Inverta-se

11 jul
Em busca da iluminação divina há mais de 4 mil anos, meditando e praticando
Yoga durante dias, meses e anos sem parar, alguns hindus começaram a
entender a si mesmos e ao próprio corpo como resultado direto de sua
atividade física. Alguns sinais mais profundos e sutis do corpo vinham à
tona e acabavam por se tornar recorrentes e previsíveis. O ritmo do coração,
a velocidade dos fluidos no corpo, as variações de temperatura e muito
mais… Tudo devidamente observado, avaliado e registrado dentro da
linguagem dominante na época.

Algumas escolas de hatha yoga acreditavam
que amrita – o néctar da imortalidade – era guardado dentro da caixa
craniana. Com o passar dos anos, o valoroso néctar escorria em direção ao
abdômen onde era consumido pelo fogo interno. Assim, virar de cabeça para
baixo –  realizar uma postura invertida – poderia reter amrita prolongando a
vida de um praticante disciplinado.

O tradicional livro Hatha Yoga Pradipika lista uma postura invertida
chamada Viparita Karani como sendo uma das que tem o poder de conquistar o
tempo e sublimar a morte. “Na região do umbigo fica o sol solitário, cuja
essência é fogo; no palato fica a lua eterna, cuja essência é néctar. O
palato pinga o néctar boca adentro e é queimado pelo sol na altura do
umbigo. A postura Viparita Karani é realizada para reter o néctar que seria
perdido” (Goraksha Shataka).

Vipartira Karani com o suporte de bolster e bloco
 
Nosso entendimento sobre como as posturas invertidas afetam nosso corpo
pode ser obtido de outras fontes como estudos de caso, princípios de
biomecânica, medição das alterações de freqüência cardíaca ou pressão
sanguínea e, principalmente, a partir da observação dos efeitos das
invertidas sobre quem pratica essas posturas regularmente.

De todas as evidências que podemos testemunhar, uma se destaca: As
posturas invertidas mudam nossa relação com a força da gravidade. Somos
íntimos da força da gravidade afinal, foi ela quem deu direção e sentido ao
desenvolvimento de nossos músculos e ossos desde nossa gestação. Nosso corpo
se formou para manter nossas funções vitais ‘com’ e ‘apesar’ da força da
gravidade. Nosso senso de orientação espacial e equilíbrio, determinado pelo
sistema vestibular do ouvido interno e calibrado pelo movimento dos fluidos
reage principalmente à posição da cabeça em relação à gravidade (equilíbrio
estático). Ficar de cabeça para baixo muda completamente nossa perspectiva
em relação ao mundo e ao corpo.

O corpo humano é particularmente sensível à gravidade porque usa água
como sistema de refrigeração, alimentação e filtragem. Complexas redes de
vasos, válvulas, bombas e membranas mantêm nosso corpo nutrido e em
equilíbrio. A eficiência do funcionamento de todos os sistemas é condição de
sobrevivência.  Quando uma pessoa realiza uma postura invertida,  inverte-se
o nível de exigência sobre os sistemas para manter os fluídos correndo no
mesmo sentido.

Sistema Cardiovascular

O sistema cardiovascular é composto pelo coração e sistema de vasos que
entregam oxigênio e alimentos às células e coletam resíduos e dióxido de
carbono das células. As artérias aplicam um intrincado sistema tributário a
partir do coração, bombeando sangue rico em oxigênio coletado nos pulmões
para o corpo. As veias trazem o sangue de volta ao coração e, diferente das
artérias, compõe um sistema de baixa pressão que depende do movimento
muscular e da gravidade para mover o sangue. As válvulas mantêm os fluídos
se movendo em um único sentido em direção ao coração, em um sistema
conhecido como retorno venoso. Assim, virar de cabeça para baixo encoraja o
retorno venoso. Uma pessoa teria que realizar uma atividade aeróbica muito
intensa para obter o mesmo retorno venoso proporcionado por uma postura
invertida.

Posturas invertidas dão um descanso para nosso coração. O coração trabalha
pesado para assegurar que sangue oxigenado chegue ao cérebro e aos órgãos
sensórios. Quando praticamos invertidas, a pressão diferencial sobre o corpo
é revertida a o sangue flui  naturalmente para a carótida.

A despeito da noção popular de que há um maior “fluxo” ou “volume” de
sangue e oxigênio para o cérebro quando se está de cabeça para baixo, é
preciso deixar claro que o corpo é dotado de mecanismos muito robustos que
controlam a quantidade de oxigênio e sangue que envia para todas as regiões
do corpo, independente de sua relação com a gravidade. Mudanças de pressão
arterial foram constatadas mediante a inversão ou a compressão de veias
sanguíneas principais, dependendo de cada posição corporal, mas isso é uma
questão que não tem relação com o fluxo do volume de sangue, e portanto,
tampouco prejudica o suprimento de oxigênio.

