto o silêncio. Tão saturados de estímulos que somos, perdemos a capacidade de nos locomover sem a escora de réguas e compassos, ainda que esta viagem seja em direção a nós mesmos: sentimos medo. Fugindo da dor e consolidando experiências agradáveis, condicionamos nosso corpo e mente a padrões repetitivos. Construímos assim nosso próprio cárcere, buscando torná-lo mais agradável e seguro a cada segundo de nossas vidas, em prejuízo da liberdade a qual temos direito por natureza. Paradoxalmente, temos as chaves das grades, ainda que atribuamos a função de carcereiro a um número sem fim de pessoas e situações distantes de nós. Praticar Yoga e permanecer calmo no olho do furacão requer prática diligente e inteligência.

Um ásana é como um peão, que encontra seu equilíbrio no movimento. Assim, a estabilidade não é sinônimo de imobilidade ou inatividade. Tampouco significa ranger os dentes para permanecer na postura. Se lutamos contra nosso corpo em uma postura é muito pouco provável que nos aproximemos da estabilidade almejada. Esta atitude mental não é correta e a busca pela estabilidade nestas condições é inócua. Quando a postura amadurece, não há necessidade de esforço algum. ‘Sthira sukham asanam’ – ásana é a estabilidade do corpo e imobilidade da mente.

O Bailarino e o Engenheiro.

Tanto o praticante mais flexível quanto aquele que mal chega com as próprias mãos nos joelhos dependem, a priori, de muita consciência para empreender tal viagem. Não se trata de desafiar os limites do corpo em busca de uma medalha de ouro ou burlar as leis da biomecânica para angariar aplausos no centro do picadeiro. Na prática de Yoga, lesões e traumas resultam de movimentos sem a correspondente predição da consciência.

Um praticante com grande força e mobilidade pode ter dificuldade para entender as sutilezas da prática de Yoga e mobilizar grandes e desnecessários esforços para realizar uma postura, executar movimentos supérfluos, e, ainda que aparentemente realize um ásana, estar tão longe dele quanto sempre esteve. O “bailarino” olha para o ásana e busca reproduzi-lo em seu corpo, atentando somente para o desenho da postura, sujeitando seu corpo ao aspecto formal do ásana, mobilizando forças e mimetizando a postura em seu corpo com maestria. Mas este não é o seu ásana, não é a sua viagem e, a não ser que a postura contribua para torná-lo mais próximo de si mesmo, isto também não é Yoga.

Em outro vértice do mesmo prisma, temos aquele que mal encontra espaço na inatividade de seu corpo para realizar sequer os movimentos mais simples de seu cotidiano, o que dirá sobre os exigentes movimentos requisitados pela prática de Yoga. Uma vez que tudo no mundo se apresenta como obstáculo, torna-se imperativo mudar o mundo. O “engenheiro” que reduz a vivência a uma fórmula, submete o bom senso à razão e abre um túnel ao invés de escalar a montanha, sentirá dificuldade em fazer o caminho inverso e deixar-se guiar pela luz difusa da experiência. Após a ingênua e ansiosa tentativa de sujeitar um ásana à voz da razão, um sonoro e frustrante “eu não consigo” tende a materializar-se. Conseguir o que? O que a razão almeja, afinal? Será que a prática de Yoga foi reduzida a um plano de objetivos e metas? Pode-se executar um ásana com proficiência ainda em seus estágios iniciais. Pode-se não realizá-lo em absoluto, ainda que nos encontremos em sua forma final. Para o Yogue a viagem é tão proveitosa (e necessária) quanto o destino. O prelado da inteligência nos induz a acreditar que podemos sujeitar o corpo à nossa vontade e conveniência, daí o sentimento de impotência e derrota que por vezes sentimos dentro e fora do mat. A inércia do corpo é a inércia da razão e não existe ferramental para tal empreitada que não seja o entendimento da profunda conexão entre mente e corpo, nós e o ambiente, eu e você. A prática diligente de Yoga nos prepara para aceitar o mundo tal qual ele se apresenta a nós e usufruir dele como nos apresentamos a ele, sem a intervenção de bisturis, serrotes ou retroescavadeiras.

Em comum, resultantes de sua própria história, a figura do bailarino e o engenheiro refletem os anseios que cada um tem em relação à vida e a maneira como articulam estes anseios para conseguir seus objetivos, quaisquer que seja eles. Ainda que o corpo resista a levantar-se do sofá e a mente relute em aquietar-se, há uma vontade instintiva, uma certa inteligência que levará a ambos para cima do mat, além das dificuldades e limitações em busca de silêncio e paz: uma centelha que arde sob todas as intempéries.

Geral

11 jul