O cérebro está protegido contra um afluxo de sangue que poderia
sobrecarregar suas delicadas estruturas e quando pessoas saudáveis praticam
posturas invertidas não há afluxo excessivo nos vasos sanguíneos do cérebro.
Pressão demasiada no cérebro ou olhos esbugalhados, entretanto, devem
alertar-nos para mudanças na prática porque apontam para características
individuais que devem ser levadas em conta.

Sistema Respiratório

O diafragma, principal músculo respiratório, tem o formato de uma abóbada
assimétrica e divide o tronco ao meio entre as cavidades torácica e
abdominal. Ou seja, o diafragma é o teto da cavidade abdominal e o chão da
torácica, até praticarmos uma postura invertida.

Em Sirsasana ou Salamba Sarvangasana, o “teto vem abaixo”. Os órgãos da
cavidade abdominal, sobretudo o fígado, passam a exercer peso sobre o
diafragma tornando a inspiração mais difícil. Submetido a um treino com
halteres, o diafragma trabalha mais para inspirar elevando a cavidade
abdominal contra gravidade. Nestas condições, a expiração, antes realizada
no relaxamento do diafragma,  passa a ser tão facilitada que leva o
diafragma a ter que trabalhar de forma concêntrica para controlar o retorno
do centro tendíneo (volta do halteres). A situação é tão incomum aos
músculos respiratórios que é natural sentir falta de ar nos momentos
iniciais destas posturas.

 
 
Salamba Sirsasana exige alinhamento preciso da cervical.

A necessidade de se estabilizar a massa corporal de acordo com a força da
gravidade leva muito dos músculos da respiração, que também são músculos
posturais a se manterem ativos durante toda a fase da respiração.

Sistema Imunológico

Durante a prática de posturas invertidas, os fluidos dos tecidos são
drenados das extremidades inferiores do corpo com eficiência máxima. Áreas
de congestão são limpas. “Se você pode permanecer em uma postura invertida
de 3 a 5 minutos os fluídos do corpo irão fluir eficientemente para as veias
e canais linfáticos das extremidades inferiores do corpo, do abdomem e
órgãos pélvicos, e a troca de nutrientes e resíduos entre células e
capilares será facilitada.” (David Coulter, Ph.D., Yoga International 1992).

O sistema linfático é responsável pela eliminação dos resíduos
metabólicos, equilíbrio dos fluídos e pela resposta do sistema imunológico.
Os vasos linfáticos compõe um sistema de transporte à parte que deságua no
sistema sanguíneo pelas veias subclávias. O sistema linfático é análogo ao
de esgostos – uma intrincada e subterrânea rede que liga todas as casas na
cidade e mantém os cidadãos saudáveis.

Posturas invertidas, assim, são análogas às fossas no porão, empurrando o
esgoto em direção ao encanamento. A linfa é dependente de ação muscular e da
gravidade para facilitar seu escoamento. Por ser um sistema fechado, de
pressão constante, com válvulas em direção a um único sentido, quando alguém
vira de cabeça para baixo, todo o sistema linfático é estimulado,
fortalecendo o sistema imunológico. Viparita Karani é o melhor exemplo
disso, como uma invertida suave, que qualquer um pode praticar por no mínimo
5 minutos de permanência, sem estress ou fatiga.  Por isso que, em uma
pessoa com varizes ou edema nos pés, quando a linfa não é capar de manter o
equilíbrio apropriado mas extremidades inferiores do corpo, o médico
simplesmente pede que o paciente leve as pernas para cima.

Contra-indicações

Apesar dos benefícios, as posturas invertidas guardam várias restrições
que devem ser respeitadas tanto por praticantes iniciantes como yogues
experientes. Posturas invertidas colocam muita pressão entre as vértebras C5
e T1, o que pode causar a irritação dos nervos e a compressão do plexo
braquial, podendo comprometer a circulação, o que se evidencia através do
adormecimento dos braços e mãos em tais posições.

Conhecer e conseguir realizar o alinhamento preciso da coluna cervical
em Sirsasana é pré-requisito para a realização deste ásana e suas
variações. A opção por posturas com suporte de blocos, mantas ou
cadeiras  permite ao praticante usufruir os benefícios sem comprometer
sua saúde e bem-estar.
 
 
É preciso que o praticante saiba como alongar sua coluna em posturas
como Adhomoukha Vrksasana, Pincha Mayurasana e Vasisthasana e
desenvolver equilíbrio, clareza de propósito e força muscular antes de
se aventurar em tais posturas.

Menstruação e posturas Invertidas

Na tradição do Yoga, mulheres menstruadas não devem praticar posturas
invertidas. Não há consenso sobre os motivos para tal proibição. É relevante
saber que a menstruação é fonte de intensas alterações no corpo da mulher,
de conseqüências bastante particulares. Associar estas mudanças às
promovidas pela prática de invertidas, como as vistas aqui, pode ser
contra-producente e fonte de stress.

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